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Paulo Locatelli

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Grace, uma robô que é modelo,
atriz e dá palestras

Não é fácil ser um robô sociável. Primeiro tem que se ter uma certa história, procedência, quase que como uma espécie de nobreza. Além do mais, é preciso conciliar diversos eventos em uma agenda sempre lotada. Essa é a vida de Grace, descendente direta de Vikia, a garota-robô que vai à escola. Grace, além de ir à escola, é conferencista, atriz e modelo.

Grace é uma robô social, nome que pesquisadores em robótica da Carnegie Mellon University dão a robôs criados para interagir com humanos. Além de ter um rosto e uma história, os robôs conversam com humanos e realizam ações cotidianas como comprar café e ir à escola. Xavier e Amelia foram os primeiros robôs sociais. Os dois são pai e mãe de Vikia, robô feita para freqüentar os corredores da Carnegie Mellon e conversar com os alunos.

A nova versão de Vikia é Grace. Grace foi muito além dos corredores da CMU. Participou da AAAI 2002, uma conferência sobre Inteligência Artificial no Canadá. Além da CMU, diversas outras universidades e empresas contribuíram para o projeto de Grace.

A participação de Grace na conferência foi bem entusiasmada. Chovia quando ela chegou no prédio do evento. Grace entrou sozinha, conversou com um voluntário do projeto pedindo orientações sobre onde pegar seu crachá. Andou através da multidão e enxergou através de uma webcam uma grande placa rosa onde se lia robôs. Ela seguiu até o balcão com a tal placa e identificou a fila para o cadastro de robôs.

Na atitude que seria, de acordo com os pesquisadores, “a mais humana de todas”, Grace ignorou uma humana que estava na fila do balcão de robôs e tomou sua frente. Quando chegou sua vez no balcão, pediu sua bolsa, crachá e indicações para a sala onde daria uma conferência. Grace atravessou novamente a multidão de conferencistas curiosos com sua chegada e foi até a sala onde daria uma palestra. Ela falou com um auditório quase lotado. Como boa atriz, Grace encantou os humanos sem mostrar nenhum traço de cansaço.

No final da AAAI 2002, chegou a vez de Grace mostrar seu lado Gisele Bündchen. Grace e outros robôs desfilaram para os organizadores do evento. Mais alta e sorridente, Grace usou as expressões faciais mais simpáticas de seu rosto em um monitor LCD para impressionar os organizadores.

Grace ainda precisa, no entanto, ser aprimorada. “Estamos tentando fazer com que ela leia crachás e interaja com as pessoas com que conversa chamando-as pelo primeiro nome”, afirma Reid Simmon, pesquisador da CMU que inventou a interface de Grace. “Também tentaremos fazer a palestra bem mais interessante, fazendo Grace responder a perguntas que ela mesmo criará”, afirma Simmons.

As melhorias de Grace serão vistas em agosto de 2003. Ela viajará para Acapulco, México, onde participará da IJCAI – International Joint Conference on Artificial Intelligence.

Tecnologia que permite projetar
bebês gera polêmica

A perspectiva de uma sociedade em que os pais possam “desenhar” seus bebês gera preocupação. As empresas de biotecnologia estão interessadas nesse novo mercado.

A clonagem humana significa uma violação dos direitos humanos e a engenharia genética, aplicada às técnicas de reprodução, pode levar à uma sociedade eugênica no futuro. Essas foram as principais linhas da oficina “A política global da nova tecnologia genética e reprodutiva”, promovida por entidades de defesa da mulher do Brasil e dos Estados Unidos, no III Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre.

De acordo com as palestrantes, as novas tecnologias de reprodução assistida, somadas à biotecnologia, que pretende “projetar bebês”, podem aprofundar e naturalizar as diferenças entre as populações ricas e pobres.

“Em um mundo racista, sabemos como vão ser os novos seres melhorados”, afirma Jurema Werneck, diretora da ONG Criola. Ela descreve um futuro em que a engenharia genética poderá criar bebês de acordo com o desejo dos pais e ressaltou os perigos dessa perspectiva. Werneck afirma que cientistas dos EUA e da Europa já vêm propondo a criação de novos seres.

A coordenadora da ONG Ser Mulher, Alejandra Ana Rotania, procura desfazer o mito, propagado pelos meios de comunicação, de que a liberalização da clonagem é um exercício da liberdade humana. “Ao popularizar o assunto, a mídia vêm retirando dele a perspectiva crítica”, disse. Para ela, os cientistas também contribuem com essa confusão ao ressaltarem apenas os pontos positivos da tecnologia. “Será que essas tecnologias, que têm um alto custo, poderão estar à disposição também das populações pobres?”, perguntou.

“Precisamos de uma lei internacional que regule a clonagem, para evitar o surgimento de paraísos genéticos”, preocupa-se Rosario Isasi, pesquisadora da Universidade de Toronto, Canadá. Se não for criada essa regulação, as pessoas que desejam utilizar a técnica simplesmente viajarão a outros países.

A historiadora Marsha Darling, da Universidade de Adelphi (EUA) liga a engenharia genética aplicada a clonagem às leis de propriedade intelectual e à biopirataria. Segundo ela, material genético retirado de populações indígenas naturalmente resistentes a certas doenças poderia se tornar uma mercadoria patenteável aplicada ao “desenho de bebês melhorados”. Ela afirma que o combate às leis de propriedade intelectual deveria unir os movimentos feminista (afetado pela clonagem), camponês (afetado pelos transgênicos) e indígena (que têm seu conhecimento e material genético ilegalmente apropriado).

Marcy Darnovsky, do Centro de Genética e Sociedade, afirma que ainda não há uma posição sobre a clonagem terapêutica. Segundo ela, os cientistas prometem muitos benefícios com essa técnica, mas ainda não fizeram nenhuma demonstração concreta. A clonagem terapêutica é uma técnica que pretende desenvolver órgãos humanos, que poderiam ser repostos em caso de doença, a partir da clonagem de embriões.

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Mossoró-RN, domingo, 2 de fevereiro de 2003