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Revista Go Where SP
Cléo Tassitani - fotos Victor Almeida e arquivo pessoal

Ney Matogrosso de cara limpa
Com 63 anos de idade e mais de 30 anos de carreira, o cantor Ney Matogrosso é um artista completo: canta, dança e faz sua própria maquiagem. Hoje, reforça o seu sucesso com o show Vagabundo, em que se apresenta ao lado de Pedro Luís e a Parede. Sua agenda está lotada, com shows marcados pelo Brasil inteiro e tournée pela Europa.

A primeira entrevista a gente nunca esquece – Quando eu estava com os meus 12 anos, surgiu no Brasil os Secos & Molhados, um grupo que era totalmente diferente de tudo o que já havia aparecido por aqui. Esse grupo se desfez e, de repente, surgia um fenômeno em carreira solo: Ney Matogrosso. Um Ney que se maquiava sozinho, dançava e interpretava de uma maneira que encantava as pessoas (inclusive a mim). O tempo passou e eu entrei para a faculdade de Jornalismo. Um dos meus primeiros empregos foi em um jornal de grande circulação, aos 19 anos de idade, e, um dia (em 1980), caiu uma pauta nas minhas mãos que me deixou gelada: entrevistar o Ney Matogrosso, que estava apresentando o show Seu Tipo, no Tuca. Seria a minha primeira matéria com uma celebridade. E fui. Quando me deparei com o Ney no Hotel Eldorado, minhas pernas tremeram. Acho que eu senti o mesmo que ele sentiu no dia em que pisou no palco pela primeira vez: “Estou falando de 62/63, em Brasília... Não tive medo, mas tive que cantar sentado porque deu um tererê!... Pedi um banquinho, nem arrisquei ficar de pé, porque achava que as pernas iam dobrar e me jogar no chão” (texto extraído do programa do show Seu Tipo).

Por isso, não consigo transmitir em palavras o carinho que eu tenho pelo Ney Matogrosso. Nestes meus 25 anos de carreira, tive a felicidade de entrevistar o Ney mais algumas vezes, e ele é sempre o mesmo: uma pessoa doce, inteligente e extremamente humilde. No dia em que marquei o nosso bate-papo para a Go Where?SP, levei uma foto que nós tiramos juntos em 1980. Ele olhou bem pra foto, e me disse: “Nossa, Cléo, mas são dois meninos! (risos) .



Na edição passada da Go Where?SP, na seção Go Entertainment, a Sarah Oliveira, VJ da MTV, indicou o seu CD Vagabundo, que você gravou com o Pedro Luís e a Parede, como o CD que ela mais estava curtindo. Com 63 anos e mais de 30 anos de carreira, você ainda consegue atingir a um público de todas as idades, desde crianças até os idosos. Dá pra explicar esse seu carisma?
Não consigo explicar o que acontece, mas o meu público sempre foi heterogêneo, desde criancinhas até as avós com 90 anos. Tinha uma senhora que fugia de casa com o seu bisneto pra me assistir nos Secos & Molhados. Naquela época, eu achava que as pessoas mais idosas iriam me rejeitar porque eu era muito esquisito, muito extravagante – e ainda sou. Eu pensava que só as pessoas mais jovens iriam gostar do meu trabalho. Só que isso nunca aconteceu.

Por falar nisso, você teve algum problema com a Censura naquela época?
Claro que sim, e todo mundo tinha. Eu recebia muitos recados – era muita chateação. E eu precisava conviver com isso. Pra você ter uma idéia, Cléo, uma censora ficava dentro do meu camarim.

Fazendo o quê?
Ela ficava sentada lá. Enquanto durou a temporada dos Secos & Molhados, no Rio de Janeiro, uma censora ficou no meu camarim todas as noites. Era a Censura. Ela podia. Eu fingia que ela não estava ali e fazia tudo o que eu tinha que fazer: ficava nu, zanzava pra lá e pra cá, pelado, na frente dela.

Você ficava pelado na frente da censora?
Ela não tinha que ficar no meu camarim me observando? Então, eu também tinha que estar no meu camarim como eu normalmente fico, pelado... (risos).

Por falar em nudez, nos seus shows você costuma se trocar no palco, na frente do público, numa boa, na frente das pessoas...
Isso eu sempre fiz. A primeira vez que eu me troquei no palco foi no show Bandido, e depois eu fiz isso mais umas três ou quatro vezes. Só no Cartola e neste show com o Pedro Luís e a Parede eu não me troco no palco – porque não cabe, né?

Como você consegue ficar nu no palco diante de tantas pessoas? Não deve ser fácil...
Mas, imagine você poder trocar de roupa na frente de milhares de pessoas!... É liberdade total! As pessoas admitem tudo o que eu faço no palco. E, quanto mais eu faço, mais elas querem que eu faça (risos).

Quando você me deu uma entrevista (aqui mesmo no Olympia), em 89, você me falou sobre o problema das rádios, que cobram das gravadoras para as músicas entrarem na programação. O que mudou na sua cabeça em relação a isso?
Eu nunca paguei rádio nenhuma pra entrar na programação. Só que eu sei que isso existe e tenho a sorte de não depender desse tipo de coisa. O meu trabalho sempre foi voltado para o palco, ao vivo. O sucesso do meu show nem passa perto das rádios. É claro que, quando se toca nas rádios, é melhor para o trabalho como um todo. O Cartola, por exemplo, foi um disco que não tocou e eu fiz shows durante dois anos com casas lotadas.

Você soma mais de 30 anos de carreira. O seu público é sempre o mesmo?
Percebo que é um público que eu reconheço, mas, em alguns momentos, se aproximam outros. Agora, neste espetáculo com o Pedro Luís e a Parede, muita gente está se aproximando mais. E estamos com a agenda lotada até o final do ano.

Se eu estiver errada você me corrige? Você foi o artista que fez o primeiro clipe para a televisão brasileira...
Não vou corrigir você, Cléo, porque você está certa (risos). Em 1975, fiz mesmo o primeiro videoclipe, com produção, para o programa Fantástico. Eu cantava a música América do Sul. Fui dirigido pelo Nilton Travesso. Esse clipe ganhou muitos prêmios pelo mundo.

Desde o início da sua carreira, você sempre inova em tudo o que faz.
E eu nem tenho essa preocupação. Vou fazendo o que me dá na telha. Eu apenas não quero fazer a mesma coisa que estão fazendo. Quero saber o que está sendo feito pra passar distante. Fui procurado pela produção do Fantástico pra gravar aquele clipe. E as pessoas estavam dispostas a fazer alguma coisa diferente. Tiraram as portas de um helicóptero, me amarraram pela cintura e eu fiquei nas alturas, passando o maior frio, fingindo que estava tudo normal, cantando... (risos).

Naquela mesma entrevista, em 89, conversando sobre a sua sexualidade, você me disse: “Sou do sexo masculino e acho ótimo ser do sexo masculino. Não sou ‘Homem com H’, tipo machão. Sou homem de caráter, coisa que está faltando para muitas pessoas neste país. Eu me requebro, eu mesmo faço as minhas maquiagens nos shows, mas adoro ser homem, adoro ter pau. E em nenhum momento da minha vida eu quis inverter isso... Gosto do sexo masculino, adoro ser do sexo masculino e não tenho limites entre o masculino e o feminino. Onde está escrito que existe um limite?” E aí, Ney?
Continuo pensando do mesmo jeito. Eu assino embaixo.

Nos seus shows, como você reage quando um homem na platéia grita pra você: “gostoso” ou “tira a roupa”?
Estou ali pra liberar tudo. Não subo no palco pra me exibir nem para os homens nem para as mulheres. Estou ali completamente liberado, e fico feliz quando as pessoas se liberam também. Durante o show, eu não estou pretendendo levar ninguém pra cama comigo. Estou oferecendo um outro tipo de provocação. Então, quando um homem chega a gritar ‘gostoso’ ou ‘tira a roupa’ pra mim, acho que eu consegui o que eu quero – que ele se liberasse a ponto de se automanifestar.

Quando eu assisti ao seu show aqui no Olympia, um rapaz, quase no final do espetáculo, subiu no palco, te beijou e continuou ali um tempo, dançando com você. É essa a liberação que você quer do público?
É... A única coisa que eu não quero é que me agarrem. Isso me desagrada muito. Agora, se liberar, eu acho bom. É isso o que eu fico estimulando o tempo todo em todo mundo.

Você já fez três trabalhos no cinema como ator. Na verdade, você é mesmo um ator no palco.
Antes de tudo, eu sempre quis ser ator. E eu achava que era útil para um ator que ele soubesse cantar e dançar. Aí, virei o contrário: um cantor que atua no palco e que dança muito.

Em 2002, o Aroldo de Oliveira, editor-chefe da Go Where, encontrou com você pelos corredores do Hotel Conrad Resort & Casino Punta del Este, no Uruguai, onde você estava fazendo um show. Ele comentou comigo: “Nossa, Cléo, como o Ney é diferente pessoalmente. No dia-a-dia, a gente percebe que ele é uma pessoa normal”. Como você consegue se transformar tanto no palco?
O palco permite isso. Nele, você pode extravasar. Diga para o Aroldo que, fora do palco, eu volto a ser o Ney Matogrosso, uma pessoa normal, mesmo (risos).

Afinal, você é tímido ou não é?
Sei lá se eu sou tímido (risos)... Eu diria que eu sou recatado. É que eu não tenho necessidade de aparecer. Prefiro observar a ser observado. No palco, não, eu tenho consciência de que estou ali pra ser observado. E eu gosto dessa exposição.

Apesar de você morar no Rio, costuma vir muito pra São Paulo. O que mais gosta de fazer por aqui?
Sou uma pessoa que não sai muito de casa. Aliás, no Rio, eu não saio nunca. Aqui, eu passeio mais. Em São Paulo, gosto muito de comer fora. E aqui existem muitos restaurantes bons, os melhores, eu diria. Eu sempre gostei muito de São Paulo e me sinto como uma pessoa que nasceu nesta cidade. E não se esqueça, Cléo, que a minha história como cantor começou aqui, com os Secos & Molhados...