Publicidade

 

O mangá na sociedade japonesa - Um fenômeno que dura anos
18/08/05
Escrito por: Danilo Saraiva
Editado por: Danilo Saraiva

 Mais de duzentos títulos em circulação, milhões de dólares movimentados anualmente, leitores assíduos por todo o país. Assim se consagra o mangá no arquipélago japonês e assim ele é visto pelos orientais. Não importa a idade, profissão ou grau de instrução: não há regras para se ler quadrinhos em uma das maiores potências que o mundo já viu.

Ao contrário do que se pensa, o mangá não é uma coisa tão recente. Estudos afirmam que a primeira história em quadrinhos japonesa surgiu em 1702, já com divisões em quadrados, traços de expressão e balões de falas. Posteriormente, o estilo só foi se especializar mesmo no início do século XX, quando surgiram editoras interessadas em publicar esse conteúdo e os mangás passaram a ter distribuição popular, não sendo mais uma coisa limitada a guetos ou do conhecimento de poucos.

Infelizmente, a antiga forma de fazer mangá se dissipou com o acontecimento da segunda guerra mundial. A bomba atômica chocou o país, a economia se desestabilizou e os japoneses tiveram que passar pela maior reestruturação política e social da história. Nesse período, muitas editoras acabaram falidas, destruídas ou simplesmente fechadas. Com problemas maiores como a radiação, a reconstrução de uma potência e principalmente a falta de verbas, o governo japonês passou a mudar suas atenções para o seu povo e assim eles conquistaram empresas e respeito, que até hoje são motivo de admiração pelos outros países.

Foi, porém, com a ajuda financeira vinda dos Estados Unidos em 1945, que o mercado editorial japonês pôde ser retomado e assim as empresas voltaram a investir em quadrinhos. Nessa época, o arquipélago passava por uma situação bastante delicada: não havia cultura, as fontes de entretenimento eram mínimas e havia a necessidade de fugir dos temas que destruíram o país: nascia o mangá fantasia e grande parte da colaboração disso veio de Osamu Tezuka, que posteriormente iria mudar todos os conceitos de traço e estilo na arte de fazer quadrinhos.

Fome por leitura

Com toda a reconstrução que o Japão sofreu, houve uma reeducação profissional também. Para sustentar a economia, as pessoas tiveram que trabalhar mais e conseqüentemente a educação e a disciplina passaram a ser prioridade. Sobrava pouco tempo para que os habitantes japoneses pudessem se divertir. O mangá aqui serviu (e serve) como um material de base, aquilo que se lê para passar o tempo. Não é raro, por exemplo, ver pessoas no metrô, no ônibus ou em filas de espera de bancos lendo quadrinhos já que eles se inseriram no contexto japonês de uma tal forma, que já fazem parte da cultura.

Daí também surgiu o termo “livro de bolso”, na qual os mangás se baseiam e é por isso que muitas das publicações que saem lá acabam sendo jogadas fora. São raras as pessoas que realmente guardam seus mangás favoritos até porque a maioria deles sai em “atos” de mais ou menos 20 páginas dentro de revistas especializadas como a Shonen Jump, que trouxe centenas de títulos e já lançou pérolas como Cavaleiros do Zodíaco, Naruto e Dragon Ball. Aquele leitor que realmente se interessar por determinada publicação acaba comprando as edições especiais e encadernadas, que saem posteriormente com qualidade maior e atos anexados em volumes. Claro que toda regra há sua exceção, mas a maioria dos títulos funciona dessa forma.

Outra curiosidade a respeito dos mangás é a quantidade de gêneros que lá saem. Nas bancas e livrarias especializadas é possível encontrar histórias de todos os tipos. Publicações épicas, de fantasia, do cotidiano, eróticas, românticas, infantis. No Japão, praticamente todos os estilos já foram retratados no mangá e eles costumam ser divididos em pequenas categorias como shonen (mangá mais agressivo, voltado para os garotos) e shoujo (traços mais leves e histórias românticas), além de uma infinidade de termos desconhecidos dos fãs brasileiros.

Mais do que arte, um retrato da sociedade

Por mais que um mangá fale sobre fantasia ou coisas impossíveis como pessoas com poderes fantásticos e robôs feitos da mais alta tecnologia, há sempre um elemento da cultura japonesa inserido, mesmo que sutilmente. Geralmente essas citações se remetem a períodos históricos, moda ou mesmo a costumes básicos da tradição oriental.

Em Sakura Card Captors, por exemplo, há a retratação do dia dos namorados, quando Sakura prepara chocolates para as pessoas que ama. Mas não se engane, há uma diferença na hora de entregar os doces. Para os admiradores secretos, as meninas costumam dar um chocolate mais incrementado, geralmente com formas de coração ou embrulhados em um presente especial do que para os amigos. E é assim que a heroína do mangá do grupo Clamp faz: para o seu amado Yukito, ela entrega um chocolate em forma de coração enquanto para Tomoyo e o resto de seus amigos, faz um chocolate em forma de estrela.

Outros aspectos históricos como a época em que o Japão ficou isolado de todos os outros países do mundo são retratados em Samurai X. As artes marciais, as lendas folclóricas e alguns elementos relevantes da cultura são mostrados quase que inteiramente em títulos como Dragon Ball e Inu-Yasha. Isso ajuda a contextualizar que os mangás e a sociedade andam juntos e que as histórias, apesar de trazerem características fantasiosas, trazem elementos que interagem com o japonês do cotidiano. E deve ser por isso que nos outros países do mundo o mangá faz tanto sucesso: há uma conexão com o oriental e ao mesmo tempo uma fascinação por essa cultura.

Estilos parecidos

Olhos grandes, expressões exageradas, gotas brotando da testa. Esses elementos estão presentes em 90% das publicações em quadrinhos lançadas no Japão e ajudam a caracterizar esse tipo de arte. No entanto, a coisa não começou por acaso. Foi Osamu Tezuka quem trouxe essas características únicas ao retratar personagens como Kimba, o leão branco e criar clássicos títulos como A Princesa e o Cavaleiro.

Baseado nos filmes de Walt Disney, Tezuka resolveu criar sua própria forma de arte e originou os personagens dos olhos grandes, tão comuns no país até hoje. Esse traço ajuda a desenhar expressões, marcantes nesse tipo de obra. Fora isso, existem alguns elementos fixos que sempre se repetem, mesmo com autores tão ecléticos.

A gota na testa significa indignação, ironia ou mesmo surpresa. O sangue escorrendo do nariz traz referências à excitação, enquanto os olhos brilhosos e úmidos podem indicar emoção.

Enquanto o Brasil passa por uma invasão das publicações orientais, no Japão elas já fazem parte do contexto. Só nos resta saber se essa arte vai continuar com tanta repercussão como está hoje e se nós, os brasileiros, iremos conseguir criar um estilo tão bem-sucedido e criativo quanto os deles.

Fotos: Divulgação

 

Produzido por ©YAMATO CORPORATION - Conteúdo por ©YAMATO EDITORA - Design por ©T2 Studio - 2004/2009
Copyright: Todos os direitos reservados - É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da ZN Editora.