Morcegos leva para a avenida o império das areias brancas 

LUCIANO OLIVEIRA
Editoria do Regional
regional@omossoroense.com.br

AREIA BRANCA – Hoje, às 17h, as duas principais escolas de samba de Areia Branca, Morcegos e Gavião Imperial, estarão colorindo as ruas da cidade com seus desfiles impecáveis. O evento é uma tradição do carnaval areia-branquense e se constitui num dos momentos mais esperados pelos visitantes.

Mesmo o palco da folia tendo sido transferido do Cais Tertuliano Fernandes para o largo da rua Jorge Caminha, a mudança não alterou o cronograma do desfile das escolas de samba. As duas agremiações cumprirão o mesmo trajeto do ano passado, saindo do cruzamento da Travessa dos Calafates com a Francisco Ferreira Souto, passando pela Coronel Liberalino, Coronel Fausto e dispersando na avenida Deputado Manoel Avelino.

“A natureza e as diversões populares no império das areias brancas” é o tema do carnaval de uma das mais tradicionais escolas de samba de Areia Branca, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Morcegos. Tudo começou há 23 anos, quando numa tarde de domingo um grupo de amigos saiu pelas ruas da cidade vestindo camisas feitas de sacos de farinha de trigo e arranhando alguns instrumentos. Era o dia 17 de fevereiro de 1980 e ficou marcado como um carnaval inesquecível.

De lá para cá a escola não parou de crescer e hoje comporta quase 400 componentes. Este ano a Morcegos presta uma homenagem ao próprio município, levando à avenida os encantos naturais e a arte popular desta terra e da sua gente. O carnavalesco Francisco Ronildo dos Santos, autor do samba-enredo da escola deste ano, disse ter se inspirado nas belezas naturais e nas crendices populares.   

A denominação de Morcegos para a escola de samba tem uma explicação lógica. No cruzamento das ruas Mestre Silvério Barreto com a avenida Deputado Manoel Avelino há um prédio de estruturas antigas, onde no passado funcionou a Loja Maçônica. A calçada do imóvel servia de ponto de encontro noturno da turma de amigos para falar sobre futebol, mulheres e, principalmente, bebericar para passar o tempo. Num desses encontros alguém sugeriu que o grupo formasse um bloco para brincar o carnaval de rua. O entrave era a falta de dinheiro dos futuros componentes do bloco, pois estavam sempre na pindaíba. Foi quando um deles bateu o martelo: vamos sair vestidos de camisas de saco! Deu certo. Mas faltava o nome do futuro bloco. A inspiração veio de imediato. No local existiam muitos morcegos e observando seus vôos rasantes, batizaram o bloco de Turma dos Morcegos. A partir daquele dia estava plantada a semente e mais tarde nascia a Escola de Samba Morcegos.

PREFERÊNCIA – Ao longo da sua trajetória a Morcegos tem colecionado elogios. Seus desfiles são impecáveis, razão pela qual a escola é uma das preferidas dos areia-branquenses e foliões vindos de outras cidades.

Abrindo o desfile da Morcegos neste domingo, a comissão de frente vem caracterizada da Guarda Imperial dos Cavalos Marinhos que fazem o cortejo da sereia, que com seus encantos seduz e arrasta para o fundo do mar o pescador que ouvir o seu canto irresistível. Em seguida vem o carro abre-alas, com o tradicional morcego gigante que simboliza a escola. A ala das crianças resgata uma dança tradicional na cidade, o “coco de zambê”. Na ala dos estandartes destaque para o fandango, uma dança típica dos vaposeiros. A ala dos adolescentes homenageia as colhedeiras de coco.

O segundo carro da escola (natureza reluz) apresenta toda a exuberância do império das areias brancas, suas praias, o sal, dunas, entre outros aspectos que emolduram este paraíso tropical. Em seguida vem a ala das passistas (o sal); mestre-sala e porta-bandeira (os mariscos da praia de Upanema); 3o carro (as lendas, histórias populares ligadas aos pescadores); ala das baianas (resgatando os antigos pastoris); ala da comunidade (bloco da saudade); 4o carro (a coroa do império das areias brancas); ala da diretoria (congos de saiotes); ala da bateria (rio Ivipanim).

Gavião Imperial homenageia o folclorista Deífilo Gurgel

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Gavião Imperial foi fundado em 23 de janeiro de 1984, quando os componentes do bloco “Os Gatões” resolveram se unir aos do bloco “Unidos da Plebe” e formar uma escola de samba. A turma se reunia na esquina da rua Duque de Caxias com a Travessa dos Calafates. Até 1997 a escola era chamada de Gaviões da Medeiros.

Nos primeiros carnavais a escola era puxada por sambas antigos conhecidos dos foliões. Em 97 foi cantado o primeiro samba-enredo e a escola passou por inúmeras transformações, inclusive a mudança de nome para Gavião Imperial.

Este ano o carnavalesco Sérvulo Caetano resolveu homenagear um dos maiores historiadores e folcloristas do Brasil, o areia-branquense Deífilo Gurgel, que reside em Natal.

O enredo “Um folclorista no Tempo e no Espaço do Samba”, conta a trajetória de Deífilo Gurgel pelos caminhos do folclore e da literatura. Poeta na adolescência, descobriu o folclore aos 40 anos e passou a dedicar-se intensamente à pesquisa sobre os autos folclóricos e demais manifestações populares, indo garimpar informações de porta em porta, de boca em boca, nos cantos mais remotos do Rio Grande do Norte. É considerado o segundo mestre do folclore norte-rio-grandense, depois de Luís da Câmara Cascudo. Sua obra se aprofunda nas raízes da cultura do povo e trata com especial atenção o que o autor vivenciou em sua infância em Areia Branca.

Tudo que foi catalogado como “do folclore potiguar” nos livros de Deífilo é parte do enredo da escola, principalmente as danças folclóricas, com destaque para o fandango, a chegança, o boi calemba, os congos, o pastoril, a lapinha, os caboclinhos, o coco, o bambelô, o maneiro-pau, as quadrilhas juninas, entre outras.

O desfile da Gavião Imperial destaca ainda os usos e costumes, superstições, adivinhas, provérbios, linguagem popular, fórmulas de fiado, conto popular, romanceiro, cordel, viola, teatro de mamulengo (João Redondo), jogos (vaquejada, cavalhada), artesanato, cantigas de roda, artistas populares (cantadores, repentistas, emboladores), rendeiras, santeiros e todo o universo do folclore do Rio Grande do Norte.

Toda a riqueza das manifestações populares virá traduzida nas cores, na alegria e no ritmo alucinante que a escola mostrará no carnaval deste ano.

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Mossoró-RN, domingo, 2 de março de 2003