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Nos bastidores da dublagem da oitava temporada de "Pokémon"
30/10/2006
Escrito por: Fabio Garcia Rodrigues (do site Poképlus)
Editado por: David Denis Lobão (com fotos de Fabio Garcia Rodrigues)
Leitor do Portal OhaYO! visita os estúdio da Centuro e revela tudo que viu sobre a dublagem do animê Pokémon!

Quinta-feira, 26 de outubro de 2006. São Paulo, SP. Lá pelas 13h eu estava descendo do metrô que me levou até a estação Trianon-Masp. O que poderia parecer um tradicional passeio na Avenida Paulista, cartão postal da cidade de São Paulo, na verdade era algo muito melhor: nosso intrépido enviado do site Poképlus (eu mesmo) fui convidado para visitar os estúdios da Centauro durante as gravações do nono ano de “Pokémon”.

Depois de uma semana de negociação com a simpática Raquel, marquei a visita para a quinta-feira próxima. Entre as tarefas básicas que me propuseram a fazer está conversar com Gilmara Sanches, a diretora do anime, para saber o que desandou no oitavo ano da série. Se possível também falar com a tradutora Elaine Pagano para comentar dos deslizes da tradução, embora seja difícil encontrá-la, pois a tradutora não trabalha no espaço físico da Centauro.

O primeiro dia

Depois de se perder por causa do meu senso de direção magnífico, cheguei ao prédio onde fica a Centauro. É um prédio discreto, entre uma lavanderia e uma loja de revelar fotografias. Ao chegar no andar certo à primeira coisa que chama a atenção é o ambiente: imaginava uma casa de dublagem como algo mais frio, mas o que encontrei foi um ambiente harmonioso, um verdadeiro lar. Cheio de vasos com flores, sofás confortáveis e estátuas e quadros. E a primeira pessoa com quem trombei por lá é o dublador Ivo Roberto (o Scott de “Pokémon”), com quem troquei algumas poucas palavras pra não ser inconveniente.

Fiquei esperando até dar a hora da gravação de “Pokémon”. Quando finalmente o relógio anunciou o horário, uma moça loira veio falar comigo perguntando se era eu que iria acompanhar a dublagem. A moça nada mais era que a diretora do “Pokémon”, a Gilmara Sanches. Fomos até o estúdio 2, onde fui convidado a acompanhar todo o processo da dublagem. Na pequena sala ficam geralmente o diretor de dublagem e o técnico, enquanto o dublador grava sozinho dentro de um local isolado acusticamente usando apenas uma televisão com a cena, um fone de ouvido com o som original e o roteiro em português. O diretor de dublagem conversa com o dublador através de um microfone, e por lá passa todas as informações necessárias.

Para o público que não conhece o processo, vale a pena comentar que a dublagem não é feita com todo mundo num estúdio gravando sem parar. O episódio é dividido por blocos de cerca de 20 segundos chamados anéis. Tendo os anéis em mão, cabe ao diretor de dublagem escalar os dubladores para os papéis. Depois que são convocados, os dubladores gravam individualmente apenas suas falas que depois são juntadas pelo mixador.

Ao entrar na sala já havia um dublador dentro do estúdio: Thiago Keplmair, o Max de “Pokémon”. Ele gravou suas participações em dois episódios e ainda teve tempo para contar algumas curiosidades sobre a dublagem. E enquanto dirigia o garoto, a Gilmara ia me contando todo o processo e ouviu atenciosamente todos os problemas que levei a ela. O assunto principal falado no momento é o porquê da mudança de estúdio da série, da Parisi Vídeo para a Centauro.

O estúdio Parisi foi o terceiro estúdio chamado para cuidar de Pokémon, substituindo a BKS. A casa começou com um trabalho tão bom com os animes que foi considerada a nova “Gota Mágica” (estúdio de dublagem de séries clássicas como “Cavaleiros do Zodíaco” e “Sailor Moon” - 1ª temporada). Em seu ápice o estúdio dublou maravilhosamente bem “Shaman King”, o primeiro ano de “Yu-Gi-Oh!” e “Inuyasha” (os dois primeiros anos).

Só que, assim como sua comparação, o estúdio caiu numa crise que teve falta de pagamento aos funcionários. Com isso, muitos dubladores não aceitavam mais trabalhar lá, e com isso as trocas de vozes se tornavam cada vez mais constantes. Foi nessa época que tivemos a gravação da sexta temporada de “Pokémon” e o terceiro ano de “Inuyasha”. A tradutora Elaine Pagano comentou que, quando traduzia “Pokémon” nessa época, o diretor da série mandava traduzir os golpes de qualquer jeito que na hora da gravação eles arrumavam. O Thiago Keplmair inclusive comentou que diversas vezes ele se auto-dirigiu no estúdio nas dublagens de “Pokémon”, o que acabava gerando um produto de qualidade inferior (pois é humanamente impossível fazer duas coisas bem ao mesmo tempo).

Como resultado da crise o distribuidor mandou “Pokémon” para a Centauro e a série caiu no colo da Gilmara Sanches, diretora que havia cuidado de todos os animes dublados na casa. Ela foi atrás das fitas pra conferir o ritmo da série, além de começar um glossário com nomes e pronúncias de pokémons. E aqui está o motivo para a mudança de vozes de alguns personagens (como a mãe do Ash, feita pela Vanessa Alves): quando os dubladores abandonaram o barco na época que a Parisi Vídeo estava afundando, houveram as substituições. Conseqüentemente as substituições se mantiveram no novo estúdio. Um exemplo foi manterem a voz da Téa do “Yu-Gi-Oh!” com Samira Fernandes, e não voltarem para a Melissa Garcia que havia abandonado a personagem por ter ficado grávida.

Enquanto conversávamos sobre isso, a Gilmara dava instruções ao Thiago sobre a pronúncia do nome Crawdaunt ou então pedia para ele tirar uma palavra de uma frase, pois havia ficado longa demais e ultrapassou o tempo da boca. Assim que terminou o trabalho fiz questão de cumprimentá-lo. Só como curiosidade, o Thiago é o irmão mais novo da Tatiane Keplmair, que é a dubladora da May. Ou seja, tanto no “Pokémon” quanto na vida real eles são irmãos.

Também consegui conversar com a tradutora Elaine Pagano, que cuida da série há um tempo considerável. Mostrei a ela os erros graves que cometeu no oitavo ano da série (como o golpe Mirror Coat que foi traduzido como Espelho do Casaco). Mas como nosso trabalho não é só criticar, combinamos uma ajuda da Poképlus para auxiliar com os termos e golpes principais. Com isso esperamos que ocorram menos erros que na oitava temporada.

Olhando na escala o dublador seguinte seria o Gilberto Barolli (Saga de Gêmeos em “Cavaleiros do Zodíaco”, aquele do ‘morra Seiya’). Ele estava lá para dublar um daqueles personagens que aparecem só em um capítulo. Não imaginava que este dublador em estúdio fosse tão divertido! Ele brincava bastante com a Gilmara, quando seu personagem precisava dar um grito mais forte ele o fazia como fosse “uma bichona”, além de colocar sua inconfundível risada no personagem malvado que se redimiu ao final do episódio. Mas isso não evitou de se engasgar freqüentemente com o nome dos Pokémons, e o Gilberto depois perguntou pra Gilmara se não seria melhor traduzirem tudo para o português. A Gilmara apenas olhou pra mim e fez um gesto mostrando que os fãs matariam ela se fizesse algo assim.

Depois tivemos um tempinho para o café e conheci a dubladora Fátima Noya (Enfermeira Joy de “Pokémon”), que seria a próxima a entrar no estúdio. Segundo a escala, ela foi chamada para dublar apenas quatro cenas curtas da enfermeira. A Gilmara me falou que muitos estúdios não fazem isso de chamar um dublador para dublar apenas uma fala. Eles geralmente enfiam o primeiro que passa na porta para fazer essa ponta. Nota-se claramente o respeito que a diretora tem pela série, pois ela mantém até o fim até mesmo os mesmos dubladores dos inexpressivos juízes dos Pokémon Contest. Inclusive a fala da Fátima foi justamente alguns comentários feitos pela Joy ao ver uma apresentação de um treinador.

E logo entrou o dublador Sérgio Corcetti (Leório de “Hunter x Hunter”) para gravar como o Tucker, um dos cérebros da Batalha da Fronteira. O dublador realmente se empenhou durante a dublagem, até me assustando uma hora com um grito. Durante as gravações aconteceu um erro na dublagem graças a um erro de digitação no roteiro, e o pokémon Corphish foi chamado de Corpish. Mas ao perceber o erro avisei a Gilmara que gravou novamente com a pronúncia certa. Durante nossas conversas ela se mostrou muito aberta a receber críticas construtivas dos fãs, que venham a somar o trabalho. Inclusive o nosso site colaborará com a Gilmara para fazer com que o nono ano tenha o mínimo de problemas possíveis. E durante a dublagem do Tucker vimos uma pequena improvisação surgindo. Ao ver que a palavra ‘blefe’ ficava muito formal no texto a diretora perguntou se seria interessante mudar para algo mais coloquial, e acabaram mudando para ‘pegadinha’ o que tornou mais natural.

E mais uma hora de café, enquanto esperávamos o próximo dublador chegar. Aproveitei e conversei bastante com a Gilmara, que me explicou mais sobre os problemas que ela ainda não havia contado o que houve. A mudança de voz da policial Jenny ocorreu porque a dubladora Raquel Marinho (Chichi de “Dragon Ball”) estava muito ocupada dirigindo uma dublagem em outro estúdio (nota do editor: “C.S.I.”). Como o distribuidor dá um prazo para a entrega dos capítulos dublados, a saída foi à própria Gilmara dublar a personagem. Outra mudança que os fãs chiaram muito foi o personagem Harley feito pelo Marcelo Campos (Yugi de “Yu-Gi-Oh!”). Alguns capítulos depois o mesmo personagem perdeu o jeito “feliz” que foi dado pelo Marcelo e foi dublado pelo Dado Monteiro (Mochi de “Monster Rancher”). Novamente o problema foi de agenda, mas quando o Harley reaparecer na nona temporada eles tentarão marcar com o Marcelo Campos, caso contrário já foi pedido para que a Gilmara faça o Dado Monteiro dublar um Harley mais “alegre”. Lembrem-se que tudo depende da agenda dos dubladores e dos prazos do distribuidor.

Nessa conversa também a Gilmara me contou alguns fatos da vida dela, como quando a filha dela contou para as amigas da escola que a mãe dublava a Marin dos “Cavaleiros do Zodíaco”, ocasionando um congestionamento na linha telefônica na casa da pobre Gilmara. Mas ela fala que gosta de ser reconhecida, e gosta quando há esse contato com os fãs. Durante a conversa apareceu a dubladora Thelma Lúcia, que fazia a voz do Pequeno Príncipe no anime homônimo.

E pra terminar a minha visita no estúdio acompanhei a dublagem de Alfredo Rollo (Brock de “Pokémon”). Depois de acompanhar os outros dubladores, fiquei incrivelmente impressionado com a sintonia que ele tem com o Brock. Ao contrário dos outros, que ouviam o original uma vez para depois dublar, o Rollo ia de primeira acertando todas as falas e respirações do personagem. Segundo o próprio dublador, é o fato de gravar durante anos como o mulherengo de Pokémon. Apenas em algumas frases, aquelas mais elaboradas, ele precisou ouvir o original primeiro. E no meio do caminho surgiu uma dúvida quanto à pronúncia do nome Vaporeon. Sorte que o nosso enviado especial estava lá para auxiliar na pronúncia certa, e a Gilmara pegou o calhamaço de papel onde guarda as pronúncias de todos os Pokémons que já apareceram. E assim o primeiro dia na Centauro se acabou. No dia seguinte acompanharia as dublagens das duas estrelas do programa: Fábio Lucindo como Ash Ketchum e Tatiane Keplmair como May.

O segundo dia

E o dia chegou, não tão rápido quanto esta troca de parágrafos. Assim que cheguei na Centauro o Fábio já estava sentado aguardando a hora de sua gravação. Como a própria Gilmara havia comentado, o rapaz é profissionalismo ao extremo. Nem por isso é sério em todos os momentos, pois diversas vezes quando errava ele acabava encaixando alguma frase engraçada na boca do Ash. “Nossa, esse episódio parece legal.” comentou quando viu que o episódio ‘Táticas teatrais’ seria de pura ação. “E a qualidade da animação está ótima, está me lembrando os filmes.” completou o dublador.

E não só os dubladores, mas todos do estúdio se divertem muito com a série. A Gilmara não esconde que seu personagem favorito é o Meowth, assim como adora quando o Max puxa a orelha do Brock. Notava-se que nas cenas em que aparecia o pokémon felino contracenando com a Equipe Rocket tanto a Gilmara quanto o técnico de som davam risada das tiradas do gato. Até mesmo a dubladora Tatiane Keplmair (May de “Pokémon”) acabou deixando escapar uma risadinha no meio da cena.

Num dos intervalos conheci mais duas dubladoras: Samira Fernandes (Sakura de “Sakura Wars”) e Claudia Carli (Rella de “Efeito Cinderella”). Depois de fotos e elogios, logo voltamos para terminar a dublagem do Lucindo.

Aproveitei para a Gilmara se poderia ouvir como ficaram as novas músicas de Pokémon, tanto de abertura como de encerramento. Afinal, outra das reclamações que eu me propus a levar para a Centauro foi a fraca música do oitavo ano. Os fãs que estavam com medo da nona abertura ser pior, podem ficar aliviados. Fui na sala de mixagem e me mostraram primeiramente a abertura nova. O Nil Bernardes fez um excelente trabalho nesta, comparável às inesquecíveis primeiras aberturas. Tanto a letra quanto o cantor estavam ótimos. Mas o destaque mesmo foi para a música de encerramento. A batida animada foi fielmente mantida, e a espécie de conversa mantida pelos dois cantores na música também foi deixada como no original, tornando a música animada como o antigo Poké-rap (encerramento do primeiro ano). A qualidade da música até me fez esquecer que a letra foi um pouco modificada do original.

A próxima a entrar no estúdio foi Tatiane Keplmair. Essa dubladora é a simpatia em pessoa, muito amável mesmo. Alguns minutos depois de nos conhecermos ela já estava contando como foi dublar personagens como a Akane de “Ranma ½” e a Lanfa de “Galaxy Angel”. E a dubladora ficou muito chateada ao saber que sua personagem em Pokémon se despede do público no final da nona temporada. Mas ela fez questão de anotar o endereço da Poképlus pra ver quem era a garota que havia puxado o tapete da coordenadora.

Durante as gravações a Tatiane não parava de fazer perguntas sobre essa temporada, e prometeu fazer bem o papel. “A May não fala muito, só quando ela inventa de fazer a expedição da May.” comentou a dubladora enquanto fazia com as mãos o mesmo gesto que a coordenadora faz quando começa a fazer a excursão, simulando uma câmera de vídeo.

E com o fim da dublagem da May veio o fim do segundo dia nos estúdios da Centauro. O passeio rendeu bastante, afinal o site Poképlus irá colaborar agora com a dublagem de Pokémon auxiliando tanto a diretora Gilmara Sanches como a tradutora Elaine Pagano. Foi incrível o espaço que a Centauro deu para a nossa equipe de um homem só, e mostra o quanto ligam para a impressão do público. Esperamos que isso seja o começo de uma guinada em Pokémon. Os fãs só têm a ganhar.


Gilmara Sanches confere o texto

A mesa de trabalho da diretora

Fábio Lucindo (Ash) no estúdio

Thiago Keplmair (Max) trabalhando

Fábio dublando Ash

O estúdio da Centauro

Lista de pronúncias de Gilmara

Tabela de escala de dubladores

A televisão de Gilmara

A diretora Gilmara Sanches

Gilmara e seu técnico no estúdio

A vez de Tatiane Keplmair (May)

A mesa do técnico de som

A entrada do estúdio

Tatiane no estúdio

Sérgio Corcetti grava como Tucker

Alfredo Rollo (o Brock) em ação
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