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imprensa

Rio, 10/04/2003

Jornal do Brasil

Ney Matogrosso interpreta Cartola ao Vivo ( CD e DVD)

Ney Matogrosso Universal Music João Bernardo Caldeira Se em Ney Matogrosso interpreta Cartola o ex-Secos e Molhados selou seu eterno casamento com o maior sambista da música brasileira, na versão ao vivo (disponível agora em CD e DVD) Ney prova que ainda faltava a lua-de-mel. Apaixonado, passional. O cantor mergulhou nas profundezas da alma de Cartola (e em sua própria) para parir um trabalho que mantém um compromisso intacto a cada um de seus discos: o da entrega total. Contido, econômico, deferente. Ney encarou clássicos como As rosas não falam, O mundo é um moinho e Ensaboa como quem mantém pairando no ar o mestre Cartola. Inatingível. Para reverenciá-lo, o cantor teve a humildade de se desfazer de si mesmo: sai o espalhafatoso, performático, maqueado e cheio de plumas e entra em cena um respeitoso Ney. Quase sacro. Cerimonioso. E arrebatador. Por que são tantos os cantores que sorriem ao cantarem versos tristes, ou ficam solenes quando o tom é de alegria? Pois com Ney, ao contrário, conteúdo e forma andam lado a lado. Juntinho. As imagens do DVD escancaram o óbvio: a cada um de seus gestos, minimalisticamente calculados, ele tira dos versos de Cartola as lágrimas da platéia. Pois, por ironia do destino, o maior papel do teatral Ney Matogrosso foi justamente o de não interpretar Ney Matogrosso. Ele deixou transpassar por seu corpo a poesia do sambista, deixou baixar o espírito do mestre. E foi além. Buscou Dona Zica, arrancou dela um depoimento emocionado (nos extras do DVD), fuxicou, fez pesquisas, correu atrás, gravou pérolas esquecidas (Senões e Desfigurado) e completou a obra de estúdio registrando outras cinco músicas (incluindo o clássico de Candeia Preciso me encontrar e a carga dramática de Basta de clamares inocência). Cavou, mergulhou lá no fundo e se revestiu de Cartola. Para no final de tudo voltar à superfície mais Ney do que nunca. E que jamais deixou de ser.
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