Batendo a cabeça

Esta semana eu voltei à vida após um mês corrigindo artigos de meus alunos da faculdade. Foram aproximadamente 250 artigos. O problema é que eu leio todos e minha vida fica quase suspensa por um mês. Você pode pensar: "esse cara é louco! Por que ele não faz uma provinha básica de marcar X?". Bem, pode ser loucura, mas eu tenho razões ideológicas para não fazer "provinhas de marcar X". Também, por incrível que possa parecer, acho até divertido corrigir artigos. Qual é o problema? Tem gente que se diverte batendo a cabeça num prego.  Mas o que me chama mais atenção é a angústia dos alunos quando o tópico é escrever. Está certo que escrever artigos acadêmicos não é lá algo muito agradável. A linguagem é técnica e formalizada ao extremo e as horríveis regras da ABNT são sempre um suplício para quem gosta de produzir textos. Mas o fato é que seu eu pedisse para que meus alunos fizessem contos, crônicas ou poemas talvez a angústia fosse a mesma.

Muitas vezes eles dizem: professor, eu sei o assunto, mas não consigo colocar nada no papel". Então a INTERNET com seus sites de clonagem estilo www.zemoleza.com.br aparecem como um analgésico poderoso para as dores da linguagem. Não culpo meus alunos. Eles são vítimas do sistema educacional brasileiro. Uma das ficções mais escrotas que a educação brasileira criou nesses tempos é a de que alguém pode aprender a escrever assistindo aulas de português. Esse é um equívoco fundamental sobre o andamento do processo de aprendizagem de uma linguagem. Ninguém aprende a escrever conhecendo gramática. Saber as regras de ortografia, a construção sintática das frases e as regências verbais não é indício de que alguém domina a arte de escrever. Se assim fosse, o professor Pasquali e não José Saramago, teria ganho o prêmio Nobel de Literatura. Colocada num canto escuro e desconfortável da grade curricular de nossas escolas lá se encontra ela, a literatura. Vista como um apêndice da prova de português no vestibular a literatura é relegada de modo imoral e descortês ao status de uma disciplina menor. Os alunos acabam conhecendo a literatura através de resumos e de aulas expositivas sobre os conteúdos dos livros, sobre a vida dos autores e as escolas estéticas. Mas quando o negócio é diminuir a carga horária das aulas de Física para que a rapaziada leia e produza textos em sala de aula o sinal fica vermelho.

Ninguém escreve sem ler. Uma coisa está ligada a outra. Ninguém aprende uma linguagem. A linguagem é uma prática e não um conteúdo. Wittgenstein, no seu livro Tractatus Lógico Philosophicus escreve: "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo" (tem uma outra tradução interessante:

"As fronteiras de minha língua são as fronteiras do meu mundo"). Diante disso temos uma compreensão fundamental da importância da linguagem no jogo de significação da vida. O meu mundo vai até onde a minha língua permite, ou, os limites de meu mundo ganham significado quando eu consigo compreender os limites da minha linguagem. Se eu não consigo escrever algo, se eu não consigo pôr de modo claro um pensamento travestido em fala, eu não compreendo o pensamento que tenho. Deixo de ser um sujeito ativo, que leva o pensamento para onde eu quero, e passo a ser alguém guiado pelo meu pensamento. Vítima das imagens mentais que faço. Refém de meus próprios limites, cercado pela incapacidade de articular em palavras aquilo que sinto. Alienado de minha própria língua eu passo a ser um instrumento. Uma marionete das palavras que uso. Nessa cela de vazios semânticos e sintáticos só se tem duas saídas: ou se bate com a cabeça nas grades ou se escapa pelas frestas. E não há melhor instrumento para ampliar as frestas de nossa linguagem do que a literatura. O resto cheira muito a estelionato pedagógico. Mas de estelionato e "provinhas de marcar X" o Brasil está cheio, não é mesmo?

 

 

PABLO CAPISTRANO 
EMAIL: pcapistrano@hotmail.com

Escritor, professor de filosofia

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