Publicidade

 




Entrevista com José Parisi Jr., o dublador que dirigiu “Chaves” para a CNT/Gazeta, “Yu-Gi-Oh!” e “Pokémon”
23/11/2007
Escrito por: David Denis Lobão
Editado por: Cezar Jr.

Ele dirigiu inúmero animês como “Pokémon” e “Yu-Gi-Oh!”, mas um dos pontos mais desconhecidos da sua carreira é que ele foi o diretor de dublagem da série “Chespirito” para a CNT/Gazeta e com isto dublou o personagem Godinez do seriado “Chaves”.

Conheça um pouco mais sobre José Parisi Jr., nesta entrevista feita em 2004 e publicada pela primeira vez na integra na internet.

Os bastidores da entrevista

Esta entrevista foi feita como parte de um trabalho de conclusão de curso de rádiojornalismo, feita junto com mais três colegas do curso de jornalismo da Universidade Anhembi Morumbi.

Na ocasião conversamos também com Gisa della Mare, que dirigia com Parisi as séries e filmes do estúdio e que não poupou elogios ao chefe. “Ele realmente se dedica ao que faz e aos fãs, revisa as traduções, escala todo o elenco original, se ele faz algo pode confiar que foi o melhor possível”, definiu Gisa na época.

A entrevista de Gisa (que chegou a dublar pontas como hospedes do hotel de Chompiras e uma vizinha de Chaparron no seriado “Chespirito”) saiu completa na revista Anime>DO.

Atualmente o estúdio Parisi Vídeo fechou. E seus dois diretores aparentemente não têm mais contato.

Gisa dubla alguns personagens no estúdio Uniarthe em São Paulo, o mais significativo foi a Alice da série “Efeito Cinderela”.

Não conseguimos localizar Parisi para saber o que ele tem feito atualmente. Os desenhos que eram dublados no estúdio (“Pokémon” e “Yu-Gi-Oh!”) estão sendo dublados na casa de dublagem Centauro, com direção de Gilmara Sanches.

OhaYO! – Como foi pra você dirigir “Chaves”?

Parisi – Olha, pra ser bem sincero eu gostaria de ter dirigido mais episódios de “Chaves”, pois o que nós fizemos foram episódios da série “Chespirito” e a maioria dos quadros do programa eram com o Chompiras e não com o Chaves, mas mesmo assim foi uma excelente experiência.

Eu gosto muito do seriado, assistia sempre na hora do almoço aqui no estúdio e gostava muito do estilo, da história, dos atores. Enfim, foi uma experiência muito interessante de forma pessoal, mas também profissional.

Digo isto, pois artisticamente a série trouxe nome e prestigio pro meu estúdio que na época estava só começando.

OhaYO! – E foi complicado realizar esta dublagem? Você teve algum problema com os dubladores ou com a emissora (CNT/Gazeta)?

Parisi – Meu maior problema não foi com a emissora, foi com o estúdio anterior que não se conformava de ter perdido o trabalho.

O dono do produto achou que a dublagem tecnicamente não estava ficando com a qualidade que eles queriam lá e mandaram para o meu estúdio e eles, claro, não concordaram com isto e não ajudaram em nada a continuidade do trabalho.

Eu não tive qualquer suporte com nomes que estavam sendo usados, escalações de personagens coadjuvantes, nada. E no que foi possível eles também tentaram atrapalhar, instruindo dubladores para não trabalharem no meu estúdio, o que dificultou um pouco o trabalho no começo, mas depois não tive mais problemas.

Aliás, é importante deixar claro que eu não tenho nenhum problema com a emissora, pelo contrário, até hoje em dia qualquer coisa que eles querem dublar algo eles me procuram, eu tenho uma relação muito saudável com todos os diretores de lá.

Considero muito todos eles e sou muito grato por esta oportunidade.

OhaYO! – E do que você mais se orgulha no trabalho de dublagem de “Chaves” pra CNT?

Parisi – Da tradução. Eu já conhecia a série, sabia mais ou menos com o que os fãs estavam acostumados e procurei fazer um bom trabalho em cima disto.

Procurei manter aquele clima ingênuo e infantil, manter aquele ar doce dos personagens até mesmo na série “Chompiras” que é mais adulta e fala de dois ladrões arrependidos.

Acho que o grande engano da série quando ela foi redublada pro SBT foi à tradução e por isto eu me orgulho muito do trabalho que eu fiz.

Até porque na época era tudo mais complicado, a internet não tinha o alcance que tem hoje e não era possível entrar em fóruns e consultar os fãs, não existiam sites pro diretor de dublagem e pro tradutor pesquisarem, e por aí vai.

Hoje em dia eu dublo “Pokémon” consultando fãs por e-mail, deixo eles virem no estúdio e assistir a dublagem e assim eles vão me ajudando com o trabalho.

Na época do “Chespirito” eu não tinha nada disto, e mesmo assim procurei fazer o melhor possível. Se eu fizesse a série hoje seria bem melhor o trabalho, eu pesquisaria em fóruns, chamaria os fãs aqui.

Fora que acho que este é o tipo de série que seria muito difícil de dirigir por alguém que não conhecesse os personagens ou não gostasse deles. Foi um prazer realmente.

OhaYO! – Já que você citou a redublagem de “Chespirito” para o SBT, o que você achou dela?

Parisi – Achei que foi desnecessária. Se já existia um material dublado e bem dublado pra quem redublar? Qualidade técnica nós tínhamos, com uma boa captura de áudio, uma boa mixagem, uma boa tradução... Não vejo motivo em redublar, quer dizer, se ainda fossem redublassem para chamar todo elenco original eu entenderia, mas não foi o caso, já que todos sabem que o dublador do Seu Barriga não participou e na mesma época ele estava trabalhando, pois estava dublando um desenho aqui comigo. 

Acho que a redublagem pode ter seus fãs afinal teve a Cecilia (Lemes), o Osmiro (Campos), mas acho que ela não tinha motivos pra ter ocorrido.

OhaYO! – Já que você falou do elenco, porque na dublagem de “Chaves” do seu estúdio não tivemos dubladores como Osmiro Campos e Mário Villela participando?

Parisi – O que ocorre é que quando a série chegou pro nosso estúdio fomos instruídos pela emissora que deveríamos dar uma continuidade ao trabalho que vinha sendo feito pelo outro estúdio.

Ou seja, deveria manter o padrão que estava sendo adotado e somente continuar o trabalho com o mesmo elenco. Eu tive que manter a escalação e com isto não tive a chance de escalar quem os fãs queriam.

Na época me perguntaram porque a Cecília não dublava a Chiquinha, afinal era a dubladora mais conhecida dela; porque o Osmiro não fazia o Girafales e porque o Villela não fazia o Seu Barriga.

Eu respondia que eles deviam perguntar para a BKS, pois foram eles que não os escalaram, eu apenas mantive as escalas. Mas por mim todos eles teriam participado.

Eu acho a Cecília uma das melhores dubladoras do país, o Osmiro na época alugava meu estúdio para fazer alguns trabalhos da empresa dele e o Villela dublava outras séries e filmes comigo. Eu não tenho problemas com nenhum deles.

OhaYO! – E você teve algum problema com alguém do elenco durante o processo?

Parisi - Bom, o único problema foi que o seu Eleu (Salvador), que dublava o Jaiminho e os demais personagens do ator ficou doente.

Ele já tinha dublado o personagem na dublagem original do SBT e vinha dublado na BKS, mas durante a dublagem em meu estúdio ele ficou com alguns problemas de saúde que duram até hoje (na época da entrevista Eleu estava doente, hoje em dia o dublador já faleceu).

Eu no momento cheguei a pensar que tinha um problema em mãos, mas logo pensei numa solução que não deixasse os fãs muito desapontados.

Eu chamei o Mario Villela para vir ao estúdio, sem falar o que ele dublaria. Ele achou inclusive que era uma novela mexicana. Então eu coloquei ele no estúdio e quando ele viu que era “Chaves”, ele ficou muito emocionado.

Expliquei então que o Eleu estava doente e não poderia dublar os personagens dele no momento, e que eu precisava entregar o produto.

Ele fez e ficou muito bom o resultado, infelizmente não sei se chegou a ir ao ar, pois tivemos alguns problemas e a série saiu do ar.

OhaYO! – Que problemas?

Parisi – Tivemos uma greve dos dubladores, o que foi um absurdo. Antes da greve tínhamos muito trabalho, sobrava. Depois da greve eles pediram aumentos tão altos, que dublar algo no Brasil ficou muito caro, a dublagem virou um produto caro.

Com isto caíram os trabalhos e muita gente ficou sem trabalhar. Mas isto não vem ao caso, o que vem ao caso é que por causa da greve paramos de dublar a série.

Eu terminei o que deu, editei e mandei pra CNT. Mas já era tarde, a série ficou sem episódios inéditos dublados e com isto quebrou um contrato com a Televisa que exigia a série toda dublada em um determinado prazo.

Pra completar, contratos publicitários não permitiram que algumas novelas saíssem do ar por causa da greve e elas acabaram indo ao ar legendadas. Pelo que eu soube isto também foi um fator importante para que a Televisa tirasse seus produtos da CNT.

Com isto não consegui terminar de dublar a série e nem tudo que fizemos chegou a ir ao ar. Por causa deste greve não consegui terminar um trabalho tão importante quanto este, mas outros estúdios e produções também foram bastante prejudicados na época. Deixa isto pra lá.

OhaYO! – Então está bem, voltando ao Chaves. O que achou do dublador do personagem?

Parisi - O Serginho (Sérgio Galvão), que fez o personagem, é um rapaz muito talentoso, faz ótimos personagens como o Pato Donald e fazia muito bem o personagem Chompiras, mas por algum motivo eu não me sentia a vontade com ele dublando o Chaves e o Chapolin.

Mas eu tive que manter o elenco do estúdio anterior então nem cheguei a fazer testes para que outro dublador fizesse os personagens. E no final ele deu conta e muitos fãs gostaram.

OhaYO! – E quem você escalaria pra fazer o personagem?

Parisi - Difícil te responder assim. Teríamos que fazer testes e no fim a emissora quem escolheria. Mas se fosse por mim eu escolheria um dublador chamado Tatá Guarnieri.

Acho que ele tem uma capacidade vocal bem bacana para imitir tipos vocais. Não que ele seja um imitador, mas ele consegue pegar o jeito como o dublador anterior fazia determinado personagem e chegar próximo daquele resultado.

Uma vez me foi pedido para redublar o desenho “Denis, o Pimentinha”.  Eu tinha outro estúdio na época, menor que este, e não tinha trabalho.

O desafio era que o trabalho seria meu se eu conseguisse uma voz muito próxima da que era feita no Brasil. Eu chamei o Tatá e ele conseguiu um resultado que o dono do desenho achou até que era o dublador original. (Nota do editor: A entrevista foi realizada em junho de 2004. No final de 2006, a Amazonas Filmes escalaria Tatá Guarnieri para fazer o Chaves na redublagem dos episódios para o mercado de DVDs. Atualmente ele dubla o personagem no desenho do SBT).

OhaYO! – E no final você também participou da dublagem não é?

Parisi – Então, temos um padrão aqui no estúdio onde eu narro todas as produções. Então eu faço as placas como “Versão brasileira: Parisi Vídeo – São Paulo” e também narrações que surjam ao longo dos episódios como as que apareciam nos episódios de “Chespirito” que falavam “Se você quer saber como termina esta história, não perca nosso próximo episódio, nesta mesma hora e neste mesmo canal”. (risos).

No começo eu só fazia isto, além de dirigir e de arrumar a tradução dos episódios, mas depois apareceu na série o ator Horácio Gomez Bolaños, que fazia o Godinez.

Ninguém sabia me falar quem fazia ele na BKS e como eu te falei, o estúdio não estava disposto a me ajudar. Então fui atrás do dublador original do personagem, mas ninguém sabia dele e quando eu encontrei um contato, ele nunca me atendia. Então no final, cheguei no dia da entrega do material e sem muita alternativa eu mesmo dublei.

Foi algo que aconteceu totalmente ao acaso, eu não planejei dublar o personagem, ocorreu por falta de opção mesmo. Mas disseram que o resultado ficou bom (risos).

OhaYO! – Sim, o pessoal gosta do seu trabalho como dublador. Aliás seu contato com os fãs é bem forte não é?

Parisi – Sim e eu gosto muito disto, recebo eles no meu estúdio, troco e-mails, dou entrevistas. Mas isto começou a ocorreu por causa dos animês como “Pokémon” e “Yu-Gi-Oh!”.

Sentia falta disto na época do “Chaves”. É uma troca fantástica, que acredito que todos os estúdios e diretores deveriam ter, mas infelizmente nem todos pensam assim. Tem donos de estúdios que querem ver os fãs bem longe.

Tanto eu, quanto a Gisa (della Mare) que trabalha comigo, sempre procuramos ter esta ligação bacana com quem acompanha nosso trabalho.

OhaYO! – Alguns falam do lado negativo da participação dos fãs...

Parisi – Sim, de fato isto pode existir. O lado ruim são os boatos, é ruim entrar em um site da internet ou em um fórum e ler que você é caloteiro e por isto os dubladores não dublam com você.

Tem muito diretor que deu calote nos dubladores e que por isto eles não dublam lá, mas não é meu caso com “Pokémon” e mesmo assim na época que comecei a dublar o animê lia muito isto por aí.

As pessoas falavam sem saber. E no final todos os dubladores originais do desenho, até os que não participaram do segundo ano no estúdio anterior, que por coincidência também era a BKS, participaram.

E o mesmo ocorreu recentemente de forma mais absurda ainda com “Yu-Gi-Oh!”, que é feito aqui no meu estúdio e com minha direção.

Falaram que a voz do Marik seria trocada porque o dublador do personagem tinha brigado com o diretor por falta de pagamento do estúdio. É verdade que a voz do Marik foi trocada, mas a explicação que deram é um absurdo. É absurdo porque eu era o dublador do Marik.

Então segundo esta história, eu teria brigado comigo porque eu não teria me pagado? Tem lógica isto? O que ocorreu foi que eu fiz uma operação na garganta e não consigo mais dublar o personagem, não consigo mais chegar no tom de voz dele. E quando eu faço, dói muito.

Eu agradeço muito aos que gostam do meu trabalho, mas infelizmente eu não consigo mais dublar. Mas até aí ficar criando este tipo de história atrapalha e prejudica o meu trabalho.

Quando ocorrer algo assim é só me ligar que eu explico tudo direitinho.

Fotos: David Denis Lobão


Estúdio Parisi Video, na época que funcionava na Vila Madalena e onde foi dublado “Chespirito”

José Parisi Jr. em sua sala

Gisa della Mare, co-diretora das séries do Parisi Vídeo
Produzido por ©YAMATO CORPORATION - Conteúdo por ©YAMATO EDITORA - Design por ©T2 Studio - 2004/2009
Copyright: Todos os direitos reservados - É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da ZN Editora.