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imprensa

22/04/2004

Jornal o Dia

Um 'Vagabundo' de primeira
Show de Ney Matogrosso e Pedro Luís, que volta amanhã, é dos melhores dos últimos tempos.Ney e Pedro Luís dividem a cena irmamente no Canecão, casando vozes com impressionante entrosamento e cativando a platéia em Vagabundo.

Ney Matogrosso caiu no suingue, emparedado pela argamassa rítmica de Pedro Luís e seus pedreiros. De volta amanhã ao Canecão, em temporada que vai até domingo, o show Vagabundo está entre os melhores espetáculos dos últimos tempos. Justamente por conta do azeitado suingue da turma, a casa decidiu excluir o setor C e abriu pista para o público dançar nas últimas apresentações cariocas. No palco, Ney, Pedro e a Parede extrapolam o repertório do seu recém-lançado disco homônimo e adicionam ao roteiro sucessos dos Secos & Molhados (Sangue Latino), Mutantes (Balada do Louco, gravada por Ney em 1985) e Milton Nascimento (Fé Cega, Faca Amolada), além de algumas jóias do cancioneiro da Parede (Caio no Suingue e Fazê o Quê?, está já gravada por Ney no visionário CD Olhos de Farol).
Sem cair no erro de perseguir o padrão de afinação absoluta de Ney, Pedro Luís se impõe no palco com seu canto mais informal, porém adequado ao universo das modernas e funkeadas batucadas cariocas. Em cena, há um equilíbrio de forças, ainda que Ney (showman por excelência) conduza o espetáculo com olhares sensuais e sua habitual habilidade cênica. Os figurinos do cantor, assinados por Ocimar Versolato, já chamam a atenção por vestir Ney com jeans bem justos, uma camisa bufante e cintos metálicos que cairiam bem num fã de Iron Maiden. Uma combinação até bem comportada para um artista que, tal qual uma Carmen Miranda fashion, sempre pintou em cena com balagandãs e penduricalhos.
Musicalmente, o balanço bem carioca é garantido com o baixo de Mário Moura e a parede percussiva de Sidon Silva, Celso Alvim e C.A. Ferrari. Mas o batuque nunca apaga os outros instrumentos. A banda tem o auxílio luxuoso da guitarra de Ricardo Silveira e o toque árabe do alaúde de Pedro Jóia. A combinação é vigorosa e adorna com harmonia um mosaico vigoroso de músicas que ficam entre os toques políticos e humanitários. "Por que você me faz o mal / Se eu só te faço o bem?", questiona a turma em O Mundo, pérola tirada do cancioneiro alternativo do extinto grupo Karnak. "...Paz na terra a todos os seres", suplicam em Jesus.
Ao valorizar Pedro Luís e a Parede, Ney Matogrosso (que assina também a iluminação do show, com o resultado normalmente refinado de suas contribuições no setor) injeta ânimo em sua trajetória com CD e show Vagabundo, que, aliás, vira DVD até o fim do ano. Como já havia feito no disco Olhos de Farol, de 1999, O cantor se levantou de seu berço esplêndido da MPB mais tradicional para emprestar sua voz a compositores ainda confinados aos guetos, como Suely Mesquita, Itamar Assumpção, Alzira Espíndola e Antonio Saraiva, autor da música que batiza o show e que adverte: "Nem todo batuque é samba". Não é mesmo.