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imprensa

Janeiro/2006

International Magazine
Ana Carolina Landi e Ricardo Schott

Ney Matogrosso: no DVD e no Palco

Surgido de um show dado por Ney em dezembro de 2004 no Sesc Pinheiros, em São Paulo, em comemoração ao aniversário do Canal Brasil, o DVD Canto em qualquer canto é mais um "filhote" de um artista que, raríssimas vezes, erra a mão quando lança discos ou programa shows. Acaba também fazendo a diferença ao se assemelhar, de certa forma, ao Pescador de pérolas, que Ney lançou em 1987 e que representou um marco em sua carreira - era o registro ao vivo de um show no qual Ney aparecia de terno, cantando um repertório sofisticado, ao lado de Arthur Moreira Lima (piano), Paulo Moura (sax alto e soprano), Rafael Rabelo (violão), Chacal (percussão). Para quem estava acostumado com o cantor que dançava, se pintava e usava as roupas mais extravagantes no palco, era um susto - anunciado anteriormente pelo próprio cantor no espetáculo À Luz do Solo, de 1986, que não gerou disco nem video. "A partir do Pescador de Pérolas uma parte do público se afastou, porque eu estava sério, de terno. Mas ao mesmo tempo, um outro público se aproximou", diz o cantor num texto publicado em seu site (www.uol.com.br/neymatogrosso). "E dentro desse processo, continuei e não me modifiquei completamente. Então o antigo público voltou e se juntou a esse novo. Eu não posso me queixar. Sei que o público me entende, gosta de mim ousado, gosta de me ver arriscando".

No show do Canal Brasil, sugeriu-se a Ney que escolhesse, em seu repertório, o que gostaria de cantar. No DVD e CD, Ney manteve o formato do show, acompanhado apenas por quatro músicos - Pedro Jóia (alaúde e violão), Ricardo Silveira (guitarra e violão), Marcello Gonçalves (violão de sete cordas) e Zé Paulo Becker (violão) - e revisitando clássicos de seu repertório em forma de recital. Graças a discos como Pescador de Pérolas e À Flor da pele, Ney adquiriu confiança para ser visto como um cantor que pode trabalhar com música de raiz, chorinho MPB, pop nacional e demais sonoridades, sem que isso pareça estranho para seus fâs ou para os que não conhecem tão bem seu trabalho. Nisso, entram tanto a sofisticação de "Tanto amar" (Chico Buarque) e "Amendoim torradinho" (Henrique Beltrão) quanto a hispanidade de "Dos cruces" (Carmelo Larrea), a inventividade de "Canto em qualquer canto" (de Ná Ozzeti e Itamar Assumpção), as belas harmonizações de "Ardente" (Joyce) e o lado mais pop de "Já te falei", parceria de Dadi, da Cor do Som, com os Tribalistas Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte - e já gravada por Rita Lee em seu Balacobaco. O disco ainda tem uma extensa versão de "Oriente", de Gilberto Gil, até então inédita no repertório de Ney e duas canções feitas por Pedro Jóia com Tiago Torres da Silva, "Duas nuvens" e "Uma canção por acaso", além de uma pouco conhecida danção do segundo disco dos Secos & Molhados, "O doce e o amargo". Uma grande surpresa, que é apenas um dos lançamentos que Ney planeja para breve - logo, sairá o DVD do show Vagabundo, com Pedro Luís e a Parede acompanhando o cantor.

Além dos discos, Ney tem retornado aos palcos do Brasil, e em particular, do Rio - sua temporada no Canecão, programada para os dias 20, 21 e 22, já terá acontecido quando esta edição do International Magazine chegar às bancas. Recentemente, os cariocas tiveram oportunidade de vê-lo no palco em duas ocasiões. A primeira no dia 20 de novembro, na Praia de Copacabana, num show do Barão Vermelho da série Encontros Tim. O grupo, em fase de lançamento do CD/DVD Ao vivo MTV dividiu também o palco, naquela noite, com Zélia Duncan e com o Monobloco, mas Ney foi um dos que mais chamou a atenção. Vestido com uma malha toda "tatuada", ele acompanhou o Barão em clássicos como "O tempo não pára", "Porque a gente é assim" e... "Homem com H"! Sim, o Barão tocou uma versão forrock do velho baião lançado por Ney no álbum Ney Matogrosso, sua estréia na antiga gravadora Ariola, em 1981. "Essa a gente nunca tocou ao vivo. Vamos ver se sai legal hoje à noite", disse Frejat, preparando a surpresa para o público.

No dia 22, a surpresa foi a apresentação do show Canto em qualquer canto no Jóquei Club, numa festa da Sociedade Viva Cazuza, de Lucinha Araújo. Curiosamente, num lugar que até poderia mais a ver com um show pop (dada a associação Cazuza-Ney, já que os dois foram amigos), o cantor apresentou um set acústico, tranqüilo, assemelhado ao CD e ao DVD, com algumas diferenças. Do repertório constavam algumas músicas que não estavam na track list do Canto...: “Poema”, de Cazuza e Frejat (em versão ao vivo definitiva, só com o quarteto de violões), “Fala” (do Secos & Molhados), “Ela e Eu” (de Caetano Veloso) e “Rosa de Hiroshima” (do Secos). Ficou a imagem de um show mais simples, às vezes até improvisado - e, no caso da apresentação em si, não era feito para um grande público, já que os ingressos custavam caro e a lista de convidados incluía socialites e artistas. Assim como no DVD, Ney larga o aspecto performático de sua obra para dramatizar mais as letras, usando como maiores recursos a voz e a expressão. Uma grande prévia do que Ney anda planejando para suas próximas aventuras no palco.