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Paradoxo sensual
Por
ANDRÉ BERNARDO
TV Press
Cláudia
Raia pensou que fosse enfartar quando foi chamada para fazer um transexual
em "As Filhas da Mãe". O convite - ou melhor, a "notícia-bomba",
como ela própria define - chegou a caminho de Nova Iorque, num vôo em
que, coincidentemente, o autor Silvio de Abreu também estava. Até hoje,
ela não sabe se naquele instante o avião entrou numa turbulência ou se
foi ela que começou a tremer. Na dúvida, pediu um copo de
água-com-açúcar para a aeromoça. "Não preguei os olhos a
viagem inteira. Fiquei assustadíssima", recorda, risonha.
Espantado
com a reação da atriz, Sílvio aproveitou o vôo para jogar sua lábia.
Explicou que Ramona não passava de uma grande brincadeira e que a
personagem não seria enfocada com a mesma seriedade com que foram vistos
homossexuais como Sandrinho e Jefferson, de "A Próxima Vítima",
ou Rafaela e Leila, de "Torre de Babel". Por fim, lustrou
o ego da moça dizendo que nenhuma outra atriz teria a coragem de se expor
num papel como este. "Papéis como este exigem um certo despudor.
Mas, depois que fiz o Tonhão no ‘TV Pirata’, faço qualquer coisa",
diverte-se.
Mesmo
sendo uma "piada", Ramona trouxe problemas para a
classificação da novela para o horário das sete. A princípio, o
Ministério da Justiça queria que "As Filhas da Mãe"
fosse exibida no horário das oito. "É uma hipocrisia só. Todos
os domingos, a gente vê bundas em profusão na tevê e ninguém fala nada",
reclama a atriz. Mais uma vez, o autor se encheu de paciência e explicou
que, na verdade, Ramona pode ser apenas uma impostora se fazendo passar
por uma das três personagens-título.
De
fato, a novela conta a história de três irmãos, um menino e duas
meninas, separados na infância. Quando se reencontram, anos depois, para
brigar pela herança da mãe, o menino diz ter feito operação para mudar
de sexo e "virado" um mulherão. Logo, Alessandra e
Tatiana, as outras herdeiras interpretadas por Bete Coelho e Andréa
Beltrão, sugerem um exame de DNA. Ramona, porém, prefere manter o
mistério. Alheia à polêmica sobre a transexualidade, ela vai ter um
caso com Leonardo, papel de Alexandre Borges. "É uma comédia
deliciosa e Ramona é a mocinha. É como se ela fosse a Regina Duarte da
novela. No meu caso, um Reginão", corrige a simpática mulher de
Edson Celulari e mãe do pequeno Enzo, de quatro anos.
Para
compor o tom farsesco da personagem, Cláudia não julgou necessário
fazer laboratório. Ela se diz familiarizada com o universo gay e vai
elaborar a Ramona a partir da própria observação. Quando começou a
carreira como bailarina, Cláudia se cansou de ouvir brincadeiras que a
comparavam a travestis e "drag queens". Tudo por causa da
beleza exuberante, emoldurada pelos lábios carnudos sempre pintados de
vermelho, a vasta cabeleira que já mereceu puxões de fãs mais
desconfiados e a altura de 1,80 m, ressaltada pelo inseparável salto 15.
"Na adolescência, era maior do que o normal. Mas acho que hoje
estou do tamanho certo", torna a brincar.
Aos
34 anos, Cláudia Raia é a primeira a reconhecer que sempre teve
inclinação para o humor. Não por acaso, estreou na tevê no
humorístico "Viva o Gordo", em 1983, fazendo comédia ao
lado do ex-especialista no gênero, Jô Soares. Dois anos depois, fez a
sensual Ninon em "Roque Santeiro" e não parou mais. Em
18 anos, já fez mocinha, heroína e vilã. Mas ficou famosa mesmo graças
a tipos cômicos, como a escandalosa Tancinha, de "Sassaricando",
ou a estabanada Adriana, de "Rainha da Sucata" – as
duas de Silvio de Abreu. "A não ser pelo trabalho, nunca levo
nada a sério. Sou debochada por natureza", confessa.
Por
essa associação com o humor, Cláudia pouco foi chamada para fazer tipos
dramáticos na tevê. Quando Denise Saraceni sugeriu a atriz como
protagonista da minissérie "Engraçadinha, Seus Amores e Seus
Pecados", o diretor Carlos Manga levou um susto: "Mas ela
é comediante!". Só com muita insistência, ele deu uma olhada
nos testes da atriz. Na mesma hora, Manga mandou chamar Cláudia e pediu
desculpas a ela. "Em vez de ficar reclamando da vida, corri atrás
e virei a mesa. Consegui mostrar que posso fazer vários tipos",
gaba-se.

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Talento versátil
A
atriz Cláudia Raia já passou poucas e boas nas mãos de Sílvio de
Abreu. Em 1990, ela teve de engordar 11 quilos para interpretar a roliça
bailarina Adriana de "Rainha da Sucata". Onze anos
depois, se expôs ao ódio do público como Ângela, de "Torre de
Babel". "Ela era uma psicopata capaz de matar uma pessoa
e, logo depois, tomar um suco de melancia sem a menor cerimônia".
Claudia conta que chegava em casa com o estômago embrulhado por causa da
personagem.
A
bem-sucedida parceria entre Cláudia e Sílvio de Abreu ultrapassou os
estúdios.
Os
dois montaram juntos três musicais: "Não Fuja da Raia",
"Nas Raias da Loucura" e "Caia na Raia".
"Foram sete anos de sucesso ininterrupto", suspira. Por
isso mesmo, foi fácil para Cláudia convencer a direção da Globo de
transformar "Não Fuja da Raia" em programa de tevê.
"Infelizmente, saiu do ar porque era muito caro produzir",
esclarece.
Mas
Sílvio de Abreu não foi o único "padrinho artístico"
de Cláudia Raia. Antes disso, ela conheceu e fez amizade com Walter
Clark, então produtor da versão brasileira do musical "Chorus
Line", espetáculo que marcou a estréia de Cláudia no teatro.
Na época, Walter disse que Cláudia, então com 17 anos, seria uma das
maiores estrelas do país. Ela limitava-se a rir. Hoje, reconhece que não
tinha a menor idéia da importância de Walter Clark na história da tevê
brasileira. "Nos meus primeiros três anos de carreira, era ele
quem assinava meus contratos. Mais do que um tutor, ele foi uma espécie
de pai para mim", emociona-se.

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Instantâneas
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Maria Cláudia Motta Raia nasceu em Campinas, interior de São Paulo, no
dia 23 de dezembro de 1966. Na adolescência, foi campeã paulista de
ginástica olímpica e estudou piano, canto, pintura, jazz e balé.
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A pedido de Sílvio de Abreu, Cláudia participou também do último
capítulo de "A Próxima Vítima". "Entrei muda,
saí calada e ainda levei um tiro", brinca.
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Cláudia Raia conheceu Edson Celulari, durante a novela "Sassaricando",
de 1987. Os dois, porém, só começaram a namorar cinco anos depois,
quando fizeram par em "Deus nos Acuda", também de Silvio
de Abreu.
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A estréia da atriz no cinema aconteceu em 1989, quando interpretou a
voluptuosa Sônia em "Kuarup", de Ruy Guerra. Depois
disso, fez apenas "Boca de Ouro", de Walter Avancini, e
"Matou a Família e Foi ao Cinema", de Neville D’Almeida.
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Cláudia Raia é budista há 13 anos. A adesão da atriz à doutrina
oriental coincide com o fim de seu casamento com o ator Alexandre Frota,
em 1988.
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