Será que vai mudar?

A manifestação popular no último pleito foi claramente por mudanças, especialmente no plano federal, pela expressiva votação recebida por Luís Inácio Lula da Silva para presidente da República. A “esperança venceu o medo” como disse o próprio Lula.

Estamos acompanhando a formação do governo do futuro presidente e não sem motivo, ficamos preocupados com o desenrolar dos acontecimentos. A começar pela maneira “civilizada” como tem sido tratada a transição governamental. Ora, não era somente a oposição partidária tendo o PT à frente que vivia diuturnamente denunciando os descalabros dos oito anos de governo de FHC, principalmente relacionados com a política econômica monetarista voltada para a especulação financeira internacional, completamente desvinculada dos interesses dos brasileiros. O mínimo que ouvíamos dos descontentes era que a política econômica de Pedro Malan, Armínio Fraga e caterva tinha levado o País à ruína. De repente no transcurso da mudança de comando, em nome da civilidade, baixou um silêncio sepulcral sobre a diabólica trama dos dois na condução da economia com as falcatruas cometidas e muitas vezes denunciadas.

O mais esquisito e inquietante é Antônio Palocci Filho, o nomeado ministro da economia de Lula em suas falas sobre a política econômica do novo governo, não se diferenciar na forma nem no conteúdo do seu próximo antecessor. Afirma que vai manter os juros nos índices escorchantes atualmente praticados, que o objetivo principal é o combate à inflação, acena com corte de despesas, conseqüentemente nos investimentos públicos e por aí vai. No Congresso Nacional os parlamentares petistas fazem acordos que certamente antes seriam considerados espúrios pela bancada, como o que favoreceu manutenção da alíquota de 27,5% para o desconto de imposto de renda que atinge em cheio os assalariados especialmente da classe média, em troca do imoral foro privilegiado para crimes praticados por ex-presidentes, ministros e ex-governadores, uma nova Lei Fleury para deixar impune os criminosos de colarinho branco de alto coturno.

Enquanto isso, é nomeado o senhor Henrique Meirelles para o Banco Central, banqueiro ex-presidente mundial do Bank de Boston, acusado pelo deputado Mercadante de ter sido um dos estabelecimentos bancários que fraudulentamente se beneficiaram da desordenada desvalorização do real perante o dólar em 1999. Em sua defesa, ele diz que na época não dirigia o referido banco no Brasil, é verdade, mas como presidente mundial da megaempresa bancária americana, não poderia estar à margem do que se fazia na filial brasileira. Qualquer criança entenderá essa lógica, portanto, não venha o senhor Meirelles querer fazer-nos de idiotas, basta os oito maléficos anos de Malan e Fraga. E para completar, o futuro presidente do BC faz rasgados elogios ao Armínio Fraga e diz que vai seguir a política administrativa do antecessor. É dose.

Companheiro Lula, o povo quer mudanças e votou em você com essa esperança, não o frustre. Não se perca no caminho da glória passageira. A esperança ainda se mantém.              

 

RUBENS COELHO
EMAIL: rubens_coelho@zipmail.com.br

60, é cearense de Milagres, formado em Geografia e Ciências Sociais pela PUC-SP, foi fundador do Sindicato dos Hotéis Bares e Similares de Mossoró.

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Mossoró-RN, sábado, 21 de dezembro de 2002