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Alexandro Gurgel alex-gurgel@oi.com.br
RIO DO FOGO - Durante a última década
foram registrados dias mais quentes e a previsão é que
até o ano de 2100 a temperatura esteja ainda mais elevada
em até seis graus, o que pode trazer conseqüências devastadoras
ao meio em que vivemos. Além de mais quentes, o nível
dos oceanos está subindo.
Na costa brasileira e em todos os
países litorâneos, o avanço do mar assusta a população.
A causa do aumento do nível do mar é acarretada, entre
outros fatores, pelo incremento do efeito estufa. No
Brasil, várias praias ameaçam simplesmente sumirem do
mapa. Ano após ano elas perdem grandes faixas de areia
e são tomadas pelo mar.
Em Pititinga, cidade litorânea localizada
a 65 quilômetros de Natal, pertencente ao município
de Rio do Fogo, o mar avançou destruindo mais de 20
casas, obrigando aos moradores a deixar suas residências
e procurar abrigo em casa de familiares. Duas ruas e
uma quadra de esportes já foram "engolidas"
pelo mar em Pititinga, fazendo o prefeito Egídio Dantas
decretar "estado de emergência".
De acordo com o prefeito Egídio Dantas,
a ajuda imediata de auxílio à população já está sendo
providenciada junto ao governo do Estado. "Os moradores
que perderam suas casas estão desesperados e querem
ajuda. A fila de pessoas no gabinete pedindo auxílio
não pára de crescer", ressaltou o prefeito.
Conforme o pescador nativo José Azevedo,
o mar vem avançando na praia há vários anos e quando
chegam os meses de março e abril a maré aumenta consideravelmente.
O pescador afirma que o mar já avançou mais de 100 metros
e perdeu as contas das casas que ele viu sendo destruídas
pelas águas do oceano Atlântico.
Não há muito que se fazer para frear
o avanço do mar, segundo o prefeito Egídio Dantas. "Aqueles
moradores e veranistas de posses que têm suas casas
ameaçadas tentam colocar muros reforçados e pedras para
conter a força das águas. Mas, a maioria é gente pobre,
sem condições financeiras e precisam do auxílio da prefeitura.
A prefeitura não tem condições de arcar com os prejuízos,
que ainda são incalculáveis", disse.
A elevação no nível dos mares decorrente
do aquecimento global poderá potencialmente afetar,
até o final deste século, até 42 milhões de pessoas
que habitam cidades litorâneas no Brasil. Por conta
do calor, casos de doenças como febre amarela, malária
e dengue devem aumentar. A Amazônia pode esquentar até
8 graus, com vastas porções de floresta cedendo lugar
a uma vegetação semelhante ao cerrado.
Essas são as projeções mais pessimistas
dos estudos divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente
sobre os impactos da mudança climática no país. Várias
pesquisas mapearam os efeitos do aumento da temperatura,
usando dados atualizados do último relatório do IPCC
(Painel Intergovernamental de Mudança Climática).
Avanço do mar no RN é cíclico
Para Elias Nunes, geógrafo e doutor
em geociências e meio ambiente e chefe do Departamento
de Geografia da UFRN, os casos de avanço do mar registrados
em vários pontos do litoral potiguar, principalmente
na praia de Pititinga, não devem ser considerados indicadores
do aquecimento global. "Isso é uma questão muito
mais ampla e deve ser bastante discutida", enfatiza
o professor.
Elias Nunes ressalta que é cedo arriscar
qualquer prognóstico quanto aos efeitos do aquecimento
global levando-se em conta um local ou região específica.
Qualquer análise, na opinião do professor, só é possível
através de estudos aprofundados e que levem em conta
diversos aspectos e não apenas as marés. "Não há
como dizer ou prever, com base nas informações que existem
hoje, quais áreas geográficas serão mais afetadas em
decorrência do aquecimento global", afirmou.
A dinâmica das marés, segundo o geógrafo,
é um evento natural cíclico que os estudos realizados
até agora não são suficientes para traçar qualquer paralelo
com a elevação da temperatura na Terra, por exemplo.
"O aquecimento global, como o nome sugere, deve
ser analisado em escala mundial", disse.
O professor explica que a elevação
da temperatura em seis graus, em um período de cem anos,
pode não ser muito para o ser humano, mas ocasiona desequilíbrio
na cadeia de outros ecossistemas. Com isso, o homem
sofre os efeitos do aquecimento global de forma indireta.
O professor cita eventos naturais como o furacão Catarina,
na região Sul, jamais visto no País e que pode ser atribuído
às modificações do aquecimento global.
A preocupação dos especialistas em
relação ao aquecimento global não diz respeito apenas
aos fenômenos da natureza como furacões, tufões, tornados
ou mesmo a temperatura, mas à alteração da cadeia trófica
que pode ceifar a vida de várias espécies. O especialista
define como certo que o comportamento e ações, em todas
as partes do mundo, precisam mudar.
A praia de Pititinga
De todas as praias que se localizam
na faixa litorânea entre Natal e a Ponta do Calcanhar,
Pititinga é a que mais guarda os traços de sua origem
com colônia de pescadores. Localizada no município de
Rio do Fogo, no começo da chamada Esquina do Brasil,
era uma das preferidas pelos índios que habitavam a
costa potiguar pela grande fonte de riqueza e de alimentação
de suas águas na praia, o que justifica o seu nome,
"pititinga" - praia do peixe miúdo.
Enseada com um belo coqueiral, dunas
e riachos, Pititinga hoje, talvez seja a única praia
do nosso litoral que cresce como colônia de pescadores,
mantendo as suas características naturais. O povo, de
maioria católica, é abençoado por Nossa Senhora dos
Navegantes, a padroeira do distrito, que tem procissão
pelas ruas e pela orla marítima em seu dia. A capela
é bastante original e muito diferente do padrão das
capelas de beira de praia.
Distante de Natal apenas 65 quilômetros,
a vila não tem mais do que mil habitantes, a maioria
sobrevivendo da pesca, de pequenos negócios ou da aposentadoria
dos velhos marítimos, esta última a grande fonte geradora
de recursos.
O turismo dá seus primeiros passos
e tem apenas uma associação que recebe hóspedes e dispõe
um bom restaurante. As demais estruturas são pequenos
bares e botecos, onde se encontra água de coco, cerveja
ou refrigerante e tira-gosto a base de peixe frito e
camarão.
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