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Golpe de 1964 O povo não foi contra os militares
Por LUIZ GONZAGA CORTEZ
Jornalista
e pesquisador
Foi nas primeiras horas da manhã de primeiro de abril de 1964 que eu vi pelotões do Exército passando pelas calçadas das ruas Felipe Camarão, onde eu morava na casa de número 453, José Pinto, Deodoro Fonseca, Ponciano Barbosa (antiga rua do Cajueiro, atrás do Hospital Infantil Varela Santiago), fazendo a ronda por toda essa artéria da Cidade Alta. Eram as primeiras movimentações de tropas contra os primeiros opositores do golpe militar que estavam acantonados ao lado da casa do general Fernando Leitão.
Na esquina da rua José Pinto, onde morava o dr. Otto Guerra e sr. Durval Porpino, pai de Luzenildo, com a Avenida Deodoro, havia mais soldados por causa da proximidade com um velho prédio do tempo da II Guerra, onde funcionava o Diretório Central dos Estudantes. Motivo: a “revolução” tinha começado e os estudantes estavam ali concentrados, em intensa agitação verbal. Os comandantes das tropas só faziam observar, nenhuma admoestação aos estudantes que discursavam. Me lembro de poucos deles: João Faustino, Geniberto de Paiva Campos, José Arruda Fialho, o sindicalista José Campelo, considerado grande liderança dos bancários, apareceu por lá, entre outros cujos nomes não me recordo. Faustino eu me lembro bem porque era nosso professor de matemática na Escola Industrial de Natal (por sinal, um ótimo professor e orientador educacional), que funcionava na avenida Rio Branco. Os universitários divulgaram um memorial contra o golpe militar, dizendo que era coisa de gorilas, que foi publicado no Diário de Natal do dia 2 de abril.
Não sei quanto tempo durou a movimentação dos universitários, mas na Escola Industrial, como se chamava o atual Cefet, houve um arremedo de tentativa de protesto dos alunos do turno vespertino, sob a liderança de Marcos Pedroza. Sim, Marcos Pedroza fez um “rebu” danado na Escola. Se postou na subida da escada para o primeiro andar do prédio, no início das aulas, 13 horas, mais ou menos, do dia 31 de março, e convocou os estudantes para saírem em passeata contra o golpe militar em andamento contra o presidente João Goulart e o prefeito Djalma Maranhão. Marcos fez um discurso vibrante e recebeu aplausos da moçada, mas apareceu a professora de francês, dona Expedita, baixinha, gordinha e muito simpática perante o alunado. Expedita ficou no meio da escada e discursou também, mas contra o que Marcos tinha dito. “Vocês são uns meninos, não vão se meter com tropas do Exército que estão ocupando as ruas da cidade. Não adianta vocês saírem às ruas, voltem para as salas de aulas que é muito melhor” , foram essas as palavras da professora Expedita, sob vaias e aplausos. A passeata não saiu, alguns alunos fugiram pela porta central que dava para a avenida Rio Branco, desapontando Marcos Pedroza e os que queriam protestar contra o golpe militar. O meu colega e amigo Lourival Cavalcanti, hoje residente em São José de Mipibu, disse-me, certa vez, que dezenas de estudantes se aglomeraram diante da Prefeitura de Natal, na rua Ulisses Caldas, onde já estavam concentrados muitos trabalhadores e estivadores que, pouco tempo depois, foram dispersados pelo Exército. Eu disse a Lourival que não me lembrava desse episódio. “Mas Cortez, você e um bocado de alunos da escola foram comigo para frente da Prefeitura ”, lembrou Lourival. “Levamos uma carreira do Exército e voltamos para a escola”, disse, rindo, o amigo Lourival.
Nós estávamos na adolescência e não sabíamos direito do que se tratava. No dia seguinte, primeiro de abril, não houve aulas na EIN, eu vi a movimentação fraquejar diante do Restaurante Universitário (prédio onde funcionou a sede social da Associação Atlética Banco do Brasil-AABB, clube dos oficiais do Exército americano na II Guerra – 1942/1945), após intensos e inflamados discursos dos líderes estudantis e sindicais de Natal. Muitas conclamações contra os “gorilas” – como eram chamados os generais da direita do Exército. (José Campelo, então membro do Partido Comunista e uma liderança de peso em Natal, poderia dar um bom depoimento sobre os idos de março/abril de 1964, mas, segundo os camaradas do PC do B, ele teria passado uma esponja no passado e não fala nada a respeito (Meri Medeiros me afirma que ele mora numa praia e não dá depoimento sobre aquele período, o que é uma pena, pois o sr. Campelo, que não conheço, foi uma pessoa importante no meio sindical, tendo sido preso e espancado pelos militares golpistas). João Faustino também foi preso, tendo sua ausência como professor de matemática preenchida por um irmão Marista durante muitos dias (ou meses?). Anos depois, ele ingressaria nos quadros administrativos da Prefeitura de Natal, onde foi secretário de educação, e entraria na política como deputado federal pela Arena, o partido do regime militar que ele combateu verbalmente nos atos públicos realizados em abril de 1964, na avenida Deodoro.
A derrubada do prefeito Djalma Maranhão
O golpe de março/abril de 64 em Natal provocou a derrubada do prefeito Djalma Maranhão, que fez uma administração histórica no campo da educação e alfabetização de adultos, através da Campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, pavimentação de ruas, avenida do Contorno, construção da Estação Rodoviária da Ribeira, Galeria de Artes, Concha Acústica, na praça André de Albuquerque, bibliotecas públicas, Ginásio João XXIII, dentre outras obras. Djalma tinha instalado na Prefeitura de Natal um QG da Legalidade, para defender o mandato do Presidente Goulart.
Dizem que a sua saída do prédio da Prefeitura foi de forma humilhante, por efetivos do Exército. Antes de prender Djalma, um major do Exército, do Regimento de Obuzes-RO, acompanhado de um sargento de forte compleição física, adentrou uma sala e deparou-se com o bancário Ervelin, de Caicó, que indagou do oficial: “O que queres, gorila, na Casa do Povo?”. O major, agindo de forma estúpida e brutal, respondeu com um tapa no “pé do ouvido” de Ervelin, que teria caído pronto. O major e o sargento adentraram no gabinete de Maranhão, prendeu-o e levou-o para o quartel do 16 RI, no Tirol.
Uma testemunha ocular disse que não é verdade que o sargento deu um chute na bunda do Prefeito, conforme boataram na cidade, mas que dezenas de funcionários da prefeitura e populares pularam as janelas do Palácio Felipe Camarão após a prisão de Djalma Maranhão, no final da tarde de 2 de abril de 1964. Um dos que passaram correndo pela rua Ulisses Caldas, amedrontado, gritando “Djalma foi preso! Djalma Maranhão foi preso pelo Exército!” foi o funcionário da biblioteca da Concha Acústica, que existia na praça André de Albuquerque, conhecido por “Pelé”. Este foi preso e humilhado pelo capitão Enio Lacerda por ser comunista e negro.
A população ficou em casa, ninguém saiu para apoiar ou desapoiar os militares. Dias depois da queda de João Goulart, houve uma missa de ação de graças na Catedral (17 h do dia 7 de abril), reunindo a nata da política, dos meios empresariais e da Igreja Católica.
Os líderes foram Mônica Nóbrega Dantas, Iberê Ferreira de Souza, Ivan Dantas e Valmir Targino. Padre Celestino Galvão, que tinha sido vigário em Currais Novos e aliciado e insuflado estudantes potiguares contra os estudantes de Cuba, durante o Congresso Latino Americanos de Estudantes-CLAE, em 1962, não estava lá. E Akuizio Alves? Aluízio soltou uma nota oficial no dia 3 de abril se solidarizando com os novos governantes militares.
E Dinarte Mariz? Esse estava passeando em Paris, França, quando soube do golpe militar, retornando ao país cinco dias depois da tomada do poder pelos generais. A Rádio Nordeste, de propriedade de Dinarte Mariz, que funcionava no Beco da Lama, vizinho ao Cine Nordeste, no Centro, passou a divulgar noticiários favoráveis aos militares, divulgando listas de comunistas que deveriam ser presos, etc, num verdadeiro terrorismo radiofônico. Era delação pura. Um dos locutores da Radio Nordeste era Adalberto Rodrigues.
O QG do Exército foi obrigado a distribuir uma nota para a imprensa falada e escrita de Natal, advertindo a população que não receberia mais denúncias anônimas contra pessoas acusadas de participação de “atos subversivos” no governo decaído, em níveis federal, estadual e municipal. Foram tantas as delações feitas pela Rádio Nordeste que os telefones do QG ficaram congestionados. Serenados os ânimos, Dinarte de Medeiros Mariz propagou que era um velho conspirador contra o governo democrático de Jango Goulart...
Aluízio Alves não ficou por baixo, não. Se aliou ao general Castelo Branco e instaurou uma comissão geral de investigações contra os “subversivos”, sendo o único Governador do Brasil a baixar um Ato Institucional estadual, que provocou demissões, prisões e aposentadorias compulsórias de funcionários e sindicalistas. Era o Governo do Estado praticando a perseguição política em massa. Mas essa é outra história.
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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003