Mossoró-RN, domingo 28 maio de 2006

O pioneiro do cooperativismo no Rio Grande do Norte

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Em 25 de fevereiro de 1915 era criada a Sociedade “Mossoró Novo”, que se constituía em um sindicato rural, que tinha como sede a cidade de Mossoró. De acordo com os estatutos da sociedade, a mesma tinha como fins gerais:

1.  O desenvolvimento, estudo e defesa dos interesses da agricultura, pecuária e indústrias conexas, como elementos fundamentais da economia sertaneja;

2.  A reorganização da vida econômica do sertão seco, sobre as bases do mutualismo e do cooperativismo, no sentido de máxima resistência, direta e indireta, contra os efeitos da instabilidade climática.

Para alcançar os fins desejados, ainda de acordo com os estatutos, o sindicato tinha como objetivos imediatos: promover a criação metódica e continuada propaganda de instituições mútuas e cooperativistas, de toda ordem, estendendo esse esforço por toda região periodicamente flagelada pela seca; fomentar, por meio dos institutos formados, o ensino primário e elementar agrícola e o técnico em geral, subministrando em círculo de estudos, bibliotecas rurais, cursos, conferências, campos de demonstração e oficinas-escolas; e organizar no sindicato e em todas as instituições anexas, reservas especiais para criação na sede sindical de um hospital e de uma escola ou aprendizado de artes e ofícios, compreendendo estes um curso de agricultura prática.

O Sindicato Rural Sertanejo, como ficou conhecido,  teve como seus primeiros dirigentes: dr. Filipe Nery de Brito Guerra, presidente; dr. Silvério Soares de Souza, secretário; farmacêutico Tércio Rosado Maia; gerente,  Cel. Manoel Cirilo dos Santos; tesoureiro, Afonso Freire de Andrade; arquivista. Tinha ainda no Conselho Administrativo: dr. Antônio Soares Júnior, Cel. Bento Praxedes Fernandes Pimenta, Cel. João da Escóssia Nogueira. Dr. Manoel Benício de Melo Filho e o dr. Rafael Fernandes Gurjão.

Esse sindicato foi, na verdade, a semente do movimento cooperativista do Rio Grande do Norte e teve como mentor o farmacêutico Tércio Rosado Maia.  Sobre esse assunto, escreveu o historiador Filipe Guerra: “Tércio Rosado Maia quis abrir caminho para o cooperativismo. Fundou uma cooperativa sob a denominação de “Mossoró Novo”. Salvo engano, foi essa a primeira vez que se falou, no Estado, em sociedade cooperativa. Foi ele seu propagandista, fundador e gerente. Trabalhou, fez funcionar pequeno estabelecimento, mesmo sofrendo prejuízos materiais”.

O jornal “Comércio de Mossoró, em sua edição de 10 de janeiro de 1916, registrava: “Em reunião presidida pelo Cel. Bento Praxedes, realizou-se a Assembléia Geral da “Mossoró Novo”, sendo definitivamente instalada essa sociedade. Leu bem confeccionado relatório do período organizacional dessa sociedade, o farmacêutico Tércio Rosado Maia, que falou muito bem e com inteira competência sobre o assunto. O Cel. Bento Praxedes felicitou o farmacêutico Tércio Rosado Maia pela realização de seu ideal e concitou a todos os membros da diretoria para se forrarem de perseverança a fim de vencer o indiferentismo público pelas instituições cooperativistas tão úteis e proveitosas nos meios em que se desenvolvem”.

O farmacêutico Tércio Rosado Maia, o pioneiro do cooperativismo do Rio Grande do Norte, nasceu em Mossoró a 19 de agosto de 1892, sendo o terceiro filho do também farmacêutico Jerônimo Rosado e D. Maria Amélia Rosado Maia.  Em 1910 formou-se em Farmácia pela Escola de Medicina da Bahia; em 1929 em Odontologia na cidade do Recife; em 1940 formou-se em Direito e cursou ainda até o 4º ano de Medicina, na mesma capital.

Em Mossoró lecionou na Escola Normal e no Ginásio Diocesano Santa Luzia.

No Recife exerceu o magistério nos seguintes estabelecimentos de ensino: Faculdade de Comércio, Escola Politécnica, Escola Normal Pinto Júnior, Ateneu Pernambucano, Faculdade de Farmácia da Universidade do Recife, Ginásio Pernambucano, Colégio Santa Margarida e Colégio Vera Cruz.

Tércio Rosado Maia faleceu em 8 de setembro de 1960, aos 68 anos. O Cônego Francisco de Sales Cavalcanti registrou sobre sua morte: “Desaparecido já da vivência leal dos que souberam admirá-lo, continuou vivo nos seus trabalhos admiráveis porque  PASSOU PELA TERRA FAZENDO O BEM!...”

 

Crônica de um prêmio anunciado

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

A criação do Prêmio Dorian Jorge Freire de Jornalismo foi mais ou menos na mesma época da publicação de minhas primeiras crônicas nesta coluna. Confesso que conheço pouco da obra deste que deve ser o maior escritor que Mossoró gestou para o mundo. Mas, como me tornei vizinho de página passei a ler os artigos semanais resgatados dos arquivos de O Mossoroense, admirando o escritor e jornalista a ponto de definir uma meta: “se eu conseguir escrever dez por cento do que ele escreveu, vou me dar por satisfeito”. Dez por cento, entenda-se, não em quantidade, mas em qualidade. Apesar das quase quatro mil matérias produzidas para televisão, ao longo de quinze anos de trabalho como repórter, por mais que escreva vou continuar a anos luz da fertilidade do mestre das letras.

Dessa leitura semanal que para mim se tornou obrigatória lembro uma frase dele dirigida a um chefe de redação, se não me engano, em São Paulo: “a prosperidade não lhe trouxe sabedoria”. Gosto de frases simples e bem feitas; gosto do que Dorian escreveu.

Aí veio o prêmio. Na primeira oportunidade, no retorno para o trabalho de rua, decidi participar. Aproveitei para retratar a elaboração do projeto. A empolgação em torno da idéia de transformar a cidade na Capital Cultural Brasileira podia ser sentida nos corredores da Fundação Municipal de Cultura. Tentei passar isso para a matéria e acho que fui feliz. Só faltou Mossoró ganhar o título.

Faltando pouco para a divulgação do resultado recebo uma ligação de uma jornalista querendo saber o que eu iria fazer com o dinheiro do prêmio. - Peraí, você não vai esperar o resultado? Mas só havia um profissional inscrito na categoria Mídia Eletrônica - TV, eu. Devo ter ficado feliz com a notícia; estava confiante que venceria, mas sabia que não havia feito uma matéria específica para o prêmio. O meu material retratava o factual, o que estava acontecendo naquele momento.

Assim, sem concorrentes, uma semana antes da divulgação oficial já sabia o resultado do concurso. Pelo telefone respondi à jornalista que ia dar um presente a cada um dos meus filhos e recompor a poupança. Aprendi a importância de ter um pouco guardado para os momentos de precisão. Sobre o que achava deste tipo de prêmio, disse que não tinha uma opinião formada, mas que também não via nenhum problema. Se grandes empresas e bancos fazem o mesmo, por que o município não poderia fazer? Acrescento agora: se os grandes nomes do jornalismo no país concorrem e recebem prêmios, por que não a turma da província?

A quem contava a boa nova recebia parabéns de volta. - Mas eu concorri sozinho. A observação, apesar de soar desnecessária para a maioria, vai na conta da minha modéstia. Não me permitia esconder este “pequeno” detalhe. E se a comissão julgadora resolvesse que eu não merecia o prêmio? Aí era demais; houve quem me perguntasse em tom de brincadeira se eu havia fumado maconha estragada. Nem da estragada nem da boa - passou o tempo - mas que ficou um “barato” por ter ganhado o prêmio, ficou.

Aí fui colecionando pedidos de presentes, empréstimos, almoços e farras que se fossem somados chegariam a um montante muito além do prêmio oferecido. - Isso é que é um homem de sorte! - Aí, tá bem né? O clima até de algazarra deixava escapar o significado do prêmio em si, que eu guardei pra mim. Outros virão, até porque o prêmio virou lei municipal, mas vou guardar comigo o gostinho de ter sido o primeiro ganhador.

Viajei para Mossoró, onde, diferente de mim, os outros colegas de imprensa ainda viviam a expectativa do concurso. Confesso que senti uma certa inveja deles. A surpresa de ter o nome revelado no palco do Teatro Dix-huit Rosado seria mais interessante. Se bem que o jornalista Nilo Santos, com quem tive o prazer de trabalhar quando ainda era repórter esportivo em Natal, elegantemente suprimiu a informação do concorrente único, que eu fiz questão de lembrar.  Lembrei também que, minutos antes, havia recebido uma lição de um rapazinho de apenas oito anos de idade, meu filho, ao saber que eu era o único inscrito na categoria.

- É se superar, não é pai?

Até aquele momento, na platéia, não havia me ocorrido que vencer o prêmio era, para mim, uma forma de superação... Mas era; lutei contra os limites que a vida tenta me impor.

Não devo ter saído bonito nas fotos, mas estava lá, mostrando a cara e lutando para segurar a emoção numa fala sem ensaios. Sinceramente, não lembro de ter recebido tanto calor humano de uma só vez. É a generosidade dos mossoroenses. Por isso quando escuto a pergunta: Como é que você agüenta Mossoró? - que muitos dos que não nasceram aqui devem escutar -, já tenho uma resposta pronta.

- Esqueça as condições climáticas e preste atenção nas pessoas.

Em tempo: assim que definir onde realmente é meu canto, o Prêmio Dorian Jorge Freire de Jornalismo vai dividir espaço na parede principal da sala com o título de cidadão desta terra abençoada.

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