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imprensa

14/04/2004

Jornal do Povo
Luciano Almeida Filho da Redação

Batuque de parceria

Ney Matogrosso dispensa apresentações. É um dos intérpretes mais representativos da música popular brasileira dos últimos 31 anos, desde que surgiu à frente dos transgressores Secos & Molhados, trio que escandalizou o cenário da música em plenos anos de chumbo da ditadura com sua postura andrógina e poesia contundente. Em seus trabalhos individuais, a inovação vem caminhando junto com o respeito à riqueza da tradição da música brasileira. Nos últimos anos, Ney tem revezado discos de material de autores contemporâneos com projetos temáticos, onde resgata repertórios de autores e períodos específicos da história da música brasileira.
Já Pedro Luís e A Parede ainda não alcançou o grande público. A formação carioca virou cult por uma minoria antenada na sua batucada de forte sabor pop e expressiva poética urbana. Lançou três CDs de pequena vendagem mas de impacto na nova geração da música pop brasileira. Especialmente para o carnaval carioca, o PLAP também criou o Monobloco, um projeto social de uma escola de percussão para jovens de comunidades carentes que virou atração do período pré-carnavalesco do Rio de Janeiro e já tem um disco lançado no final de 2002.

Ney Matogrosso estava entre as figuras antenadas na batucada do PLAP. Não foi o primeiro. Fernanda Abreu e Lenine são amigos de primeira hora da trupe. Ney também entrou na roda dos admiradores e passou a fazer participações nas apresentações do grupo. Na hora de montar repertório para o CD Olhos de Farol (1999), o intérprete escolheu duas composições de Pedro Luís: ''Miséria no Japão'' e ''Fazê o quê?'. O diálogo foi se tornando mais freqüente até Ney surpreender todo o grupo com o convite para fazerem um disco completinho juntos. E tudo foi sendo preparado enquanto o intérprete viajava o Brasil com seu espetáculo dedicado ao repertório do sambista mangueirense Cartola.

O resultado da união do preciosismo vocal de Ney Matogrosso e a batucada pop do PLAP está no CD Vagabundo (Universal Music) que chegou às lojas esta semana. Amanhã, o show faz sua estréia oficial com temporada no tradicional Canecão, depois de esquentar os couros com apresentações em Juiz de Fora (MG), semana passada. A união parecia improvável pelas diferenças de estilo, especialmente nas vozes. Mas o dueto do timbre lapidado de Ney e a crueza de Pedro Luís combinaram perfeitamente, onde os contrastes são capitalizados em nome da diversidade.

O disco abre de maneira brilhante com uma releitura de Jackson do Pandeiro com ''A Ordem é Samba''. O mestre do ritmo fez esta composição para ironizar o cenário carioca que só exigia o ritmo local e não abria espaço para seus cocos e xotes. A excelente ''Seres Tupy'', destaque do CD de estréia do PLAP, Astronauta Tupy (1997), ganha releitura agora com Ney num arranjo ainda mais azeitado. Agora com Ney, quem sabe os versos aguçados ''...De Porto Alegre ao Acre / A pobreza só muda o sotaque'' possam ganhar mais repercussão.

Ney integra no repertório outro compositor de sua predileção há algum tempo, recém-falecido Itamar Assumpção, onde ''Transpiração'' (dele e Alzira Espíndola) e ''Finalmente'' (de Itamar, Alzira e Paulo Salles) se adequam de maneira singular na sonoridade que reúne as percussões do PLAP e as harmonias providenciadas pelos músicos da banda de Ney. Este levou para o trabalho poucos e acertados músicos para se integrar com o quinteto. Destaque para as intervenções de guitarra do veterano Ricardo Silveira e os saxes de Glauco Cerejo.

''Assim Assado'' foi o tema dos Secos & Molhados escolhido para ser regravado, onde a banda é reverente à melodia e harmonia originais e lhes aplica doses sutis da percussão característica da formação. Outra regravação bacana fica com ''Disritmia'', o clássico samba de Martinho da Vila que já tinha recebido releitura recente de Zeca Baleiro. Nesta faixa é possível notar a perfeita sintonia das vozes díspares de Ney e Pedro Luís. Do repertório antigo do cantor matogrossense foi resgatada ''Napoleão'' (de Lulhi e Lucina), que ganhou uma leitura bem mais consistente.

A pista dada por Jackson do Pandeiro revela trilhas nordestinas mais na frente, como em ''Noite Severina'', de Pedro Luís e Lula Queiroga. A música título do CD, ''Vagabundo'', revela o compositor Antonio Saraiva, um nome de destaque do underground carioca. Mas o disco quase recebe outro título, ''Jesus'', devido à força da composição coletiva - a mais forte do CD com sua poesia polêmica, uma espécie de Jesus anti-Mel Gibson. Isso num disco que tem ainda as brilhantes ''Tempo afora'' e ''Interesse''. O disco encerra com outra releitura: a genial ''O Mundo'', do grupo paulistano Karnak, que já foi inclusive cantada por Paulinho Moska e Chico César em show conjunto - infelizmente sem registro oficial.

A parceria de Ney Matogrosso e Pedro Luís e A Parede confirma a tendência de diálogos naturais entre gerações que já tinha como exemplo a união de Fagner e Zeca Baleiro, além de diversas parcerias. Vagabundo é um expoente desta tendência, pelo fato de apontar caminhos para a música brasileira, revigorando a batucada com harmonias bacanas para uma platéia ávida por novidades.

Diálogos de Ney

Buscar parcerias não é novidade na carreira de Ney Matogrosso. É bom lembrar que ele foi buscar o diálogo com músicos do porte de Arthur Moreira Lima, Paulo Moura e Rafael Rabello o suporte necessário para dar uma guinada na sua carreira com o projeto camerístico Pescador de Pérolas (1987), onde abandonou momentaneamente o figurino exótico e a performance espalhafatosa, assumindo uma postura de palco contida e ternos bem cortados. Posteriormente Ney e Raphael fizeram juntos o CD À Flor da Pele (1990), somente voz e violão.

Em 1993, Ney protagonizaria nova parceria, agora com o grupo Aquarela Carioca, uma das formações mais inovadoras da linguagem da música instrumental brasileira. Integravam o grupo nomes como Paulo Muylaert (guitarra), Marcos Suzano (percussão) e Lui Coimbra (violoncelo), que apareceriam em dezenas de discos de outros artistas como Zizi Possi, Lenine, Marisa Monte, Alceu Valença etc. Juntos fizeram o disco As Aparências Enganam, um belo trabalho que merecia uma continuidade. Agora Ney se enquadra ao batuque de PLAP - leia-se Pedro Luís (voz e violão), Mario Moura (baixo), C.A. Ferrari, Celso Alvim e Sidon Silva (percussões diversas).