|
Ricardo Noblat
Ricardo Noblat é considerado um dos
melhores jornalistas do país. Conhecido por ser autor
de matérias políticas e dirigir veículos importantes
de mídia como a revista Veja e os jornais O Dia, Correio
Brasiliense, A Tarde, entre outros. Veio à Mossoró pela
segunda vez. Esteve na cidade apenas algumas horas.
O suficiente para tomar um banho no quarto 192 do Hotel
Thermas e usar o micro da recepção com monitor ITAUTEC,
já meio amarelado, para enviar notas para o Blog do
Noblat, que foi o tema da palestra ministrada na cidade
e a atual ocupação do profissional.
Por Mayara Amorim
O Mossoroense - O que é o blog
para você?
Ricardo Noblat - No início ele era
como um quarto de despejo de notas. Na época eu trabalhava
fazendo uma página semanal no jornal “O Dia”. Me queixava
muito que as notícias que apurava no início da semana,
muitas vezes envelheciam, e no domingo não poderiam
mais serem usadas. Foi aí que um amigo do O Dia on-
line me sugeriu criar um blog. Na época não existiam
blogs de notícias. Pelo menos não com atualização e
notícias diárias. Não tinha intimidade com Internet,
e te confesso que até hoje não tenho. Na época eu tinha
uma secretária muito eficiente que até imprimia os e-mails.
Quando sai do Correio Brasiliense em 2002 nem mesmo
sabia passar um e-mail. Sabia somente pegar carona,
quando alguém me enviava um e-mail eu respondia. Quando
a página do O Dia acabou, que não durou muito, somente
uns 3 meses, eu cheguei a me despedir dos leitores do
blog, porque se a página havia acabado, também havia
acabado sentido do blog.
OM - Nessa época você já tinha
contador de acessos da página?
RN - Não! Não tinha nada. Nem sabia
para quantas pessoas falava. Na minha cabeça o blog
só existia por causa da página do impresso. Daí quando
me despedi, alguns leitores falaram “Não. Continua,
tá legal”. E eu continuei porque não tinha o que fazer.
Estava parado esperando um emprego. Isso era por volta
de março, aí chegou outubro e não apareceu emprego.
Foi aí que a IG, onde ele estava hospedado, lançou um
medidor de audiência. No fim do mês vi que tinha 152
mil e poucos acessos únicos. Pensei, “poxa! Eu tenho
cinco mil e poucos leitores por dia”.
OM - Quando você percebeu que era
um negócio?
RN - Hoje, eu digo que é um negócio,
ou seja, me remunera. Eu passei um ano fazendo blog
sem ganhar nada, pelo contrário, gastando. Só em conta
de telefone era uma enormidade.
OM - Então você considera o blog
hoje como uma empresa?
RN - Não é bem uma empresa. Quer dizer,
quando eu tive que sair da IG para ir para o portal
O Estadão eu tive que criar uma empresinha para poder
dar a nota fiscal. Todo mês o meu relacionamento com
o O Estadão é de pessoa jurídica para pessoa jurídica.
A empresinha eu criei para os meus filhos. Onde eles
são majoritários, não sei porque.
OM - São seus filhos que tomam
de conta do blog?
RN - Não. Tem um que trabalha comigo,
que é o Gustavo. Mas começou agora, de novembro para
cá. Até novembro eu trabalhava sozinho.
OM - Você trabalha com estagiário?
RN - Também não. Eu tinha uma estagiária.
Sempre tive, desde o começo. Mas quando eu fui para
o O Estadão, em novembro, eu montei uma equipe com dois
repórteres. O Gustavo, que é meu filho e fez jornalismo,
e o Leonardo Collor que é um repórter do IG em Brasília,
muito bom. Então é com eles dois que eu faço o blog.
OM - Como é passar de entrevistador
para entrevistado?
RN - Eu não digo que é esquisito porque
na minha vida toda sempre aceitei, com muita disposição,
convites para palestras e essas coisas todas. E sempre
teve. Está aparecendo muito mais agora, depois do blog,
mas sempre teve. Então, por um lado eu sempre passei
por essa situação de dar palestras e então ter que passar
por uma entrevista.
OM - O próximo livro será sobre
blog?
RN - Eu estou com um livro sobre blog
na cabeça. A editora que lançou A Arte de Fazer um Jornal
Diário e a Contexto de São Paulo está querendo esse
livro sobre blog. Já era para ter feito ano passado.
Mas aí eu resolvi amadurecer mais a idéia. Vou começar
a escrever agora.
OM - Na obra “O que é ser jornalista”
você conta dramas e agressões que sua família sofreu
por causa do seu trabalho. Como é ver suas duas paixões
ameaçadas uma pela outra? Como você enfrentou
esse período?
RN - Se você for ver por estatísticas
internacionais essa é uma das profissões mais perigosas,
o jornalismo. O jornal para mim é uma paixão. Na verdade
só acredito nas coisas com paixão no meio. Se não tiver
paixão as coisas não funcionam. Nada. Não somente o
trabalho. Isso dá um nó na cabeça, e deu na minha. Porque
tinha hora que eu achava que devia o grau de exposição
que eles (filhos) estavam passando, por mais segurança
que tivessem, porque o jornal havia posto seguranças.
Depois quando tive ameaças mais sérias até o próprio
Ministério da Justiça determinou que a polícia desse
cobertura. Mas era um sufoco. E os meninos se queixavam
muito, eles eram adolescentes. Tinha hora que eu dizia
“poxa, será que eu tenho o direito de está submetendo
eles a esse tipo de situação? Será que não seria melhor
eu sair do jornal ou até de Brasília? Não seria mais
seguro e inteligente?”. Mas ao mesmo tempo pensava “poxa,
mas aí vou abdicar de um trabalho que me dá responsabilidade
não somente com meus filhos. Eu tinha que pensar nos
meus colegas que levei para o Correio, na equipe que
havia montado e com a repercussão desse trabalho na
sociedade. Mas te confesso que não foi uma coisa que
chegou um dia e eu disse, “não! Minha responsabilidade
maior é com meus colegas”. Não foi. Poderia até ter
nos acontecido coisa pior, graças a Deus não aconteceu.
OM - Qual é o seu relacionamento
atual com Recife, sua terra natal?
RN - É lá onde eu tenho minha família,
meus irmãos. Com exceção de um que mora em Brasília.
Ainda tem meu pai que vive lá, pois minha mãe já morreu.
Mas se você me perguntar “se você se mudar de Brasília
você vai morar aonde?”. Eu não diria Recife. Em primeiro
lugar porque Recife se transformou numa cidade muito
violenta. Segundo porque não gosto de repetir as coisas.
Um exemplo é que na época que eu saí do jornal O Dia
e fiquei somente com o blog, eu até disse que não apareceu
nenhum emprego, agora me lembrei. Apareceu um convite
da Veja. Eles me chamaram para ser repórter especial.
Poxa, era a Veja! Que é uma revista importante. Mas
eu preferi continuar com o blog. Nessa época eu já estava
achando que o blog iria virar um negócio legal. E eu
já havia trabalhado na Veja cinco anos. Fui repórter
especial e editor. Era repetir uma coisa que eu já vivi.
OM - Qual a sensação de escrever
um livro como “A arte de escrever um jornal diário”
em um país como o Brasil, onde os livros são para poucos,
e ter uma ótima repercussão?
RN - Para mim foi muito prazeroso.
A repercussão eu não imaginava porque, enfim, a gente
nunca imagina quando escreve. Acredito que a repercussão
se deve ao fato de que as faculdades o adotaram. Eu
acho que o que explica essa boa repercussão é que ele
é muito didático e tem textos curtos. As pessoas não
gostam de ler textos longos.
OM - Foi difícil a construção do
primeiro livro?
RN - Não foi difícil não. Porque
ele se alimentou muito dos bilhetes que eu fazia, sempre
nas redações que eu trabalhei. Antes mandava por escrito,
hoje pela Internet. Os guardava, sabia que um dia eles
seriam úteis para alguma coisa. Não foi trabalhoso fazer
o livro, foi trabalhoso o que vivi, que de alguma maneira
ajudou a construir o livro. A partir do momento que
saquei “opa! Eu vou fazer os esboços dele a partir dos
bilhetes”. Depois que eu o organizei, formatei, o livro
não foi difícil escrever. O outro deu mais trabalho,
mas também deu mais prazer. Mas é o primeiro que repercute
mais.
OM - O ato de escrever ainda o
martiriza após mais de 30 anos de profissão?
RN - Lógico. Me angustia muito. Embora
que no blog tenha que escrever o tempo todo, muito.
Quando passa muito tempo sem escrever qualquer um enferruja.
OM - Qual é a maior vantagem do
blog, é não ter patrão?
RN - Essa é a melhor coisa. O melhor
é não ter regras e não ter que obedecer. Como o blog
é uma coisa muito nova, cada um faz do jeito que achar
melhor. Se preferir transplantar, colando as regras
ou modos de escrever em jornais, ou mesmo rádio e TV,
não vai sair uma coisa legal. Tem que jogar fora tudo
que se aprendeu e experimentar.
OM - Qual é a característica indispensável
para a formação de um bom jornalista?
RN - Ser burro. No sentido de perguntar
sempre, perguntar muito e nunca se sentir satisfeito
com o que sabe ou o que perguntou. Pecar sempre pelo
exagero, mesmo que jogue 80% do que apurou. Claro que
não é somente isso. É preciso escrever bem. E só escreve
bem, quem lê muito e sobre tudo. E além de escrever
muito, no fim ainda tem que estar insatisfeito, quando
começa a gostar do que escreveu, não vai bem. Tem que
achar que tudo está uma merda. E quase sempre é.
|