| 05/04/2004
Jornal O Globo
Hugo Sukman
Para celebrar a marginália da música
O encontro há muito acalentado, e
ensaiado em faixas esparsas, de Ney Matogrosso com o compositor
Pedro Luís e sua usina de percussão, A Parede, oxigena
ambas as partes.
O inquieto Ney, que vem de projetos
conservadores, nos dois sentidos da palavra, como os tributos
que prestou a Cartola (estúdio e ao vivo) e ao cancioneiro
da Era de Ouro (“Batuque”), encontra não só
repertório fresco como o ímpeto juvenil dos parceiros.
Pedro e A Parede, por sua vez, tradutores dos ritmos e das falas
das ruas do Brasil de hoje, portanto naturalmente marginais (embora
sem pose), entram para o mainstream graças aos olhos de
farol de Ney.
O disco não se chama “Vagabundo” (Globo/Universal)
à toa: é vagabundo não no sentido pejorativo
da indolência, mas no sentido moleque, carioca e carinhoso
do sujeito que encontra outro na rua e exclama um “ aê
, vagabundo”, um “ coé , vagabundo”.
Vagabundo como os personagens de diversas canções:
dos pobres de “Seres Tupy” (de Pedro Luís),
sociologizados nos versos “De Porto Alegre ao Acre/A pobreza
só muda o sotaque” ao sujeito que chega “de
porre lá da boemia” do “Disritmia” de
Martinho da Vila; do velho de terno velho que encontra o Guarda
Belo em “Assim assado” (João Ricardo), do Secos
e Molhados, aos soldados anônimos de “Napoleão”
(Luhli e Lucina) ou ao “Jesus” (da extinta banda Boato),
que dizem ter morrido na cruz mas que foi visto “na Dutra,
em Queluz/Levava na cabeça um tabuleiro de cuscuz”.
No repertório, uma homenagem à marginália
A faixa-título, de Antônio Saraiva, resume o espírito
do disco: é de compositor marginalizado pelo confinamento
da música criativa ao limbo da independência, do
mesmo núcleo carioca de onde saiu Pedro, Mathilda Kóvac,
Arícia Mess, Suely Mesquita, etc.; mescla ritmos de rua
como samba, rap e repente com uma estrutura musical contemporânea,
com elementos inspirados até na dodecafonia; é um
som muito novo, no qual tanto Ney quanto Pedro mostram um à-vontade
de quem descobriu um idioma comum.
O espírito de “Vagabundo” é pop e sua
intenção, revelar e celebrar a marginália
da música popular de várias épocas. Como
o Jackson do Pandeiro da programática “A ordem é
samba”, que abre o disco avisando “É samba
que eles querem, eu tenho/É samba que eles querem, lá
vai”. Ou o Itamar Assumpção em dupla com Alzira
Espíndola (que gravaram inestimável e pouco conhecido
CD independente) numa list song muito ao modo do saudoso Nego
Dito, arriscando origens para a própria inspiração,
que pode vir “Das entrelinhas de um livro/Da morte de um
ser vivo/Das veias do coração”.
Na vertigem de tanta novidade, Ney mantém a segurança
de quem já muito ousou, no seu melhor disco desde o “Olhos
de farol” (1999), onde primeiro gravou com Pedro e A Parede.
Pedro encara o desafio de dividir os vocais com Ney aprofundando
seu estilo de amalgamar as formas de cantar das ruas de hoje.
Levar “Disritmia” com acento de funkeiro de baile
é um exemplar desse estilo. A Parede, cada vez mais madura,
amalgama os ritmos das ladeiras do Brasil, auxiliada pelo pulso
forte nas harmonias mais complexas do violão de Ricardo
Silveira e pelos solos flamencos do guitarrista português
Pedro Jóia, numa mescla tão ao sabor do projeto,
um disco de turma.
Como Pedro já escreveu e Ney cantou em “Fazê
o quê”: “Se tem Hermeto, Bispo, Marley, Gentileza,
isso só me dá certeza da nobreza que dá certo”.
É de vagabundos como esses que fala “Vagabundo”.
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