| 18/04/2004
Jornal O Globo
Ney Matogrosso e Pedro Luis & A Parede
se completam em espetáculo ousado,que combina gerações,estilos
e bandas diferentes.
Quando o batuque urbano encontra uma voz
cristalina.
Ney Matogrosso renova seu som com
o batuque de Pedro Luís e a Parede
Ney Matogrosso não gosta de vida fácil: volta e
meia ele inventa um disco com músicas inéditas de
compositores desconhecidos, estabelece uma parceria inusitada
ou homenageia um mestre com sucessos e pérolas escondidas
— conseguiu fazer isso até com Chico Buarque. O novo
desafio de Ney é um pouco de tudo isso: combinar sua voz
de tenor à massa percussiva e à MPB urbana de Pedro
Luís & a Parede. No palco do Canecão, onde o
show “Vagabundo” (mesmo nome do disco lançado
pela nova parceria) estreou, na última quinta-feira, as
duas partes preenchem lacunas uma na outra de maneira surpreendentemente
suave, provando mais uma vez que a busca pela novidade é
sempre saudável. Mas é preciso boa vontade com tantas
novidades ao mesmo tempo.
A parte instrumental se garante com folga: as diversas percussões
tocadas pelos Paredes Celso Alvim, C.A. Ferrari e Sidon Silva,
além do ótimo baixo de Mário Moura, soam
perfeitas com a guitarra de Ricardo Silveira, o violão
e o alaúde de Pedro Jóia e os sopros de Glauco Cerejo:
há ocasiões em que a banda imprime um peso roqueiro,
normalmente ausente na música de Ney — às
canções mais arrastadas e agressivas como “Seres
tupy” e no quase-rap “Vagabundo”; e outras em
que os violões (incluído aí o de Pedro Luís),
guitarra e sopros emprestam uma sofisticação aos
arranjos que não costuma estar com a Parede, como na bela
“Noite Severina” e em “Assim assado”,
dos Secos & Molhados. A banda é tão boa que
um virtuose como Ricardo Silveira se dá ao luxo de não
aparecer muito, apenas enriquecendo os arranjos.
Vozes de Ney e Pedro ficam em regiões próximas
A combinação das vozes de Ney e Pedro já
é mais complicada: se, por um lado, o mato-grossense esbanja
técnica e alcance e o carioca é puro suingue, os
dois cantam em uma região aguda, muito parecida —
no disco, há momentos em que as vozes se confundem. A proximidade
acaba sacrificando Pedro Luís, que em algumas músicas
— “Disritmia”, de Martinho da Vila, uma bela
versão que quase acaba comprometida, é o exemplo
mais flagrante — acaba berrando, numa tentativa de alcançar
o vibrato natural de Ney. Louve-se, por outro lado, a tranqüilidade
com que Pedro encara um dueto com uma voz marcante como a do parceiro.
Afora pequenas sintomas típicos de uma estréia —
como Ney “colando” a maioria das letras — os
nove músicos pareciam perfeitamente à vontade, especialmente
os percussionistas da Parede, que aprontavam a saudável
bagunça de sempre.
Numa época em que o público não pára
de consagrar discos de regravações (e artistas dedicados
a elas), mostrando-se mais disposto a ouvir o que já conhece,
nada mais louvável do que a atitude de Ney Matogrosso,
Pedro Luís e a Parede: um show com raros sucessos —
e alguns deles, como “Assim assado”, “Caio no
suingue” e “Napoleão” (gravada por Ney
no disco “Sujeito estranho”, de 1980), nem tão
sucessos assim. No entanto, eventualmente o excesso de novidades
pode cansar, principalmente em se tratando de músicas pesadas,
faladas — típicas de Pedro Luís e a Parede
— como “Jesus” e “Inspiração”.
A combinação de gerações, estilos,
vozes e instrumentos funciona melhor quando a melodia é
o elemento principal da canção, caso da bela “O
mundo”, de André Abujamra, síntese perfeita
de mais um desafio ganho por Ney Matogrosso, com o auxílio
luxuoso da Parede.
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