Mossoró-RN, domingo 28 maio de 2006

Ricardo Noblat

Ricardo Noblat é considerado um dos melhores jornalistas do país. Conhecido por ser autor de matérias políticas e dirigir veículos importantes de mídia como a revista Veja e os jornais O Dia, Correio Brasiliense, A Tarde, entre outros. Veio à Mossoró pela segunda vez. Esteve na cidade apenas algumas horas. O suficiente para tomar um banho no quarto 192 do Hotel Thermas e usar o micro da recepção com monitor ITAUTEC, já meio amarelado, para enviar notas para o Blog do Noblat, que foi o tema da palestra ministrada na cidade e a atual ocupação do profissional.

Por Mayara Amorim

O Mossoroense - O que é o blog para você?

Ricardo Noblat - No início ele era como um quarto de despejo de notas. Na época eu trabalhava fazendo uma página semanal no jornal “O Dia”. Me queixava muito que as notícias que apurava no início da semana, muitas vezes envelheciam, e no domingo não poderiam mais serem usadas. Foi aí que um amigo do O Dia on- line me sugeriu criar um blog. Na época não existiam blogs de notícias. Pelo menos não com atualização e notícias diárias. Não tinha intimidade com Internet, e te confesso que até hoje não tenho. Na época eu tinha uma secretária muito eficiente que até imprimia os e-mails. Quando sai do Correio Brasiliense em 2002 nem mesmo sabia passar um e-mail. Sabia somente pegar carona, quando alguém me enviava um e-mail eu respondia. Quando a página do O Dia acabou, que não durou muito, somente uns 3 meses, eu cheguei a me despedir dos leitores do blog, porque se a página havia acabado, também havia acabado sentido do blog.

OM - Nessa época você já tinha contador de acessos da página?

RN - Não! Não tinha nada. Nem sabia para quantas pessoas falava. Na minha cabeça o blog só existia por causa da página do impresso. Daí quando me despedi, alguns leitores falaram “Não. Continua, tá legal”. E eu continuei porque não tinha o que fazer. Estava parado esperando um emprego. Isso era por volta de março, aí chegou outubro e não apareceu emprego. Foi aí que a IG, onde ele estava hospedado, lançou um medidor de audiência. No fim do mês vi que tinha 152 mil e poucos acessos únicos. Pensei, “poxa! Eu tenho cinco mil e poucos leitores por dia”.

OM - Quando você percebeu que era um negócio?

RN - Hoje, eu digo que é um negócio, ou seja, me remunera. Eu passei um ano fazendo blog sem ganhar nada, pelo contrário, gastando. Só em conta de telefone era uma enormidade.

OM - Então você considera o blog hoje como uma empresa?

RN - Não é bem uma empresa. Quer dizer, quando eu tive que sair da IG para ir para o portal O Estadão eu tive que criar uma empresinha para poder dar a nota fiscal. Todo mês o meu relacionamento com o O Estadão é de pessoa jurídica para pessoa jurídica. A empresinha eu criei para os meus filhos. Onde eles são majoritários, não sei porque.

OM - São seus filhos que tomam de conta do blog?

RN - Não. Tem um que trabalha comigo, que é o Gustavo. Mas começou agora, de novembro para cá. Até novembro eu trabalhava sozinho.

OM - Você trabalha com estagiário?

RN - Também não. Eu tinha uma estagiária. Sempre tive, desde o começo. Mas quando eu fui para o O Estadão, em novembro, eu montei uma equipe com dois repórteres. O Gustavo, que é meu filho e fez jornalismo, e o Leonardo Collor que é um repórter do IG em Brasília, muito bom. Então é com eles dois que eu faço o blog.

OM - Como é passar de entrevistador para entrevistado?

RN - Eu não digo que é esquisito porque na minha vida toda sempre aceitei, com muita disposição, convites para palestras e essas coisas todas. E sempre teve. Está aparecendo muito mais agora, depois do blog, mas sempre teve. Então, por um lado eu sempre passei por essa situação de dar palestras e então ter que passar por uma entrevista.

OM - O próximo livro será sobre blog?

RN - Eu estou com um livro sobre blog na cabeça. A editora que lançou A Arte de Fazer um Jornal Diário e a Contexto de São Paulo está querendo esse livro sobre blog. Já era para ter feito ano passado. Mas aí eu resolvi amadurecer mais a idéia. Vou começar a escrever agora.

OM - Na obra “O que é ser jornalista” você conta dramas e agressões que sua família sofreu por causa do seu trabalho. Como é ver suas duas paixões ameaçadas uma pela   outra? Como você enfrentou esse período?

RN - Se você for ver por estatísticas internacionais essa é uma das profissões mais perigosas, o jornalismo. O jornal para mim é uma paixão. Na verdade só acredito nas coisas com paixão no meio. Se não tiver paixão as coisas não funcionam. Nada. Não somente o trabalho. Isso dá um nó na cabeça, e deu na minha. Porque tinha hora que eu achava que devia o grau de exposição que eles (filhos) estavam passando, por mais segurança que tivessem, porque o jornal havia posto seguranças. Depois quando tive ameaças mais sérias até o próprio Ministério da Justiça determinou que a polícia desse cobertura. Mas era um sufoco. E os meninos se queixavam muito, eles eram adolescentes. Tinha hora que eu dizia “poxa, será que eu tenho o direito de está submetendo eles a esse tipo de situação? Será que não seria melhor eu sair do jornal ou até de Brasília? Não seria mais seguro e inteligente?”. Mas ao mesmo tempo pensava “poxa, mas aí vou abdicar de um trabalho que me dá responsabilidade não somente com meus filhos. Eu tinha que pensar nos meus colegas que levei para o Correio, na equipe que havia montado e com a repercussão desse trabalho na sociedade. Mas te confesso que não foi uma coisa que chegou um dia e eu disse, “não! Minha responsabilidade maior é com meus colegas”. Não foi. Poderia até ter nos acontecido coisa pior, graças a Deus não aconteceu.

OM - Qual é o seu relacionamento atual com Recife, sua terra natal?

RN - É lá onde eu tenho minha família, meus irmãos. Com exceção de um que mora em Brasília. Ainda tem meu pai que vive lá, pois minha mãe já morreu. Mas se você me perguntar “se você se mudar de Brasília você vai morar aonde?”. Eu não diria Recife. Em primeiro lugar porque Recife se transformou numa cidade muito violenta. Segundo porque não gosto de repetir as coisas. Um exemplo é que na época que eu saí do jornal O Dia e fiquei somente com o blog, eu até disse que não apareceu nenhum emprego, agora me lembrei. Apareceu um convite da Veja. Eles me chamaram para ser repórter especial. Poxa, era a Veja! Que é uma revista importante. Mas eu preferi continuar com o blog. Nessa época eu já estava achando que o blog iria virar um negócio legal. E eu já havia trabalhado na Veja cinco anos. Fui repórter especial e editor. Era repetir uma coisa que eu já vivi.

OM - Qual a sensação de escrever um livro como “A arte de escrever um jornal diário” em um país como o Brasil, onde os livros são para poucos, e ter uma ótima repercussão?

RN - Para mim foi muito prazeroso. A repercussão eu não imaginava porque, enfim, a gente nunca imagina quando escreve. Acredito que a repercussão se deve ao fato de que as faculdades o adotaram. Eu acho que o que explica essa boa repercussão é que ele é muito didático e tem textos curtos. As pessoas não gostam de ler textos longos.

OM - Foi difícil a construção do primeiro livro?

RN - Não foi difícil não.  Porque ele se alimentou muito dos bilhetes que eu fazia, sempre nas redações que eu trabalhei. Antes mandava por escrito, hoje pela Internet. Os guardava, sabia que um dia eles seriam úteis para alguma coisa. Não foi trabalhoso fazer o livro, foi trabalhoso o que vivi, que de alguma maneira ajudou a construir o livro. A partir do momento que saquei “opa! Eu vou fazer os esboços dele a partir dos bilhetes”. Depois que eu o organizei, formatei, o livro não foi difícil escrever. O outro deu mais trabalho, mas também deu mais prazer. Mas é o primeiro que repercute mais.

OM - O ato de escrever ainda o martiriza após mais de 30 anos de profissão?

RN - Lógico. Me angustia muito. Embora que no blog tenha que escrever o tempo todo, muito. Quando passa muito tempo sem escrever qualquer um enferruja.

OM - Qual é a maior vantagem do blog, é não ter patrão?

RN - Essa é a melhor coisa. O melhor é não ter regras e não ter que obedecer. Como o blog é uma coisa muito nova, cada um faz do jeito que achar melhor. Se preferir transplantar, colando as regras ou modos de escrever em jornais, ou mesmo rádio e TV, não vai sair uma coisa legal. Tem que jogar fora tudo que se aprendeu e experimentar.

OM - Qual é a característica indispensável para a formação de um bom jornalista?

RN - Ser burro. No sentido de perguntar sempre, perguntar muito e nunca se sentir satisfeito com o que sabe ou o que perguntou. Pecar sempre pelo exagero, mesmo que jogue 80% do que apurou. Claro que não é somente isso. É preciso escrever bem. E só escreve bem, quem lê muito e sobre tudo. E além de escrever muito, no fim ainda tem que estar insatisfeito, quando começa a gostar do que escreveu, não vai bem. Tem que achar que tudo está uma merda. E quase sempre é.

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