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Coimbra, 09/07/2003
Jornal de Coimbra
Ney Matogrosso em concerto no Páteo das Escolas
O famoso cantor brasileiro Ney Matogrosso encerra amanhã (quinta-feira) o Festival José Afonso, com um concerto que se realizará no Páteo das Escolas da Universidade de Coimbra. Acompanhado por um conjunto de músicos constituído por Marcelo Gonçalves e Ricardo Silveira, no violão, Celsinho e Zero, nas percussões, Jorge Helder, no contrabaixo, e Zé Nogueira, no saxofone, Matogrosso vai apresentar-se pela primeira vez em Coimbra, com o espectáculo "Ney interpreta Cartola".
Antecedendo o concerto do artista, estará em palco o Grupo de Guitarras e Violas do Fado de Coimbra, com direcção de Paulo Soares. Em conferência de imprensa realizada ontem (terça-feira), Ney Matogrosso começou por referir que - após as passagens pelo Brasil, Uruguai e, mais recentemente, por outras cidades portuguesas - este será o centésimo espectáculo realizado no âmbito do trabalho de homenagem a Cartola, o emblemático fundador, no ano de 1938, da primeira escola de samba do Rio de Janeiro, a Mangueira. Matogrosso explicou igualmente que, do ponto de vista conceptual, "Ney interpreta Cartola" foi desenvolvido com o intuito de acompanhar um livro de fotografias sobre a personagem carioca, a cujo lançamento se seguiria uma série de apenas quatro concertos. No entanto, como o livro acabou por não ser publicado, a parte musical do projecto seguiu o seu caminho, atingindo um "sucesso completamente inesperado". Sobre o espectáculo a que o público conimbricense terá a oportunidade de assistir, o cantor brasileiro adiantou que este será algo diferente do habitual, com "ênfase nas letras e não no ritmo". Um "samba de cano", que "tem ritmo mas não é o seu forte". No entanto, e apesar de as ideias explicitadas serem as de "rompimento" e "dor", Matogrosso garante que tenta que "não seja um espectáculo pesado". "Tento abordar alguns assuntos com ironia", frisou.
"MENTALIDADE DESCARTÁVEL" Assumindo que, para o conceito em causa, secundarizou a parte cénica, Matogrosso sublinha o facto de este ser "um exercício de concentração", embora mantenha a coerência com o que tem vindo a fazer nos últimos anos. Com 62 anos (dos quais 30 de carreira), Ney Matogrosso explicou que "Ney interpreta Cartola" é um "exercício", em que testa "possibilidades e limites". "Na altura em que não puder dispor mais do físico, vou continuar a ter a garantia da voz", disse. Num momento em que a indústria musical brasileira atravessa uma profunda crise - tanto na edição como na distribuição -, com o predomínio dos produtos brasileiros e norte-americanos, Ney Matogrosso continua a insistir em demarcar-se da "mentalidade descartável" dominante, que "não se preocupa com a arte, só com os ganhos". "Poderia ter ganho muito dinheiro, se permitisse que as gravadoras [editoras] tivessem conduzido a minha vida", recordou, acrescentando que, pelo contrário, preferiu manter a sua "independência artística".
Uma nota curiosa: embora tenha sido convidado para tocar em Coimbra, Ney Matogrosso confessou aos jornalistas que não sabia que iria integrar o cartaz do Festival José Afonso, músico do qual também nunca tinha ouvido falar. Nuno Loureiro
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