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OS LIVROS, O LER E O ATO DE ESCREVER

Por:  Maria do Socorro da Silva Lemos.

Sempre gostei de livros. Desse gostar surgiu um amor incondicional e desde então eles estão sempre comigo. Com o tempo fui desvendando-os e eles revelando-me.

Os livros têm entre si inúmeras "árvores genealógicas". Ao ler, percebo que eles fazem parte de uma imensa família que remonta aos tempos ancestrais. Os autores de livros são "parentes" e tradicionalmente uns aprenderam de outros que aprenderam de outros que interpretaram outros e assim vai e chega até mim.

Simples leitor, mesmo assim também faço parte da família dos livros no ramo do ler. O ato de ler (e entender) me humaniza, me integra e também desintegra. Há leituras que me fazem eclodir e outras que me encasulam.

O poder do livro encontra-se no que está escrito e no que foi pensado pelo autor no ato da criação. Quando o leitor se familiariza com uma "família" de escritores, ele sente mergulhar nos textos, contextos e nos não-textos publicados; quer mais e mais esse mergulho e sai à busca de mais livros e leituras para realizar sua catarse.

Numa leitura ativa todos os sentidos do homem estão presentes, tanto assim que é comum, inclusive, sensações sinestésicas durante uma leitura que se deixa absorver e ao mesmo tempo absorve o leitor. É um êxtase!

Toda uma vida ou muitas vidas podem ser vividas e sentidas nas trilhas dos livros e de seus escritos.

Muitas vezes alguns autores, por seus escritos, estão como que linkados a outros e assim a fome de livros e de ler é interminável, como a busca de si mesmo. Afinal, o humano é um não-ser maior que ser e a leitura vai como que o fazendo perceber seus vazios e com o amadurecer como leitor ativo, ele vai se encontrando para em seguida se desencontrar e continuar sua busca auxiliado pelos seus amados livros.

É comum encontrar-se entre leitores contumazes, obras completas de seu autor preferido, bem como daqueles que se lhe assemelham em estilo ou em assuntos recorrentes. Eu, particularmente, amo Albert Camus; seu absurdo, sua revolta, sua estranheza... tudo, tudo. Por amá-lo, busco reencontrá-lo em escritos de Clarice Lispector, Octávio Paz, Lacan e nos de um outro amado: Machado de Assis.

Para ler, muitas vezes me faço acompanhar de outras almas do meu eu, que não são apenas duas, como afirmou Machado de Assis. A idéia de várias almas em um eu advém de filósofos muito antigos lidos por nosso mestre das letras.

Agora que estou pensando em livros (estou?), anseio a companhia de minha alma interior, pois ela pode se intercomunicar com a de autores que leio (e com as dos que ainda não li, mas intuo) e isso talvez me propicie explicitar melhor meus pensamentos e sentires.

Há tantos livros linkando seus escritos em meu pensamento que a tarefa de fazer-me entender parece-me um ato sísifo.

Ler. Ler e buscar o significante do dito e do não-dito é um prazer dorido, mas há prazer dissociado da dor? E sem essa humana dor íntima, pungente, há motivação para se ir à caça do prazer? Penso que não. Ou há?

Os amantes dos livros e do ler estão sempre ao sopé de uma montanha de possibilidades escrevinhadas; estão a todo tempo buscando as árvores (também genealógicas) que frutificam e disseminam os livros, os escritores e o que eles conseguem(?) articular para os escavadores de si mesmos e dos outros, sem os quais seus desejos (in)dizíveis não se realizam.

Quem muito ler, por vezes se sente tentado a escrever.

O ato de escrever. É sempre difícil escrever. O que dizer? Será que sei dizer o que me perpassa o pensamento? Escrever. Escrever exige palavras e elas precisam estar muito bem concatenadas, senão não se expressa o pensar. Mas, será realmente possível escrever o pensar? Às vezes penso que é menos difícil circunscrevê-lo... A palavra verbalizada tem mais "força" mas, paradoxalmente, não se eterniza tanto quanto a palavra escrita.

Penso em Jacques Lacan, mas seu silêncio ético me faz ver que preciso eu mesmo me resolver. O medo aflui...

Medo. Medo da palavra e do que está antes da palavra, no dizer de Lispector. Estou tentando, nesse momento, enfrentar o oráculo da palavra.

As palavras são como que vestimentas do pensamento. Preciso deixar-me desnudar; talvez assim meu pensamento flua, se link a outros congêneres seus e assim eu possa usá-la com menos pudor.

A palavra escrita aparenta ser linear. Ledo engano. Ela diz e nega, induz e deduz, é palavra e "despalavra"; gera textos, contextos, entrelinhas e a sensação de mistério oculto perpassa o sentir de seu artífice.

Qual o porquê do mistério do ato de escrever? Quem souber publique, haja vista o grande número de amantes dos livros e do ler que aspiram entrar na árvore genealógica no ramo dos escritores.

Quanta digressão...  Quanta frustração por não ser alma acompanhante!  Não sei escrever.

Leio, então. Leio como amante e recebo as carícias dos escritos e com elas as da alma de seus escritores e as dos mestres deles.

Espero alcançar e entender de modo vívido o mistério da palavra e sentir suas multifacetas para poder suportar, como Atlas, o peso do mundo. Meu mundo são os livros.

Eu sei, está tudo confuso. Parece uma teia mal-arranjada, mas ao meu sentir e ao meu parco entender, passeio por essa árvore de livros e leituras com um prazer sempre renovado, encontrando outros links e avolumando meu poço em busca do humano que há em mim e no outro que também sou eu.   

Receber de um amigo a indicação ou o presente de um livro é orgástico, posto que é a consumação de um desejo que arde, que queima, mas que dá nova dimensão ao existir e me incita a continuar na trilha traçada por mim mesmo para construir meu lugar no mundo.

SOBRE O AUTOR: É graduando em psicologia pela Uniban-SP, membro do Subjectum - Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Linguagem e Constituição do Sujeito. sidney@subjectum.com

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