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A igreja
LÍRIA NOGUEIRA ALVINO
Escritora
– antonialiria@uol.com.br
No exato instante em que botei os pés naquele templo, meu lado pureza se levantou e foi embora. Há tempos vinha ali, regularmente aos domingos, mas as últimas semanas tinham sido diferentes.
Os grandes bancos de madeira, lustrados pelos vestidos das beatas, lustrados com suas ancas de santa, lustrados pelo vai-e-vem de pernas, sorri. Onde se menos deveria pecar é onde mora toda minha perdição.
Corri os olhos pelos vitrais e eles em harmonia refletiram a luz do sol em pedacinhos coloridos. Eu estava pronta, o desejo podia, enfim, me levar.
Eu sempre conhecera Oduvaldo, mas hoje ele estava com um cheiro que me chamou a atenção. Sentou-se bem do meu lado no segundo banco à esquerda, na fila do centro, de onde víamos todo mundo e de onde todos nos víamos. Tudo cheirava a inocência. O lugar, a hora - oito da manhã, o celebrante, as crianças, o terço, a encenação.
Sentou-se e, displicentemente, eu creio, seu joelho esquerdo tocou minha perna direita. Pelo toque, nada demais. O movimento é que me chamou a atenção, estartou meu olhar e discretamente baixei meus olhos. E vi suas pernas cobertas pela calça jeans. Não sei porque subi a vista e, tão rapidamente quanto olhei desviei meus olhos, não sem antes sorrir amarelo como que dizendo, "desculpe, tá?"
Passei a semana inteira torcendo para que ele novamente esteja lá, hoje. Domingo é dia de futebol, mas quem sabe? Minha filha estranhou um pouco eu ter me arrumado tanto para ir à missa, mas isso não vai dar em nada mesmo, não há mal em fantasiar.
Uma mulher com quarenta e cinco anos não é uma mulher morta. Porque todo mundo acha que tenho que me comportar como uma avó? Minha mente é jovem, meu corpo é jovem, posso ser desejada como qualquer mulher de vinte... não posso? Por favor, não responda, já. Pense melhor para que partilhe de minha compreensão. Ai, meu Deus! Ele chegou! Está conversando com Aparecida de Tinoco, hum-hum, parou, está olhando de lado, me procurando talvez, hum-hum... Está vindo em minha direção... Nem consigo respirar, me sinto como uma menina de quinze anos!
- Todo mundo de pé, em nome do Pai...
(Eu não consigo ficar de pé...)
- Em nome do Filho...
Estou começando a ficar zonza. O que é isso? Ele está tocando a minha mão? É um bilhete!
Em tanto tempo de casada nunca havia pensado em trair meu marido, e nem agora também. Foi a ocasião, a situação, a oportunidade, por algum motivo queria me sentir viva de novo, capaz. E infelizmente isso veio atrelado ao encontro com Oduvaldo. O bilhete dizia: "Cara Ana, precisamos falar. Estarei às 14h na sacristia." E eu, sendo cheia de chatices e surpresas segui o rumo do inusitado. Em casa perguntaram o que eu faria aquela hora se não iria para missa, reunião, respondi, e como já não nos importávamos tanto com o destino um do outro, fui. Com o consentimento do esposo, diga-se.
Na sacristia não nos falamos, Oduvaldo e eu. Só nos olhamos com inevitável desejo nos olhos. Decidimos, assim, sem palavras, sairmos dali e seguirmos para o pátio nos colocando de banda, quase distantes. Pensei se ele não estava em igual condição à minha: casado há anos e sem muita novidade.
De frente para a sala de promessas, no pátio, toquei a mão dele e abruptamente, de sua mão saíram correntes elétricas fortíssimas, acendendo em mim o que estava há muito adormecido.
- Não sei se posso... - Ainda consegui balbuciar.
- Eu, sei, nós não podemos. - Foi o que ele ainda respondeu.
(Continua no próximo domingo).
Jefersonmania
Pablo Capistrano
Escritor, professor de Filosofia - pcapistrano@hotmail.com
Uns três conhecidos já me pararam na rua e perguntaram: "E aí? Assistiu a entrevista do Roberto Jéferson no Roda Viva?". De uma hora para outra, o obscuro deputado governista, tornou-se uma espécie de celebridade nacional. Poucas vezes eu vi tanta gente ligada na TV Câmara (a dos deputados) como no dia do depoimento do Jéferson na Comissão de Ética. Todo mundo diz: "ele tem 200 júris! 200 júris!". Um homem de mídia, sem sombra de dúvida e um sujeito que sabe puxar os holofotes para si como poucos. Ponto para ele.
Mas, na verdade, o que parece fazer a consciência nacional ter orgasmos múltiplos diante da TV quando o cantor de opera fala é o fato simples que ele parece quebrar o código de silêncio do parlamento brasileiro. Mas não acredite que essa é uma escolha moral de um cidadão indignado, amigo leitor, essa é uma estratégia política do Johnie Jerferson no seu duelo contra o Kid Dirceu. Lembro da cena final do Clássico do filme O Bom, O Mal e o Feio. Um típico confronto de farwestern no qual o único objetivo é a sobrevivência numa terra devastada e vazia.
Para que serve o Estado e seus poderes? Uma leitura convencional e ingênua, hegeliana em excesso, vai afirmar que o Estado, como corpo político que se posiciona acima do interesse das classes, deve servir para promover o bem comum dos cidadãos, efetivar a legalidade institucional e mediar os conflitos de poder que surgem no corpo da sociedade civil. Esse é o discurso padrão que sai da boca da elite brasileira. Mas o povo, coitado, essa massa amorfa de perplexos, sente que o Estado não corresponde a esse discurso sanitário e impessoal. O esquema sempre foi, no Brasil, o seguinte: algum grupo da elite econômica financia algum grupo político que, por sua vez, financia o povo na época das eleições. Então, depois da posse, o grupo político vitorioso operacionaliza os três poderes para pagar (com licitações ou projetos de lei) sua dívida. Então o Estado vai caminhando, servindo, sem muito pudor aos interesses daqueles que financiam seus dirigentes. Mas o discurso oficial precisa ser mantido. Os empresários são homens de negócios, empreendedores bem intencionados oprimidos pela carga tributária, que não se interessam por política, os funcionários públicos são servidores técnicos especializados na burocracia estatal, os partidos são órgãos representativos da vontade popular, os juízes são operadores imparciais do direito que aplicam a lei e a branca de neve mora com os sete anões, depois de ter fugido da perseguição de uma madastra má e invejosa que não suporta a beleza da menina.
Tem gente no Brasil que acredita nessas verdades e tem gente que finge que acredita. Jéferson sempre esteve no segundo time e sempre foi um grande operador dessas mitologias políticas. Mas, como a verdade é mesmo uma velha dama vagabunda, que presta seu serviço sem discriminação partidária, ele está abrindo o jogo e falando óbvio. Sua estratégia deve ser a de ACM, renunciar antes da cassação e voltar ovacionado no ano que vem para o congresso, continuar a longa ladainha que vem amaciando a consciência nacional a uns 500 anos.
De certa maneira o sonho do brasileiro não parece ser o de reformular o Estado, ou mesmo de destrui-lo, mas o de participar da festa. Basta ver os cursinhos preparatórios para concurso público cheios e a luta selvagem e incessante das eleições. De vez em quando eu me sinto realmente ridículo quando falo essas coisas, mas acho que o Jéferson, no íntimo de sua personalidade operística, também deve ter seus momentos de reflexão. O consolo é ler Nelson Rodrigues e deliciar-se com a sua frase basilar que sintetiza, como poucas frases, a consciência nacional: "só os imbecis não são ridículos".
A vitória da humildade
GILSON CARDOSO
Radialista
Márcio Mossoró. Já ouviu falar neste nome? Claro que sim. Nos últimos dias é só no que a mídia esportiva fala. Um jovem de família humilde que aos 16 anos deixou sua terra (não precisa nem dizer qual é) em busca de uma oportunidade no que ele mais sabe fazer: jogar futebol. Hoje, campeão da Copa do Brasil, é 'assediado'pelos grandes clubes do país e até do exterior que vêem no seu potencial uma grande promessa para o esporte mais popular do mundo, tem por aqui uma grande legião de fãs, fruto do seu talento e principalmente da sua humildade.
Tudo aconteceu tão rápido na vida de Márcio que ele atribui as bênçãos de Deus. Evangélico e dedicado ao que faz, Mossoró (vamos chamá-lo assim, porque é assim que ele gosta que o chamem) enche de orgulho uma cidade que não o viu jogar nos times profissionais locais. Mas nos bairros periféricos, os que o viam já imaginavam que ele, tendo a oportunidade como teve, dificilmente não se tornaria um dos "medalhões" do futebol mundial.
Nós, mossoroenses, jamais vamos esquecer a Copa do Brasil deste ano. O Baraúnas, um dos representantes do RN na competição, ao lado do Potiguar, que infelizmente fracassou na primeira partida, fez a cidade ser manchete na chamada grande imprensa do país com a sua surpreendente campanha. Cícero Ramalho chegou a ser comparado, por conta da sua idade, e talento, a Romário. E foi chamado de Cícero " Romário". Nunca um time do RN ocupou tanto espaço na imprensa do país.
Passado todo o momento de glória do tricolor do bairro Doze Anos, e encerrando com aquelas fatídicas partidas com o Cruzeiro de BH (não gosto nem de lembrar), eis que aparece na mesma competição um nome que não iria deixar que a nossa cidade ficasse sem ser notícia na grande mídia; Márcio Mossoró, 21 anos, começava a despertar o interesse de todos com as suas jogadas fantásticas, mostrando que a história da nossa cidade não se encerrava com a eliminação do Baraúnas do certame. O que ocorreu é que Márcio, Mossoró, o Paulista de Jundiaí, enfim... Todos nós fomos campeões.
O que mais faz com que todos torçam pelo Márcio é a sua humildade. Sempre ajudou a sua família, e agora vai poder fazer isso ainda mais. Em conversa conosco no rádio, disse que pretende ajudar a garotos humildes da nossa cidade, como ele, a ter também uma chance de mostrar seu talento lá fora. O fato de dizer publicamente que gostaria de ser chamado de Márcio Mossoró, fez do jogador ser, no momento, a figura mais querida do município. Há quem diga que Márcio Mossoró e o Baraúnas divulgaram a cidade muito mais que certas datas que comemoramos e eventos locais.
Em agosto o nosso ídolo vem à sua terra, por aqui deverá ter uma recepção daquelas, tanto por parte de familiares, como de amigos e admiradores em geral. Aqui vai se casar, depois tocar a sua vida adiante e prosseguir na sua trajetória vitoriosa. Que este rapaz sirva de exemplo para garotos que pensam em vencer na vida, seja através do esporte ou em outro meio, mas que carregue no peito a marca da humildade, pois sem ela, as vitórias vêm, e quando menos se espera, vão, nos deixando na amargura profunda. Sejamos sempre humildes, para que possamos ser abençoados em nossas vidas.
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Mossoró-RN, de 2005