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Singularmente Brasil
Rodrigo Santoro
Nos últimos dois anos, Rodrigo Santoro viveu, no cinema, personagens bem diferentes daqueles que o alçaram ao posto de galã na tevê. Interpretou um jovem que conhece o inferno dentro de um manicômio, em “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky. Um rapaz obrigado pelo pai a vingar a morte do irmão, em “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. E um travesti preso, em “Carandiru”, de Hector Babenco. Arriscou até uma incursão à “glamourosa Hollywood” - como ele mesmo exalta - onde filmou “As Panteras 2”, na pele de um vilão. Apesar disso, retorna à telinha com um tipo que não lhe exigirá nenhum histrionismo interpretativo. Em “Mulheres Apaixonadas”, de Manoel Carlos, Rodrigo interpreta o sedutor Diogo. Mas não desmerece o papel. “É bom encarar agora um personagem comum, que pode ser encontrado em qualquer esquina. Serve como uma reciclagem”, argumenta, secamente.
Diogo é um típico “Dom Juan”, que não resiste aos apelos femininos. Tanto que, após engravidar e se casar com a apaixonada Marina, interpretada por Paloma Duarte, o rapaz resgata uma “caliente” relação com a prima Luciana, de Camila Pitanga. Mesmo assim, Rodrigo garante que seu personagem não é cafajeste. “Ele acaba metido em confusão porque não controla seus desejos. Mas também sofre com isso. Não é um galinha”, tenta defender. Fora o “fraco” por mulheres, Diogo é gerente de uma agência de turismo, sócio numa loja de motocicletas e praticante de vários esportes.
Este perfil “saudável” é um ponto em comum entre ator e personagem. Para manter seus 81 kg bem distribuídos em 1,90 m de altura, Rodrigo divide seu tempo entre surfe, natação, vôlei, ciclismo, futebol e “malhação” em academia. Apesar do “investimento”, não se considera um sedutor como Diogo. “Pelo menos não conscientemente”, disfarça, arrematando que é “apenas um admirador das mulheres”, sem fugir ao lugar-comum.
Na verdade, com 27 anos de idade e nove de carreira, Rodrigo já viveu muitos “admiradores de mulheres” na televisão. O primeiro papel relevante foi em 95, como o passional Serginho da novela “Explode Coração”, de Glória Perez. Em 97, emplacou o primeiro protagonista. Na novela “O Amor Está no Ar”, de Alcides Nogueira, viveu um triângulo amoroso com mãe e filha, personagens de Betty Lago e Natália Lage. A fórmula “tudo em família” se repetiria dois anos depois, em “Suave Veneno”, de Aguinaldo Silva - desta vez, com Irene Ravache e Luana Piovani. Mas o ator só se destacou interpretando o jovem frei Malthus - que tentou a todo custo resistir à bela prostituta vivida por Ana Paula Arósio, em “Hilda Furacão”. Na minissérie de Glória Perez, entre uma auto-flagelação e outra, o religioso acaba cedendo aos “apelos da carne”.
Nada santo, porém, foi o último personagem de Rodrigo em novelas, há dois anos. Na pele do “bad boy” Carlos Charles, ele atormentava a virginal Cristal, de Sandy, em “Estrela-Guia”, de Ana Maria Moretzsohn. Em dezembro do ano passado, o ator fez ainda uma participação na microssérie “Pastores da Noite”, adaptada da obra de Jorge Amado. Sob contrato com a Globo, retorna em “Mulheres Apaixonadas” dizendo que sempre quis fazer uma novela de Manoel Carlos. “Estava filmando ‘As Panteras’ quando recebi o convite. Já queria fazer... Mas não sabia se conseguiria voltar ao Brasil a tempo”, esnoba.
Rodrigo afirma que retornar à interpretação naturalista da tevê - principalmente numa obra de Manoel Carlos - é um ótimo exercício de versatilidade. Mas o ator não quer se deixar enganar pela aparente “simplicidade psicológica” de Diogo - muito aquém dos tipos complexos e atormentados que ele viveu ultimamente no cinema. Por isso, afirma que ainda está em processo de composição, conhecendo o personagem a cada capítulo. A maior preocupação do ator é não cair no estereótipo. “Quero fazer um personagem humano, mutante, vivo na tela”, valoriza.
Delírios na película
Até 2001, as incursões de Rodrigo Santoro no cinema foram ligeiras. Em 96, atuou em “Depois do Escuro”, de Dirceu Lustosa. A produção até foi premiada em vários festivais. Mas, sendo um curta-metragem, não teve repercussão. Em 98, Rodrigo apareceu como ele mesmo, numa participação figurativa em “Como Ser Solteiro”, de Rosane Svartman. No ano seguinte, veio o convite para “O Trapalhão e a Luz Azul” em que também pouco aparece.
Os novos ventos chegaram com o personagem Neto, de “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky. O jovem - pego fumando maconha - é internado pelo pai num manicômio. Lá, se depara com os horrores a que os doentes mentais são submetidos. O filme foi inspirado num caso real e rendeu a Rodrigo cinco prêmios, entre eles o da Associação Paulista de Críticos de Arte/APCA. No mesmo ano de 2001, o ator voltou ao “set” para filmar “Abril Despedaçado”, de Walter Salles. No meio do sertão nordestino, Tonio - seu personagem - balança entre a lealdade à família e o desejo de quebrar um ciclo de violência.
Rodrigo ainda pediu a Hector Babenco um papel em “Carandiru”. Faturou um travesti com a alcunha de “Lady Di”. Mas o trabalho que provocou maior burburinho foi uma participação em “As Panteras 2”, de Joseph McGinty Nichol. No papel de um vilão - que nem ele sabe dizer se terá destaque -, Rodrigo contracena com as belas Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu. Jura, porém, não ter qualquer expectativa de se mudar para Hollywood. “É um lugar ‘glamouroso’. Tive uma experiência maravilhosa lá. Mas foi só. Não pertenço a Hollywood”, diz, com um ar entediado de quem está cansado de repetir a mesma ladainha.
Instantâneas
# Rodrigo Junqueira dos Reis Santoro nasceu em 22 de agosto de 1975, em Petrópolis, cidade serrana do Rio de Janeiro.
# Aos 17 anos, Rodrigo entrou para a Oficina de Atores da Globo. O primeiro papel na tevê surgiu ainda em 93. Foi na novela “Olho No Olho”, de Antônio Calmon. No ano seguinte, fez “Pátria Minha”, de Gilberto Braga.
# No teatro, o ator viveu em 98 o personagem-título de “D’Artagnan e os Três Mosqueteiros”. A então namorada Luana Piovani interpretava Milady.
# Rodrigo Santoro foi vaiado antes da sessão de “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodanzky, no Festival de Cinema de Brasília, em 2000. “Depois, vieram me pedir desculpas pelas vaias”, garante.
# O filme “Carandiru”, de Hector Babenco, é baseado no “best-seller” “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varella. Já “Abril Despedaçado”, de Walter Salles, foi inspirado no romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré.
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Mossoró-RN, domingo, 23 de fevereiro de 2003