| 12/04/2004
Tribuna da Imprensa
Mônica Loureiro
Inspiração de comum acordo
Ney Matogrosso e Pedro Luís e A
Parede celebram suas afinidades no CD " Vagabundo".
"Vagabundo". Não
se engane pelo título do disco. "Gosto de nomes provocadores,
como `Bandido', `Pecado'... E `Vagabundo' é tudo que a
gente não é!", brinca Ney Matogrosso, que está
lançando o disco em parceria com Pedro Luís e A
Parede.
O "namoro" entre o cantor e o grupo surgiu na época
em que Ney estava montando o repertório de "Olhos
de farol", de 1999. No disco, acabaram entrando "Miséria
no Japão" e "Fazê o quê?", duas
composições de Pedro. "Eu fui a um show deles
e gostei muito. Depois desse primeiro encontro, gravei as músicas
e fiz três ou quatro participações em shows.
Agora sentimos que chegou o momento de lançarmos um disco
juntos", diz Ney. Pedro destaca a afinidade que existe entre
eles: "É mais um parceiro nosso, como Lenine, Fernanda
Abreu... Ele abençoa o nosso trabalho".
O repertório de "Vagabundo" agrega em 14 faixas
diversas referências - um reflexo da trajetória dos
artistas. Tem desde "Assim assado", sucesso dos Secos
& Molhados, até "Disritmia", de Martinho
da Vila. "Nós fomos experimentando as coisas e o que
ia soando melhor era escolhido para o repertório do CD",
diz Pedro.
O líder de A Parede canta em menos faixas que Ney Matogrosso
e, mesmo assim, não canta sozinho em nenhuma faixa, dividindo
os vocais com o tarimbado intérprete. "Engraçado,
não fiz as contas de em quantas faixas eu canto! De qualquer
forma, preferi ouvir o Ney interpretando as minhas composições",
diz Pedro. Ney faz a mesma constatação e esclarece:
"Foi uma opção própria do Pedro cantar
menos. Não houve nenhum acordo prévio, fomos ensaiando
e decidindo naturalmente".
Pedro Luís assina cinco faixas. São elas "Seres
Tupy", "Interesse" (parceria com Suely Mesquita),
"Noite severina" (com Lula Queiroga), "Inspiração
(com Gilberto Mendonça Teles), além da criação
coletiva "Jesus" (com Gustavo Valente,Lucas de Oliveira,
Dado, André Pessoa, Rodrigo Cabelo, Beto Valente).
A exemplo desta última canção, pode-se dizer
que o mesmo aconteceu com o disco. "Vagabundo" foi feito
a 18 mãos (o grupo tem oito integrantes), tudo de comum
acordo. "Muito do que foi proposto não pôde
entrar. Eu, por exemplo, queria colocar `Maluco beleza', mas não
conseguimos um bom resultado. Como não sou de dar murro
em ponta de faca, preferi não insistir", conta Ney.
Também durante a produção, houve momentos
de unanimidade, como nas músicas de Itamar Assumpção.
"Adoramos `Transpiração' (com Alzira Espíndola)
e `Finalmente' (com Alzira e Paulo Salles). Não tivemos
dúvidas em as escolher para o disco", garante o cantor.
Ele lembra que elas são inéditas, ou que pelo menos
podem assim ser consideradas: "O disco da Alzira com essas
músicas, por exemplo, teve uma tiragem de mil cópias".
Bônus - A história da última faixa, que vem
como bônus, é curiosa: "O disco já estava
todo montado e `O muro' (André Azambuja) era muito diferente.
Seus arranjos não cabiam no corpo do trabalho. Então
utilizamos o recurso da faixa bônus", diz o cantor.
Jackson, o 1º artista pop
O CD "Vagabundo" abre com "A ordem é samba"
(Jackson do Pandeiro e Severino Ramos), presença justificada
por Ney Matogrosso: "Jackson é o primeiro artista
pop brasileiro, foi quem apontou tendências diferentes.
Ele deve ser sempre reverenciado".
Quanto a "Assim assado" (João Ricardo), o cantor
decidiu regravá-la por sugestão de um monte de gente.
"Durante todos esses anos, as pessoas me dão notícias
dela: `Olha, tocou na festa tal, todo mundo levantou, foi um sucesso!'.
Então falei, `vamos fazer'!", explica. Ney diz que
enquanto a melodia e a harmonia dos tempos de Secos & Molhados
foram respeitadas, os arranjos agora são outros. "O
formato também mudou, repetimos o refrão",
acrescenta.
Outra pérola resgatada de seu repertório foi "Napoleão"
(Luhli/Lucinha), do disco "Sujeito estranho", de 1981.
"Eu jamais gostei daqueles arranjos e achava que merecia
uma coisa mais ritmada", diz. A música ganhou até
uma viola caipira, tocada por Pedro Luís. Pedro leva essa
mesma viola para "Seres tupy", que Ney comenta: "Essa
foi uma das canções que ouvi o grupo cantando e
sempre pensei em gravar. Ela fala de assuntos que têm de
ser levantados, mesmo quando não se trata de um disco de
protesto", defende.
Entre outros versos, "Seres tupy" diz: "Beira de
mangue, alto de morro/Pelas marquises, debaixo do esporro/.../De
Porto Alegre ao Acre/A pobreza só muda o sotaque".
Hanseníase
Ainda falando de questões sociais, Ney continua atuando
na campanha contra a hanseníase e informa sobre seus avanços.
"Demos um passo enorme este ano porque, pela primeira vez,
o Ministério da Saúde está empenhado. Até
então, nenhum ministro havia se envolvido diretamente.
O presidente vai assinar um decreto que vai mexer no assunto dos
antigos leprosários", destaca, satisfeito.
Ney fala que essa campanha sempre enfrentou muitas dificuldades
e falta de vontade política. "Afinal, é uma
doença que está ligada a pessoas pobres, que não
têm poder de representação", lamenta.
Projeto Cazuza parado
Depois que lançou o disco "Ney Matogrosso interpreta
Cartola" em 2002, a expectativa era que Ney concretizasse
o tão comentado projeto de um CD só com músicas
de Cazuza. O seguinte foi um ao vivo. Hoje, ele diz que ainda
não há nada resolvido sobre o disco: "Não
tenho todo o repertório ainda. E eu e Lucinha (Araújo,
mãe de Cazuza) nunca mais tocamos no assunto", comenta,
evitando falar sobre o filme da vida de Cazuza de que foi alijado,
embora amigo íntimo do cantor morto precocemente de Aids.
Ney e Pedro Luís & A Parede já fizeram uma pré-estréia
do show em Juiz de Fora, Minas Gerais, na semana passada. Na próxima
quinta, estréiam no Canecão. "Ainda estamos
desenvolvendo o que vamos fazer no palco", despista Ney.
Mas Pedro dá um detalhe: "Vamos ter intervenções
cenográficas feitas pelo artista gráfico Cabelo
em seis músicas".
Do alto de sua experiência, Ney lembra que quem faz o show
acontecer é o público. Diante dos incessantes pedidos
para que realize um só de sucessos - ele é radical,
seus espetáculos são fechados no repertório
do disco da época - é taxativo: "Só
de sucessos, eu não faria. Mas estou pensando, um dia,
em misturar o repertório de um disco que eu esteja lançando
a músicas antigas".
Quanto à expectativa do público diante da união
com Pedro Luís, o líder da Parede acredita que eles
vão conseguir unir fãs dos dois. "É
uma forma de trazer as histórias de outras pessoas para
cada público. Só espero que não matemos as
velhinhas do Ney!", brinca.
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