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imprensa

Coimbra, 09/07/2003

Diário de Coimbra

Ney Matogrosso de "Cartola"

É um encerramento em grande, o do Festival José Afonso. Pelo palco escolhido, mas, sobretudo, por trazer a Coimbra uma lenda viva da música brasileira. Que vem apresentar o que chegou a considerar o projecto mais arriscado da sua vida, mas que vai ter amanhã a sua centésima apresentaçãoChocou o Brasil da ditadura militar e do preconceito com as canções ou a nudez que levava para palco, foi imitado pelos Kiss nas pinturas e fantasias corporais com que se apresentava em espectáculo, resistiu como poucos à lógica comercial das editoras, foi um dia eleito pelos presidiários de uma penitenciária do Rio de Janeiro para ali actuar, por simbolizar a liberdade, trabalhou num laboratório de anatomia patológica, foi artesão e hippie, tinha um pai que era militar, nasceu há 62 anos no Matogrosso, tem 30 de carreira e brinda a cidade de Coimbra, amanhã à noite, com um concerto: Ney Matogrosso.No imenso Pátio das Escolas, o artista brasileirio vai fazer a 100ª apresentação pública de "Cartola".

Trata-se de um disco de homenagem ao autor que ficou precisamente conhecido como o Cartola, uma espécie de "compositor do morro", fundador da escola de samba a Mangueira e referência mítica da música popular brasileira. "Cartola", que Ney chegou a considerar o projecto mais arriscado da sua vida - mais mesmo que ficar nu no meio da plateia, comparou -, "foi um sucesso completamente inesperado", disse ontem o artista num hotel onde, de forma muito simples e informal, esteve à conversa com jornalistas. Ney Matogrosso contou que a ideia inicial era gravar um CD com músicas do Cartola para colocar num livro de Benê Fonteles, com fotografias de Luiz Fernando Borges. Mas o livro acabou por não ser publicado, e o disco ganhou autonomia. O álbum já foi apresentado em Portugal, no final do ano passado, num concerto que agradou bastante a Ney: "Foi uma grande surpresa no Porto, porque ao ar livre não se espera muita atenção do público (…) mas pareceu que as pessoas estavam no teatro.

Fiquei muito feliz". Algo irónico, falou igualmente do concerto de "Cartola" como uma oportunidade para se sossegar a si mesmo com a ideia de que também consegue dar espectáculos sem exigir tanto do corpo como sempre foi seu habito: "No momento em que eu não puder dispor do meu corpo, eu vou poder só cantar"… O artista garantiu, no entanto, que não se trata de um "espectáculo que põe para baixo, pesado": "O show tem ritmo, mas o ritmo não é o seu forte". "Cartola" foi também apresentado como uma espécie de "samba de câmara, arrojado mas contido. O ênfase está nas letras, não no ritmo. Não quis cair no samba tradicional". "Se não se entende o que se fala, se perde metade", acrescentou Ney, apresentando o motivo pelo qual a respectiva digressão coincidiu apenas com Portugal, Uruguai e Brasil. No seu exercício de representação, o artista, também íntimo do teatro, "aborda paixão e rompimento, um assunto que toca ou há-de tocar toda a gente" e que, no caso, pode ser entendido tanto numa perspectiva masculina como feminina, disse.

Neste concerto promovido pelo teatro Académico de Gil Vicente e que encerra o Festival José Afonso, Ney Matogrosso vai ter a seu lado os músicos Marcelo Gonçalves, Ricardo Silveira, Celsinho Silva, Zero, Jorge Hélder e Zé Nogueira, no violão, percussão, saxofone, contrabaixo, cavaquinho.