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Pela primeira vez no Brasil está sendo produzido um documentário profissional sobre o universo dos fãs de animê e mangá. Conheça com exclusividade os bastidores do longa-metragem “DAAN-DAAN! Cultura Pop Japonesa no Brasil” (titulo provisório).
O Bang-Bang cultural
O nome “DAAN-DANN” pode causar certa “estranheza” com o público, pouco acostumado à expressão. Mas ele significa “Bang-Bang” no universo das onomatopéias japonesas.
Com o nome devidamente apresentado vamos falar do conteúdo do filme. O documentário é uma produção da Oficina Produções Cinematográficas, que deve será exibido pela TV Cultura e em festivais de cinema.
O objetivo da produção é investigar de forma séria o intercâmbio entre a cultura jovem japonesa e a brasileira. O filme começou a ser gravado em julho do evento Anime Friends 2007 e continua sendo gravado em setembro e outubro em quatro Estados: Amazonas, Distrito Federal, São Paulo e Rio de Janeiro.
A equipe do OhaYO! acompanhou parte das gravações e assistiu um trecho do material gravado e garante: É algo surpreendente. Nada com esta qualidade já foi feito sobre o tema no Brasil.
Este “Bang-Bang” cultural entre o universo pop do Brasil e do Japão realmente vai agradar os fãs de animês e mangás brasileiros.
Produzindo um documentário no Brasil
Produzir um documentário no Brasil não é uma tarefa fácil. “DAAN-DAAN! Cultura Pop Japonesa no Brasil” foi viabilizado com um prêmio entregue pela TV Cultura, em parceria com o SESC e a Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, por meio do edital Programa Janela Brasil.
A produção é dirigida por Laura Faerman, que trabalha há sete anos como diretora e editora de cinema e vídeo. Laura explica para o OhaYO! que realizar um longa como este no Brasil não é uma tarefa fácil. “Ainda são raras políticas como a implantada pela TV Cultura para o setor de documentários, que dá espaço para a pluralidade temática e de linguagem.
O DOC TV, que premia projetos de documentários em todo o país, é um exemplo muito bem sucedido neste sentido, abrindo espaço para novos realizadores e olhares sobre o Brasil”, conta a diretora.
Acompanhando Laura nesta “aventura pelo mundo dos animês”, estão o produtor Luis Ludmer e a roteirista Thaís Teixeira.
Ludmer destaca que é complicado transformar uma idéia como esta em um longa-metragem, mas lembra que a visão de Laura sobre o assunto foi vital para o projeto “Há o mérito da diretora,Laura Faerman, em ter captado no ar essa tendência da Cultura Pop Japonesa no Brasil. E também o mérito do júri do Edital Janela Brasil da TV Cultura de acreditar nessa idéia e torná-la possível”.
Thaís completa que realizar um documentário no Brasil também fica complicado pela pluralidade cultural do nosso povo e a dimensão geográfica do país. “Produzir um documentário requer fazer um recorte do tema a ser abordado.
Acho que sempre, mas talvez em particular no Brasil devido às suas dimensões e múltiplas influências, temos um número enorme de variáveis a considerar quando tentamos documentar algum fenômeno que se expresse em nível nacional”, explica Thaís.
As filmagens no Anime Friends
Primeiro domingo do Anime Friends, dia 15 de julho. Enquanto o público esperava na fila para entrar e os coordenadores lutavam contra o relógio para terminar de arrumar tudo a tempo, a equipe de Laura preparava as câmeras e os técnicos para iniciar as filmagens do documentário no maior evento de animê e mangá do continente americano.
Durante aquele dia (e por mais dois) as câmeras iriam circular pelo meio do público, captar os cosplayers, selecionar as melhores imagens e cenários para transformar o longa em realidade. “Eu já havia ido a alguns eventos de animê, mas nada que tivesse as proporções da Animê Friends”, declara Laura impressionada com a dimensão do evento e com o público que lotava a Universidade UniSant´Anna em São Paulo. “O mais impressionante na feira foi ver aquela quantidade de pessoas com roupas incríveis e códigos próprios, formando um ambiente que beira a ficção científica e o mundo virtual, todas se divertindo muito”, completa Laura.
As estrelas da filmagem eram os cosplayers. Filmados nos mais variados locais e cenários do Anime Friends, eles curtiram muito a experiência.
"Foi algo diferente e bastante interessante. Vivenciar este universo de atuação em cinema, com pessoas dizendo ‘corta’ e ‘ação’ foi algo que eu jamais pensei que pudesse fazer. Espero que esta iniciativa de levar cosplayers para um tipo diferente de mídia dê certo e consiga o resultado esperado pela produção. Agradeço muito a eles pelo convite", fala empolgado o carioca Marcelo Vingaard.
Após tantas matérias que tratavam com um certo preconceito o universo dos cosplayers e estereotipavam o comportamento dos fãs de animê e mangá, surgiu como um alivio para os participantes a seriedade do documentário e do trabalho da equipe de Laura. “Eu achei o máximo essa iniciativa de fazer o documentário. Pelo que pude ver, está sendo muito bem produzido.
Eu participei de algumas gravações e foi uma experiência ótima. Eu tive até uma dublê pra marcar algumas cenas minhas enquanto eu me preparava pros concursos de cosplay do Anime Friends.
Deu pra perceber que é uma produção séria e que está tendo todo o respeito e cuidado que o nosso hobbie merece. Estou ansiosa para ver o produto final disso tudo”, diz a cosplayer e cenógrafa Thaís Yuki.
O produtor Luis Ludmer também saiu do Anime Friends surpreso com a dimensão do evento, “Primeiramente, me surpreendeu a diversidade de pessoas, tipos, idades e interesses que os unem num mesmo evento.
Depois me surpreendi pela civilidade com que todos se tratam: tem muita gente lá e não há brigas, nenhuma confusão, é um ambiente de extremo respeito a diversidade”. A convenção também agradou a roteirista do longa, Thaís, “Achei o evento riquíssimo, tanto do ponto de vista do documentário, como fonte de dados e de pessoas interessantes, quanto do ponto de vista pessoal, para meu próprio conhecimento e entretenimento”.
Você confere uma cobertura completa e inédita sobre o documentário na revista Neo Tokyo 22 (outubro), com entrevistas exclusivas com a equipe do filme. Não perca!
Conexão OhaYO! - Entrevista com a diretora Laura Faerman
A diretora Laura Faerman, filmou em 2006, em parceria com a fotógrafa Marília Scharlach, o documentário “No Traço do Invisível” (52 min.), prêmio DOC TV 2006 da TV Cultura, escolhido para a sessão de abertura do RESFEST Brasil 2007.
No currículo de Laura também consta a animação “New World Airlines” (12 min.), feito em parceria com o artista Rodrigo Matheus, que recebeu o prêmio Cultura Inglesa Festival de Artes Visuais e participará, em setembro, da exposição “Extraordinary!”, no Harbour Center de Toronto.
A seguir, você confere uma entrevista exclusiva com a mulher por trás de “DAAN-DAAN! Cultura Pop Japonesa no Brasil”.
OhaYO! – Você já conhecia o universo do animê e mangá antes de começar a produzir este documentário?
Laura - Há muito tempo eu tenho interesse por cultura japonesa, mas ele se manifestava mais na área do cinema, nos filmes de cineastas como Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa e Kenji Mizoguchi. Antes de começar a pesquisa para o filme, meu conhecimento de mangás era restrito aos “clássicos”, como “O Lobo Solitário”, ou coisas bem específicas como o mangá “Cinderalla”, de Junko Mizuno.
Quanto aos animês, sou apaixonada por ficção científica e conseqüentemente por “Akira”, “Memories” e “Metropolis”, dirigidos por Katsuhiro Otomo.
Porém a minha aproximação de fato com o mundo da cultura pop japonesa no Brasil aconteceu em meados do ano passado, quando alguns amigos me falaram da Anime Friends, da quantidade de pessoas que circulavam pela feira, das fantasias incríveis, dos concursos, das plaquinhas, dos shows, enfim de todo este universo futurista “low tech”.
Fiquei completamente obcecada e o fato de que este mundo tão vasto, tão rico e presente na cultura jovem do Brasil nunca tenha sido abordado em um documentário foi o ‘insight’ que faltava para começar a fazer o projeto do filme.
OhaYO! - Imaginava que este universo fosse tão amplo e expressivo? O que foi novo pra você? O que te surpreendeu?
Laura - O incrível de se trabalhar com o gênero documental é a intensidade com que se mergulha em universos tão particulares. Todo o processo tem sido marcado por surpresas que interferem no recorte da realidade que é mostrada no filme.
A primeira grande surpresa foi de repente tomar conhecimento de que hoje milhares de pessoas sentem essa conexão tão forte com a cultura pop japonesa. Eu nunca imaginei que em espaços geográficos, sociais e culturais tão diferentes houvesse tanta gente na mesma sintonia, olhando para a mesma direção.
Também nunca imaginei que esse universo fosse tão complexo, rico e oferecesse possibilidades estéticas tão interessantes. A partir desta descoberta, resolvi pensar um filme que utilize recursos de linguagem dos animês e mangás na sua construção e que seja mais visual do que apoiado no formato convencional, de entrevistas.
Para atingir o grau de sofisticação na imagem que faça juz a esse universo, trabalharemos com uma câmera de alta definição da Panasonic, que grava a imagem em HD real, e contaremos com dois meses de finalização e efeitos.
No filme que dirigi anteriormente (“No Traço do Invisível”), as imagens já tinham mais espaço do que o discurso falado, mas nele ainda havia algum apoio em entrevistas. Já em “DAAN DAAN!” a opção por não deixar nada vir através de depoimentos é mais radical. As imagens devem falar por si.
OhaYO! – E quais suas expectativas pra o filme? Aonde deseja chegar? Cinema, mostras, televisão? Quando será o lançamento?
Laura - A partir do material gravado serão produzidos dois produtos: um filme de 48 minutos que será exibido pela TV Cultura a partir de fevereiro de 2008 e um filme de 75 minutos destinado à exibição em salas de cinema efestivais nacionais e internacionais.
No próximo ano haverá a celebração do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, com projetos e festividades que durarão o ano inteiro.
“DAAN DAAN! Cultura Pop Japonesa no Brasil” também será exibido nesse contexto, pois vai ao encontro dos objetivos da celebração do centenário ao mostrar a riqueza e contemporaneidade do intercâmbio proporcionado pela confluência das duas culturas, em uma vertente totalmente atual, pela via do pop.
OhaYO! - E o que você espera com este documentário? O que você deseja passar através dele?
Laura - Mais do que tentar traçar uma análise psicológica, sociológica ou antropológica, espero mostrar o impacto desse fenômeno cultural no país e a relação de antropofagia com uma cultura estrangeira.
O movimento dos fãs brasileiros de animês e mangás não é uma mera transposição de um acontecimento cultural exógeno deslocado para a nossa geografia social.
Trata-se de uma releitura que parte da sólida tradição japonesa em desenho, animação e caracterização de personagens para o teatro, para dar origem a uma recriação com forte sotaque tropical, momento de articulação entre as culturas do Brasil e do Japão.
Essa cultura já é híbrida, não é mais japonesa ou brasileira, mas calcada em uma mistura muito interessante de seus elementos.
Talvez a principal característica do filme seja o embate entre a ficção e o documental. O que pretendemos é atingir um certo ponto nebuloso entre essas duas instâncias.
OhaYO! – E já tem planos de outros filmes? O que o futuro te reserva como diretora?
Laura - Já tenho idéias para um novo projeto, novamente em torno da questão oriental, a ser produzido em 2008, mas ainda não posso revelar o tema.
Posso afirmar que pretendo continuar trabalhando com documentários e curtas-metragens com temas relacionados à cultura jovem e urbana, e que ainda não tenham chegado ao grande público.
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