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imprensa

Dina Gusmão
Jornal Correio da Manhã

Cada show é uma estréia

Ney Matogrosso. O músico apresenta hoje na Universidade de Coimbra e amanhã no Coliseu de Lisboa um espectáculo que cruza músicos e músicas num acto de liberdade total, de que falou ao CM. E disse muito mais...

Correio da Manhã – Hoje em Coimbra e amanhã em Lisboa vai rever espaços e públicos distintos. Que impressão guarda de ambos?
Ney Matogrosso – Sempre ouvi falar dessa diferença de públicos e, de facto, imaginava que o de Lisboa seria tão solto como o do Porto seria reservado, mas, depois de conhecer os dois, fiquei sem entender a diferença... Seja onde for, no final eles quase derrubam o teatro com aquela pateada que é uma coisa única no Mundo. E em Coimbra não é diferente: volto a actuar no pátio da Universidade, um espaço maravilhoso, e só espero que tenha uma lua linda igual à da minha primeira vez lá.

– Por falar em primeira vez, com 30 anos de carreira, o sentimento de estreia ainda atrapalha?
– Sempre! Cada ‘show’ é uma estreia. Não perco isso de ficar todo nervoso, todo suado. Faz parte. Para mim é assim, nunca foi diferente... Superstição não tenho, mas preciso da solidão do camarim um pouco antes de entrar em cena. É o tempo de me concentrar numa força maior que entre em mim e me percorra até que eu a possa expandir para as pessoas quando entrar no palco. Eu sou apenas um veículo.

– Na origem deste espectáculo está o CD/DVD de 2005, que partilham com ele o título... Em que diferem?
– Tudo começou com um especial de fim-de-ano para a televisão e a razão das 14 músicas iniciais é porque esse era o tempo do programa... Foi a única coisa que fiz no género e, quando resolvi dar-lhe uma carreira, teatralizei tudo bastante, aumentei-lhe o tempo e, claro, acrescentando mais cinco músicas e um ‘bis’, que, no seu contexto, fecha todo o ciclo do ‘show’. Esse ‘bis’ é a última palavra que digo ao público.

– Este trabalho é um acto de liberdade total: da escolha das músicas à dos músicos...
– É verdade que sim mas também faz tempo que já só trabalho assim. Afinal, sempre são 30 anos! Acabei fazendo o que tinha vontade e misturei temas inéditos com repertório meu mais antigo e, até, músicas de outras pessoas...

– Como do nosso Pedro Jóia...
– É. Só dele, são dois temas... Quando conheci o Pedro Jóia, a gravar o disco da Né Ladeiras, fiquei admirado com o seu talento, mas não tive coragem de o chamar... Quando ele me telefonou dizendo “estou pensando em ir morar aí”, disse-lhe logo: “Venha, ora, o que eu estiver fazendo você fará junto.”

– Adiado ficou, entretanto, o projecto de disco em espanhol, certo?
– Certo mas o disco não é inteiramente em espanhol. É um álbum pop, com reportório e compositores inéditos. Mas eu sempre cantei em espanhol, afinal, o meu avô era argentino e a minha avó paraguaia... Jamais cantaria em inglês mas o espanhol faz parte da minha memória, do meu universo.

PERFIL

Ney Matogrosso, 64 anos de idade e 30 de carreira, dispensa apresentações... Faz parte da galeria de intocáveis da música popular brasileira. Desde que se estreou com os Secos e Molhados passaram 30 discos, o último dos quais, este ‘Canto em Qualquer Canto’, na origem dos concertos que o trazem a Portugal. Os anos moldaram-lhe a rebeldia. Mantém a irreverência de sempre mas trocou a agressividade pelo humor e está melhor do que nunca... A comprovar esta noite, por sugestão do próprio, no tema ‘O Último Desejo’.