CHARLES M. PHELAN
ATUALIZAÇÕES AOS DOMINGOS 

No espaço de um olhar

Miríades de nacionalidades, religiões, idiomas, movimentam os GATES do romântico aeroporto John F. Kennedy em Nova York. Foi exatamente em um Snack Bar, entre um desses Gates, horas antes do meu embarque para o Brasil, onde eu me deleitava no aroma de uma taça de vinho tinto sobre o balcão à minha frente, que tudo aconteceu. No bar, uma penumbra era sustentada por filamentos futuristas em néon. As logomarcas das diversas cervejas adicionavam um colorido especial ao lugar. O bar localizava-se estrategicamente de frente à pista de pouso. Fileiras de pontos luminosos, que orientavam os pilotos, quebravam a monotonia da escuridão do lado de fora.   

Observei os aviões pousarem e decolarem, por trás de uma vidraça imensa, do meu assento junto ao bar. Confesso que havia um ar romântico que pairava sobre aquele cenário. Um romantismo só existente em Nova York. Mulheres lindas iam e viam. Bem vestidas, esbanjavam elegância, com as mais diversas roupas para o inverno nova-iorquino. Loiras, ruivas, negras e orientais. Mulheres de todos os tipos. Confesso que prestei atenção às mais atraentes.  

Acompanhado apenas pela minha taça de vinho e uma mochila, pus-me a pensar sobre como seria a vida de algumas delas. Onde moravam? Para onde iam? Solteiras ou casadas? Com quem moravam? E alguns outros pensamentos que fizeram minha alma ficar vermelha de vergonha. Um daqueles momentos em que a mente tem personalidade distinta do seu eu, e pensa o que bem quer. Onde o verdadeiro você passa a ter um debate, quase que neurótico, com o pensamento insolente que se manifestou sem sua permissão. É estranho, mas é o que Nova York faz com você.

Das centenas de mulheres que passaram por ali durante algumas taças de vinho, uma em particular me chamou a atenção. Surpreendentemente, nenhuma daquelas que me haviam sorrido ou ignorado. Nenhuma daquelas de rostos quadrados, de traços fortes, pernas longas, bem modeladas por meia-calças que combinavam com o resto da roupa. Nenhuma daquelas cujas curvas me puseram num transe temporário. Uma mulçumana me chamou a atenção mais que qualquer outra. Ela caminhava atrás de seu marido. Submissa! Uma mulher longilínea, escondida por uma burca que me negava qualquer apreciação de seu corpo, salvo os olhos. Grandes e verdes como esmeraldas. Lembro-me claramente do instante em que ela passou por mim no bar, já distante da atenção do marido que caminhava metros à frente, e seu olhar me acompanhou. Nada mais consegui enxergar naquela criatura de preto exceto seus olhos. Senti-me afagado pelo olhar insistente. Perdi-me completamente no espaço de um olhar. Um olhar de hipnotizar.  Um olhar proibido, que certamente lhe renderia uma dúzia de chibatadas tivesse seu marido observado o que passara. Percebi que ela havia retardado os passos, quem sabe numa tentativa de conectar comigo. Sorri  esperando um retorno. O xale não me permitiu o prazer de vê-la retribuir. Continuei sorrindo. Sorrindo sem parar.

Meu olhar havia penetrado além dos limiares externos que nos separavam. Não porque eu quis, mas porque ela permitira.  Havia enxergado a alma de alguém pela primeira vez. Ameacei ir ao seu encontro. Tirei meus olhos dos olhos dela por menos de dois segundos. Tempo o suficiente para alcançar a alça da minha mochila que estava no chão. Quando retornei... ela se fora. Se fora para sempre! Um desespero repentino me afligiu, me controlei e pedi mais uma taça. Fechei os olhos, descansei os cotovelos sobre o bar e respirei fundo o aroma do vinho. Recusei-me a olhar para qualquer outra mulher naquela noite.

 

CHARLES M. PHELAN
EMAIL: charlesmp99.hotmail.com

34, nasceu no Estado de Nova Iorque (EUA), hoje reside em Natal, onde estuda Direito e é professor de inglês
 

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Mossoró-RN, domingo, 16 de fevereiro de 2003