| 08/04/2004
Jornal do Brasil
Tárik de Souza
Acertado desacerto de vozes e estilos
Parceria exige de Ney uma travessia etária
e estética.
Ao contrário de boa parte
das estrelonas do show bizz nativo, Ney Matogrosso, aos 62 anos,
ainda não se acomodou à dieta calórica dos
standards amestrados. Junto com releituras de repertórios
alheios, de Angela Maria (Estava escrito, 1994) a Chico Buarque
(Um brasileiro, 1996) e um Ney Matogrosso interpreta Cartola (2003)
desdobrado em dois discos, ele também alavanca os novos,
como fez em Olhos de farol (1998), e associa-se a outros ambientes
sonoros.
Isso ocorreu no coletivo O pescador de pérolas, de 1987
(ao lado de Raphael Rabello, Paulo Sérgio Santos e João
Carlos Assis Brasil), em As aparências enganam, com o grupo
Aquarela Carioca, em 1993, e volta a acontecer em Vagabundo (Universal/
Som Livre), onde terça vozes com Pedro Luís e seu
grupo A Parede. "Há tempos Ney queria fazer um disco
pra frente, que além de um repertório tivesse um
som", testemunha a compositora Luhli (ex-Luli & Lucinha)
no release. "Percebi no disco todos os ingredientes que fizeram
os Secos & Molhados acontecer num outro plano, num outro momento",
incensa.
O otimismo é exagerado. O pop-rock-glitter dos Secos &
Molhados de que Ney foi ponta de lança e tomou o país
no começo dos 70, além do choque visual andrógino,
entregava temas bem mais melódicos e palatáveis.
Nada das arestas do batuque seco e cerrado de A Parede balizado
nas caixas percursoras do maracatu, além do retinir de
calotas, zabumba, reco-reco, prato e surdo.
O estranhamento bate logo na abertura, no híbrido coco
A ordem é samba, de Jackson do Pandeiro (com Severino Ramos),
que opera entre a pregação e o desafio: "É
samba que eles querem, eu tenho/ é samba que eles querem,
lá vai". Do ramo, Martinho da Vila também entra
no cardápio, mas através de um de seus sambas mais
desossados, Disritmia, espaçado nos compassos, costurado
pelo violão de Ricardo Silveira e o sax soprano de Glauco
Cerejo.
Compositor de quem Ney já havia gravado Miséria
no Japão e Fazê o quê? em Olhos de farol, Pedro
Luís fornece apenas cinco das 14 faixas de Vagabundo. Sua
porção autoral é mais explorada como inventor
de uma pegada sonora paralela ao maracatu punk dos pernambucanos
do mangue beat.
O detalhe do alaúde árabe digitado por Pedro Jóia
orientaliza a levada, temperando o refrão cortante da shakespeariana/oswaldiana
Seres Tupy, uma das de Pedro: "De Porto Alegre ao Acre/ a
pobreza só muda o sotaque". E cerze o desacerto de
vozes entre o gutural Pedro e o polido Ney em Interesse (parceria
com Suely Mesquita): "O gato acha o rato muito interessante/
a cobra acha o sapo muito interessante/ agradeço/ você
não se interessa mais por mim". Congas bordam com
zabumba, prato, surdo e guitarra chorona uma revisita ao sucesso
Assim, assado, dos Secos & Molhados.
Na faixa expõe-se a fratura entre os dois tempos musicais.
Vagabundo não esconde sua condição brutalista,
de melodias no talo, o que exige de Ney uma travessia etária
e estética. Mesmo no xote Noite severina (Lula Queiroga/
Pedro Luís), a letra destila "pedras sonhando com
britadeiras". Nesse universo desterrado cabem dois temas
do subterrâneo Itamar Assumpção, a recorrente
Transpiração, com solo espanholado de guitarra,
e a delicada e bela Finalmente, ambas parcerias com Alzira Espíndola,
a última com Paulo Salles.
Provocador e um tanto zombeteiro, Jesus (de Pedro Luís
e diversos parceiros) incita no refrão: "Vamos tirar
Jesus da cruz/ porque o rapaz tá pregado naqueles pedaços
de pau/ há mais de 2000 anos". Enquanto a corrosiva
O mundo (de André Abujamra e não Azambuja como saiu
na ficha técnica) fecha o disco sintetizando os conflitos
de época que o disco retrata e encarna: "Todos somos
filhos de Deus/ só não falamos a mesma língua".
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