Mossoró-RN, domingo 28 maio de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Fazenda Santa Fé

- Estamos chegando, estamos chegando!

A caminho da Fazenda Santa Fé, em Cigano, já bem próximos de lá, eu e minhas irmãs disputávamos qual de nós veria primeiro o sol. O sol que já se chegava de mansinho, correndo o matagal, se filtrando entre as folhas, escondido atrás da grande árvore, se mostrando por trás do umbuzeiro.

- Vamos chegar a tempo de beber leite no curral.

A espera se tornava nervosa, ansiosa. Qual de nós veria, primeiro, a cerca que limitava a nossa fazenda, que a abrangia por inteiro? Quando ela surgia, as palmas estouravam. A alegria ainda se tornava maior quando a carroça parava, os animais se detinham, meu Pai apeava e ia abrir a porteira. Em cima, na placa, pintadas de azuis, as grandes letras: Fazenda Santa Fé.

Meu Pai sorria. E o seu olhar de dono começava a abranger cada palmo de terra, a verificar o estado de cada mourão, a querer entender, pelos rastros e pegadas, a passagem dos bichos. Aborrecia-se se descobria sinal de derrubada. Enfurecia-se se tinha pela frente os restos de uma queimada proibida. Já chegavam até nós, o rumor dos animais, o mugido das vacas que se encaminhavam para o curral mais próximo da casa principal, o balido das ovelhas que corriam, o relinchar de cavalos e jumentos, o grito rouco, grave, cantado, do nosso vaqueiro Chico Corôco.

Agora eram as primeiras casas que surgiam. Margeando a estrada. Todos já estavam acordados. Os homens tiravam o chapéu, meu Pai tirava o chapéu. Nós saudávamos com acenos a meninada que já se derramava pelo oitão, que pulava daqui para lá. As mulheres gritavam das pequenas janelas de suas caixas de fósforos:

- É comadre Dolores.

Minha Mãe as saudava:

- Apareça mais tarde, comadre.

A carroça continuava. Agora menos rápida, mais preguiçosa. Tia Mira sorria, guardava a lata de bolachas contra a nossa voracidade.

- Se comem agora, não têm mais vontade de beber o leite.

Quando a carroça parava diante da casa-grande, no alpendre bem varrido, saltávamos aos pulos. A família de Chico Corôco nos esperava reunida. As mulheres desciam. Meu Pai fazia perguntas, a gente embarafustava pela casa adentro, derrubando tamboretes, espalhando cestas pelos corredores, indo espantar galinhas no quintal.

A fazenda de meu Pai ficava no lugar chamado Cigano, município de Mossoró, pertinho da serra do mesmo nome. Depois que eu conheci as grandes fazendas de São Paulo e, até mesmo, as grandes fazendas do Nordeste, compreendi haver um certo eufemismo, um certo exagero em chamar de fazenda a Santa Fé de meu Pai. Na realidade, seria uma grande chácara. Nunca maior, nunca mais importante do que uma vasta chácara. Mas era ali, naquele punhado de terras, que meu Pai se sentia mais realizado, mais dono de seu destino, mais pessoa humana, mais gente. Era ali que ele encontrava a alegria de viver, ali, sem dúvida, que ele gostaria de viver para sempre, todos os seus dias. Ali, debaixo de uma grande árvore, à sua sombra, que ele haveria de querer ser sepultado, dormir profundamente. Bastava o ar da fazenda, os problemas da fazenda, o contato com a simplicidade dos vaqueiros, o cheiro de terra, para que ele se transformasse. Tudo ali constituía o seu ideal de felicidade. Ali estavam, um a um, todos os elementos que, segundo ele, garantem a humanidade, fazem a vida mais digna de ser vivida. Ali os animais, a vacas, os bois e touros, as cabras e os bodes, as ovelhas. Ali os passarinhos soltos, sem gaiola, confiantes, entregues aos seus cantos. Ali a terra bruta, desafiadora. Ali as árvores, as águas dos riachos e açudes, as noites longas iluminadas pela lua ou pelas estrelas que aos milhões cobriam o céu amplo e baixo. Ali os homens sem malícia, de conversas simples, capazes de raras delicadezas, unidos pela solidariedade mais natural, respeitadores, corajosos, incapazes de mentiras e trapaças, incapazes de bajulações. E os frutos da terra. A liberdade. Os amplos horizontes. Um ponto de repouso, um ponto de afastamento do bulício da cidade, da luta do dia-a-dia.

Todo o mês de junho, passávamos ali. Cada qual na sua ocupação.

Meu Pai acordava cedinho, montava a cavalo e partia em companhia do vaqueiro. Ia olhar a sua propriedade, dar ordens, ouvir explicações. Ia visitar os seus moradores e os moradores das fazendas vizinhas. Tomar café nas suas casas, apear-se para o dedinho de prosa, levar remédio para as reses doentes, providenciar o dia da marcação das vacas, ajudar os vaqueiros a trazer os bichos para os currais, galopando no seu cavalo branco, treinando tiro ao alvo.

Minha Mãe ficava no trabalho da casa. As conversas estiradas com as mulheres das vizinhanças, todas suas comadres. O tacho grande de doce de leite, o milho para a canjica e a pamonha, o banho no riacho próximo, a visita dos vizinhos.

As crianças se entregavam às brincadeiras, da manhã à noite. Tudo começava com o leite matutino tomado no curral. Íamos para lá ainda de camisolas e pijamas. O vaqueiro já tinha a vaca peada, de cócoras ou sentado nos calcanhares começava a ordenha. Estendíamos os nossos copos e bebíamos um, dois copões de leite com espuma. Espuma grande, fervente, que deixava brancos bigodes em todos nós. O almoço era servido no quintal. Assim também, o jantar. Quando chegava a noite, estávamos mortos de cansaço. As redes se estendiam por todo o alpendre. A rede de meu Pai, a rede de minha Mãe, as redes de cada um de nós. No caibro, o farol, ou seja, a luz mantida a gás, bruxoleante, fraca demais para a iluminação total, suficientemente para nos guiar os passos. Os moradores se aproximavam. Sentavam no chão, se espremiam nos bancos, se agachavam por toda parte. As conversas eram intermináveis. Falavam do tempo, das esperanças de chuva, do medo da seca, da vaca parida, da rês que não voltou à tarde, da festa em preparo, da perspectiva da colheita, das cercas furadas, da onça que estava comendo os carneiros. Alguns contavam histórias de lobisomem, de assombrações nas estradas. A gente se apertava nos lençóis e tapava os ouvidos. Minha Mãe fazia perguntas, provocava respostas, especulava. Queria saber de tudo, saber de todos. Da filha do morador, dos seus namoros, da doença da comadre, do parto próximo.

Tudo era festa na em Cigano, na Fazenda Santa Fé, no tempo da minha meninice...

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