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Estados Unidos planejam guerra contra o Iraque em três fases, dizem especialistas
Por ANDRÉ ORTEGA
A guerra que os Estados Unidos planejam contra o Iraque poderá se desenvolver em três fases, segundo especialistas militares americanos. Em meados de fevereiro já haverá 140 mil soldados dos Estados Unidos na região – além dos aliados –, um terço da mobilização da guerra de 1991. Para enfrentá-los, o Iraque conta com 3 milhões de soldados, mas na realidade apenas 400 mil para as operações. Da Guarda Republicana, os Estados Unidos calculam que somente os 15 mil “guardas especiais” treinados e doutrinados representem um problema real, juntamente com possíveis suicidas. É o que um general americano descreveu como “a guerra de uma serpente contra um escorpião”.
O Iraque tem 2 mil carros de combate, 2 mil peças de artilharia, 150 aviões de combate, embora seja preciso descontar sempre cerca de 20% que estão fora de atividade, contra cinco a dez vezes mais dos Estados Unidos, que têm uma clara superioridade aérea. Militares americanos pensam que esta será uma guerra curta: seis ou sete dias de bombardeios, de uma semana a dez dias para alcançar Bagdá por terra, e ali uma batalha que poderá durar até duas semanas.
Em todo esse período o ataque tentará não apenas avançar e destruir as posições militares iraquianas, como também quebrar sua vontade de resistência. A premissa é que Saddam Hussein não pode organizar um plano de resistência nacional e tentará uma “defesa em profundidade”, com o centro de gravidade em Bagdá, e uma tática convencional parecida com a soviética nos anos 80. As fontes consultadas não explicam as possíveis “surpresas” que o comando americano planeja. A ofensiva virá principalmente do mar e das bases no Kuwait, no Afeganistão, outros países da região e Turquia. Um problema são as distâncias: mil quilômetros do norte ao sul do Iraque.
Os Estados Unidos temem que o Iraque chegue a usar armas químicas e biológicas. Seus soldados estão preparados, mas não dispõem de meios para proteger a população civil iraquiana, que também sofreria baixas nessa eventualidade. Um objetivo da campanha é capturar as armas de destruição maciça o quanto antes para impedir sua utilização e exibi-las como prova “a posteriori”, mesmo que se demore a encontrá-las. Sua localização exigirá informações, obtidas, por exemplo, de crianças que tenham visto movimentos estranhos, em troca de chicletes ou chocolates. Para alguns especialistas, essas armas podem já estar na Síria, em cujo caso os Estados Unidos poderiam usar a força contra esse país.
A guerra em três fases
FASE PRÉVIA
Já começou, com a entrada de comandos americanos e britânicos pelo norte e pelo sul, para preparar o terreno e os bombardeios. Um de seus objetivos seria capturar os mísseis Scud que ameaçam Israel, antes que o Iraque possa usá-los. Os Estados Unidos querem evitar que Israel seja envolvido, pois dinamizaria ainda mais o mundo árabe e muçulmano contra o país. Já sabem como o Iraque usou esses mísseis em 1991 e como neutralizá-los. Em segundo lugar os comandos já entraram no Curdistão iraquiano, não apenas para preparar a abertura de uma frente norte, como também para controlar os curdos da região e as forças especiais turcas que podem já ter entrado na zona para evitar – compromisso assumido com a Turquia – o surgimento de um Estado curdo. Voluntários curdos já estão sendo treinados na Hungria. Os comandos também servirão para dirigir o bombardeio. Finalmente, prepara-se a ocupação mais rápida possível dos campos de petróleo no norte (já controlados pelos curdos), no leste e no sul. Em 1991, Saddam Hussein tentou destruir os poços, com sucesso parcial, pois é necessário introduzir cargas à grande profundidade.
Primeira fase: bombardeios
O primeiro passo será estabelecer o domínio do espaço aéreo e o controle das comunicações pelos Estados Unidos. Não se esperam grandes dificuldades, especialmente porque durante anos os Estados Unidos e o Reino Unido impuseram duas zonas de exclusão aérea, onde os ataques contra radares e baterias antiaéreas foram reforçados nas últimas semanas. A ofensiva começaria com o lançamento de bombas de precisão, mísseis de cruzeiro e outros, com aviões B-52, F-117 e outros, e com helicópteros. Não se pretende bombardear Bagdá maciçamente. O objetivo não é destruir a infra-estrutura iraquiana (que os Estados Unidos querem conservar o mais intacta possível para o “dia seguinte”), e sim as forças, especialmente no sul, próximas de Basora e Al Hillah, onde os iraquianos podem concentrar suas forças para evitar o cruzamento dos rios, e no norte.
Nas duas primeiras jornadas os bombardeios seriam noturnos, dada a vantagem tecnológica dos Estados Unidos. Durante o dia se analisariam os danos causados. A partir do terceiro dia os bombardeios seriam constantes. Talvez então já se possa enviar algumas unidades de pára-quedistas para capturar aeroportos. Pretende-se que essa fase seja o mais breve possível, de cinco a seis dias, pois quanto mais se prolongar mais forças serão destruídas, mas também será maior a possibilidade de algo sair errado.
Segunda fase: ofensiva por terra
Os terrenos são muito diferentes. No norte, montanhoso; no sul e oeste, deserto aberto. A ofensiva por terra se daria em várias frentes. Os fuzileiros navais tentariam dominar Basora o quanto antes. A ocupação do sul de forma rápida abre caminho para Bagdá e permite controlar os xiitas para evitar rebeliões. Depois outra coluna tentaria chegar a Al Hillah e atravessar o Eufrates. E do norte desceria outra. Mas a maior ofensiva é a que partiria da fronteira com o Kuwait.
Para os planejadores americanos, o maior problema é logístico, pois a ofensiva por terra exigirá o deslocamento de 30 mil a 40 mil veículos ao mesmo tempo. Cada unidade blindada será composta de 300 carros de combate, mais 300 blindados, 200 peças de artilharia e 40 caminhões de combustível, que precisam ficar indo e vindo. Tudo a cerca de 20 a 30 quilômetros por hora. Os carros de combate precisam de aproximadamente 500 litros de diesel a cada seis horas. Além disso, as tripulações dos carros precisarão de algumas horas de descanso depois das primeiras 36 a 48 horas – pois é difícil dormir nesses veículos em movimento – antes de entrar em combate, se houver. Em 1991 houve uma grande batalha de tanques que as televisões não puderam mostrar. O Iraque disparava a 500 metros de distância, os Estados Unidos enxergavam com precisão o inimigo a 200 metros. Os Estados Unidos perderam alguns tanques, nenhum por fogo inimigo, mas pelos próprios erros.
Essa fase poderia durar mais sete ou oito dias. Se no caminho para a capital as forças americanas encontrarem praças de resistência, as evitarão, deixando-as para os reforços que vierem depois.
Terceira fase: A batalha de Bagdá
A batalha de Bagdá, segundo essa visão, poderia durar de duas a três semanas, conforme a resistência encontrada. Supõe-se que ali estarão abrigadas as melhores tropas de Saddam Hussein. Os Estados Unidos não querem um Stalingrado em Bagdá. A idéia não é sitiar a cidade, mas desmoralizar as forças iraquianas para que se rendam aos poucos. A guerra urbana apresenta muitos problemas. A tecnologia é menos eficaz, mas também foi desenvolvida. A estratégia, chegando a esse ponto, seria capturar casas, ruas e bairros para obrigar as forças iraquianas a se dividir, isolando-as por setores e cortando as comunicações entre elas, na esperança de forçar sua rendição.
O pós-guerra desde o início
O pós-guerra já começou – o controle dos curdos é um exemplo – e deverá ser construído desde o primeiro dia de guerra. Na medida em que forem conquistando terreno, as forças de ocupação deverão implantar sua polícia, saúde, distribuição de alimentos para a população, em suma, montar uma nova administração na medida em que avançar, pois a anterior estará em ruínas (salvo a curda, que já existe no norte). A população iraquiana sofrerá muito, mas os Estados Unidos já estão preparando medidas humanitárias e espera a colaboração de ONGs. As forças terão que se encarregar dos soldados inimigos que fizerem prisioneiros ou que se renderem. A administração ficaria a cargo de um general americano que saiba falar árabe.
As forças dos Estados Unidos também terão de se ocupar dos meios de comunicação que as acompanharem e equipá-los contra possíveis ataques químicos e biológicos. Novamente, como em 1991, pode ser uma guerra sem imagens das batalhas, exceto, se for o caso, de Bagdá e dos bombardeios.
Diante desse cenário, convém lembrar o aviso de Winston Churchill: “Nunca, nunca se deve crer que uma guerra será suave e fácil, ou que qualquer um que embarque nessa estranha viagem consiga prever as marés e os furacões que poderá encontrar”.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
TEXTO EXTRAÍDO DO JORNAL EL PAÍS
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Mossoró-RN, domingo, 2 de fevereiro de 2003