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A criação de Toinha

Não tenho um pingo de pena de não ter passado uma infância americana, cheia de gramas verdinhas, verdinhas, por onde passaríamos arrumadinhas de maria-chiquinha, Doina, eu, e minha prima Toinha, de mãos dadas com a noviça rebelde, cantarolando aquele dó, ré, mi... Mas eu lembrava, e era muito, como seria gostoso pisar naqueles tapetes de mato e fazer, já pensou? Fazer um... piquenique! E lá iríamos nós de vestidos xadrezes com avental e cestinha comer maçãs em cima da grama.

Na verdade, se você quer saber, leitor, nunca fomos a lugar algum e piquenique mesmo só no quintal com comida de brinquedo.

Uma vez essa minha prima Toinha fez uma colega comer folha de bananeira dizendo que era alface. Foi um problema. A menina começou nuns engasgos de dar dó e nenhuma de nós tinha coragem de levar a pobre para a mãe com medo da surra fatal.

Eu adorava Toinha. Ela tinha aquele misto de coragem e safadeza, que as crianças têm e toda a imaginação que se pode caber numa cabecinha de nove anos. Inventava as coisas de tal maneira que ninguém podia conter o riso diante de suas traquinagens.

Certa feita, Toinha, pensando em comprar uma bicicleta e uma boneca Amiguinha, entendeu de fazer o testamento do próprio pai, onde ele deixaria para a filha, ela mesma, o grandioso dote de um Jipe Willys. Pai é pai. Ele, sem contestar, assinou não uma, mas quatro vezes. Como, graças a Deus, ele não morria, Toinha repetia o documento achando ela que, de posse oficial do Jipe, poderia trocá-lo pela boneca e pela pedalante. Ninguém duvide do que uma criança que não assiste à boboca da Xuxa, nem novela, é capaz de inventar.

Vez ou outra, nossos pais nos carregavam para o sertão seco da Quixabeirinha, perto da Serra do Mel. Foi lá que minha inquieta prima tocou fogo no varal da casa de tia Neném. Mas eu sou testemunha de que foi sem querer.

O povo dos sítios em geral é um povo muito limpo. Daqueles que limpam tanto a casa que dá para ver o fundo das calças, como diz minha mãe. E para agradar minha tia, sabendo que cera por lá era um produto difícil, mamãe levou uma lata daquela cera vermelha. Uma festa. As filhas mais velhas, depois de passarem a pasta no chão, tinham que retirar o excesso e faziam isso com a gente em cima dos panos, para ficar mais pesado e a cera brilhar. Lá para as tantas, a diaba da Toinha, querendo ajudar, foi comigo para o quintal derreter a cera para facilitar o serviço.

Nos posicionamos exatamente embaixo de um varal varado de roupas limpas penduradas, convidativas, esvoaçantes. A intenção era deixar a cera, que era uma pasta, ficar líquida. E do pensamento à ação foi questão de segundos: Toinha riscou o fósforo e jogou para dentro da lata de cera. Pronto! A desgraça estava feita. A lata explodiu em chamas e nós duas em desespero.

– Acuda! Acuda! – e saímos correndo mais brancas do que vela.

Ninguém se feriu mais do que dez chineladas cada uma e eu ainda apanhei porque entrei de gaiata na história. Na hora do ‘vamo-ver’ Toinha disse que eu estava lá como ajudante. E haja peia.

Ainda houve outras arrumações, todas elas inocentes. O importante era deixar reinar a criatividade. Nada de videogames, nada de programas enlatados de televisão. Só nossa infância e o resto do mundo, sem intermediários, sem ilusões de controle remoto.

Os pais de hoje são muito ocupados. Querem, com toda razão, dar o melhor padrão de vida para seus filhos e trabalham, trabalham, ficando sem tempo de preencher a vida de suas crianças com um pouco de... família. Nem prestam atenção se o menino está vendo aqueles jogos terríveis com pancadaria e morte. Ao contrário, se rendem ao primeiro pedido de compra.

Contar uma história, rezar com seu filho à noite, são coisas que ajudam a formar uma criança livre. O retorno é lento. Mas é garantido para daqui a uns vinte anos. Exatamente quando sua velhice estiver batendo à porta da vida adulta de seus filhos.

Até a próxima semana.

 

   

Mossoró e a resistência ao bando de Lampião
(última parte)

José Romero Araújo Cardoso
Pesquisador e professor da Uern

Fazendo uso profuso de cavalos, o que não era normal nas táticas de guerrilha cangaceira, a horda bandoleira avançou em direção ao Rio Grande do Norte. Eram cerca de 75 homens. Cangaceiros experientes como Sabino Gório, Massilon ‘Benevides’ Leite, Fortaleza, Coqueiro, Jararaca, Colchete, entre outros, ombrearam com Lampião na empreitada mais que arriscada. Uma coisa era atacar cidades de pequeno porte, outra ameaçar uma aglomeração urbana importante como Mossoró. O tempo lhe diria que a temeridade que demonstrara quando do convite formulado por Massilon não era em vão.

Ainda no mês de maio, parte do bando comandado por ‘Benevides’ foi o responsável pelo ataque à cidade de Apodi (Estado do Rio Grande do Norte). Era intenção deste assassinar o cel. Francisco Pinto. O objetivo não fora alcançado em razão do pároco local interceder pelo homem que havia sido marcado para morrer.

As notícias que chegaram a Mossoró confirmaram o temor de Rodolfo Fernandes. Lampião em pessoa viria assumir a liderança do ataque a Mossoró. Os métodos utilizados em Apodi não deixavam dúvidas. Era o bando de Lampião que se dirigia a fim de colocar em prática o seu plano maior.

Em breve o Rio Grande do Norte conheceria a forma usual que o ‘rei do cangaço’ destacava visando atingir objetivos e impor respeito. Lugarejos perdidos na imensidão do oeste potiguar foram despertados pela selvageria dos cangaceiros.

Localidades como Boa Esperança (hoje Antônio Martins, Estado do Rio Grande do Norte), Gavião (hoje Itaú, Estado do Rio Grande do Norte), Pedra da Abelha (hoje Felipe Guerra, Estado do Rio Grande do Norte) e a vila mossoroense de São Sebastião (hoje Governador Dix-sept Rosado, Estado do Rio Grande do Norte) pagaram pesados tributos em vidas e valores materiais.

Reféns foram feitos durante o percurso e por eles exigidos quantias fabulosas. O mais destacado destes era o cel. Antônio do Amaral Gurgel, sogro do gerente da agência do Banco do Brasil em Mossoró. A estratégia seria que os mesmos servissem ao bando de todas as formas, inclusive como escudos humanos.

Da vila de São Sebastião houve contato com Mossoró, despertando-os finalmente da intensa apatia a que estavam submetidos. Um animado jogo de futebol ocorrido na véspera das festas de Santo Antônio e um concorrido baile pareciam ser a senha para a continuidade da letargia combatida por Rodolfo Fernandes.

As barricadas, montadas com o que se dispunham em momento, foram feitas às pressas com fardos de algodão, principalmente no palacete do prefeito. As torres das igrejas também começaram a ser ocupadas por exímios atiradores.

Além dessas trincheiras, foram utilizadas, como pontos defensivos, a estação de trem, o prédio dos correios e telégrafos, esgotos públicos e residências particulares. Tudo foi feito sem o mínimo planejamento. Só a coragem pessoal do chefe político mossoroense que salvou a cidade de um vexame de proporções indefinidas.

Às portas de Mossoró, o bando lampiônico deslumbrou-se com o cenário nunca visto. Uma cidade grande, cheia de armadilhas em cada rua, com as torres das igrejas insinuando defesas. Virgulino Ferreira da Silva definiu então a máxima mais correta entre todas que o imortalizaram: Cidade de quatro torres não foi feita para cangaceiros. Tinha razão!

Bilhetes trocados com Rodolfo Fernandes deixaram claro que o objetivo de lampião era dinheiro. Pedia 400 contos de réis para poupar a cidade de um ataque fulminante, como se no espaço urbano de Mossoró fossem se repetir as estratégias utilizadas nas caatingas.

A ordem para o ataque, sem antes Lampião não esquecer de enviar o bando e relutar instintivamente em entrar na cidade, foi dada quando o sol ainda não atingia o seu crepúsculo. Eram cerca de 16 horas do dia 13 de junho de 1927. Sob uma fina chuva, um toque de corneta, pois o cangaceiro gostava de tudo com ‘classe’, anunciava o início da façanha pouco racional.

Aos acordes do hino oficial de guerra dos bandoleiros, a ‘mulher rendeira’, o grupo deslocava-se em direção aos pontos de defesa. Miravam-lhes centenas de armas espalhadas pela cidade. Como sinal, os atiradores da torre da igreja de Santa Luzia começaram a abrir fogo em direção aos bandidos, sendo imediatamente imitados por todos, de uma só vez. Instalava-se a ‘sucursal do inferno’ para os cangaceiros de Lampião.

Uma tentativa frustrada de tomar a residência do prefeito resultou em baixas significativas para os atacantes. O cangaceiro ‘Colchete’ fora alvejado do palacete de Rodolfo Fernandes, tendo morte quase instantânea. ‘Jararaca’ tentou dar ênfase ao código dos bandidos, buscando ‘desarvorá-lo’ dos pertences. Certeiros tiros partidos da mesma arma que vitimou ‘Colchete’ se responsabilizaram pelo início de suas agruras.

Lampião, vendo as coisas ficarem incertas, ordena retirada urgente. Uma descarga de parabellum era o sinal convencional. Reagrupados, tomaram o rumo da chapada do Apodi em direção ao Estado do Ceará. Era a vitória da resistência do povo de Mossoró.

Além de ‘Colchete’ e dos ferimentos provocados em ‘Jararaca’, outros também foram atingidos. Um garoto que seguia o bando, conhecido pela alcunha de ‘Menino de Ouro’, foi executado pelos cangaceiros pouco depois, como forma de aliviar seu sofrimento. Havia sido bastante visado em razão de conduzir o coro da canção que caracterizava os bandidos.

‘Jararaca’ foi localizado e preso no dia seguinte ao frustrado ataque. Escondera-se nas imediações da cidade. Ferido gravemente, fora medicado de forma simples, deu entrevistas e quando tudo parecia estar voltando à normalidade, avisaram-lhe que seria transferido para Natal. No início do caminho o carro que o transportava apresentou ‘pane’ no motor, justamente de frente aos portões do cemitério de São Sebastião. Era o início do fim do cangaceiro apelidado pessoalmente por Lampião com o nome de um dos mais temidos ofídios.

Executado de forma covarde e sem a mínima chance de defesa, o pernambucano nascido no ano de 1901 na cidade de Buíque, cujo nome de batismo era José Leite de Santana, protagoniza após a morte fato curioso da religiosidade popular, em razão que a população humilde de Mossoró e região o transformou em ‘santo milagreiro’, talvez como forma de pedir desculpas pela forma desumana que foi assassinado, não obstante saber-se que a ordem seria executar qualquer bandido envolvido com o audacioso ataque à capital do oeste potiguar.

 

O santo sudário e a Bíblia

Alberto Montenegro
Historiador, pós-graduado em Economia

Torna-se um grande mistério, devido principalmente à sua veracidade ou não. O lençol de linho que terá servido de mortalha para Jesus Cristo, conservado por 400 anos pela Igreja Católica na catedral de Turim, na Itália.

Cientistas israelenses analisaram a relíquia e chegaram à conclusão que tratava-se de uma fraude, através de análises de pólesis de plantas encontradas no sudário, mostraram que ele possuía uma idade histórica recente, posterior ao sepultamento de Jesus Cristo.

Esses acontecimentos vieram adicionar novos ingredientes a um dos ramos mais populares e polêmicos da ciência: são as pesquisas que envolvem personagens e eventos bíblicos. As histórias contadas na Bíblia são artigo de fé para cerca de três bilhões de cristãos, judeus e mulçumanos.

Antes restritos às discussões filosóficas e teológicas, eles ganham um interesse cada vez maior de historiadores, arqueólogos, lingüistas e outros estudiosos em diversos campos da ciência. Novos estudos e descobertas arqueológicas estão tentando reparar fato de ficção para explicar o que tem algum fundamento histórico, o que é mitologia e o que é ciência nos relatos bíblicos.

No Brasil, temos também fatos religiosos e "homens santos" como Padre Cícero, Frei Damião, entre outros. Porém, sem que haja algum fundamento científico ou histórico, são adorados, pela população mais carente, como santos. As dificuldades em repassar o que é realidade histórica e o que é ficção decorrem, principalmente, da grande falta de cultura dos países emergentes e as imposições feitas pelas Igrejas (Católica, Protestante, Islâmica, Judaicas, Hinduístas, Xintoístas, Budistas, entre outras).

A história da Bíblia é complexa e cheia de antinomias. Acredita-se que os autores dos textos bíblicos foram muitos. É provável que os relatos tenham sido escritos aos poucos, no decorrer dos séculos, por autores diversos que acrescentaram, cortaram e revisaram os escritos existentes. Os tradicionalistas dizem que os cinco primeiros livros foram escritos diretamente por Moisés, sob inspiração divina. Os liberais têm apenas a respeito das cartas aos romanos, aos gálatos e aos coríntios, de novo testamento da Bíblia Cristã. Foram escritos pelo apóstolo Paulo. Quanto aos outros autores, há muitas dúvidas, na verdade, os textos bíblicos eram criações coletivas que iam sendo compostas e alteradas durante um longo período.

Mesmo com todas essas controvérsias, estudiosos americanos chegaram à conclusão de que 18% das palavras atribuídas a Jesus, foram realmente ditas por ele. Essa análise foi feita no Evangelho apócrifo de São Tomé, no caso do santo sudário, alvo de pesquisas freqüentemente contraditórias e inconclusivas, provavelmente muitas dessas dúvidas nunca terão uma resposta definitiva à luz da razão e da lógica. Para milhões e milhões de judeus, cristãos e mulçumanos devotos, isso pouco importa. Para eles, a fé na inspiração divina nos textos que consideram sagrados possui muito mais propriedade do que qualquer evidência desenterrada pelos cientistas. Esse fato é extremamente lamentável, desde que não se torne um fanatismo axiomático.