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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Fazenda Santa Fé
- Estamos chegando, estamos chegando!
A caminho da Fazenda Santa Fé, em
Cigano, já bem próximos de lá, eu e minhas irmãs disputávamos
qual de nós veria primeiro o sol. O sol que já se chegava
de mansinho, correndo o matagal, se filtrando entre
as folhas, escondido atrás da grande árvore, se mostrando
por trás do umbuzeiro.
- Vamos chegar a tempo de beber leite
no curral.
A espera se tornava nervosa, ansiosa.
Qual de nós veria, primeiro, a cerca que limitava a
nossa fazenda, que a abrangia por inteiro? Quando ela
surgia, as palmas estouravam. A alegria ainda se tornava
maior quando a carroça parava, os animais se detinham,
meu Pai apeava e ia abrir a porteira. Em cima, na placa,
pintadas de azuis, as grandes letras: Fazenda Santa
Fé.
Meu Pai sorria. E o seu olhar de dono
começava a abranger cada palmo de terra, a verificar
o estado de cada mourão, a querer entender, pelos rastros
e pegadas, a passagem dos bichos. Aborrecia-se se descobria
sinal de derrubada. Enfurecia-se se tinha pela frente
os restos de uma queimada proibida. Já chegavam até
nós, o rumor dos animais, o mugido das vacas que se
encaminhavam para o curral mais próximo da casa principal,
o balido das ovelhas que corriam, o relinchar de cavalos
e jumentos, o grito rouco, grave, cantado, do nosso
vaqueiro Chico Corôco.
Agora eram as primeiras casas que
surgiam. Margeando a estrada. Todos já estavam acordados.
Os homens tiravam o chapéu, meu Pai tirava o chapéu.
Nós saudávamos com acenos a meninada que já se derramava
pelo oitão, que pulava daqui para lá. As mulheres gritavam
das pequenas janelas de suas caixas de fósforos:
- É comadre Dolores.
Minha Mãe as saudava:
- Apareça mais tarde, comadre.
A carroça continuava. Agora menos
rápida, mais preguiçosa. Tia Mira sorria, guardava a
lata de bolachas contra a nossa voracidade.
- Se comem agora, não têm mais vontade
de beber o leite.
Quando a carroça parava diante da
casa-grande, no alpendre bem varrido, saltávamos aos
pulos. A família de Chico Corôco nos esperava reunida.
As mulheres desciam. Meu Pai fazia perguntas, a gente
embarafustava pela casa adentro, derrubando tamboretes,
espalhando cestas pelos corredores, indo espantar galinhas
no quintal.
A fazenda de meu Pai ficava no lugar
chamado Cigano, município de Mossoró, pertinho da serra
do mesmo nome. Depois que eu conheci as grandes fazendas
de São Paulo e, até mesmo, as grandes fazendas do Nordeste,
compreendi haver um certo eufemismo, um certo exagero
em chamar de fazenda a Santa Fé de meu Pai. Na realidade,
seria uma grande chácara. Nunca maior, nunca mais importante
do que uma vasta chácara. Mas era ali, naquele punhado
de terras, que meu Pai se sentia mais realizado, mais
dono de seu destino, mais pessoa humana, mais gente.
Era ali que ele encontrava a alegria de viver, ali,
sem dúvida, que ele gostaria de viver para sempre, todos
os seus dias. Ali, debaixo de uma grande árvore, à sua
sombra, que ele haveria de querer ser sepultado, dormir
profundamente. Bastava o ar da fazenda, os problemas
da fazenda, o contato com a simplicidade dos vaqueiros,
o cheiro de terra, para que ele se transformasse. Tudo
ali constituía o seu ideal de felicidade. Ali estavam,
um a um, todos os elementos que, segundo ele, garantem
a humanidade, fazem a vida mais digna de ser vivida.
Ali os animais, a vacas, os bois e touros, as cabras
e os bodes, as ovelhas. Ali os passarinhos soltos, sem
gaiola, confiantes, entregues aos seus cantos. Ali a
terra bruta, desafiadora. Ali as árvores, as águas dos
riachos e açudes, as noites longas iluminadas pela lua
ou pelas estrelas que aos milhões cobriam o céu amplo
e baixo. Ali os homens sem malícia, de conversas simples,
capazes de raras delicadezas, unidos pela solidariedade
mais natural, respeitadores, corajosos, incapazes de
mentiras e trapaças, incapazes de bajulações. E os frutos
da terra. A liberdade. Os amplos horizontes. Um ponto
de repouso, um ponto de afastamento do bulício da cidade,
da luta do dia-a-dia.
Todo o mês de junho, passávamos ali.
Cada qual na sua ocupação.
Meu Pai acordava cedinho, montava
a cavalo e partia em companhia do vaqueiro. Ia olhar
a sua propriedade, dar ordens, ouvir explicações. Ia
visitar os seus moradores e os moradores das fazendas
vizinhas. Tomar café nas suas casas, apear-se para o
dedinho de prosa, levar remédio para as reses doentes,
providenciar o dia da marcação das vacas, ajudar os
vaqueiros a trazer os bichos para os currais, galopando
no seu cavalo branco, treinando tiro ao alvo.
Minha Mãe ficava no trabalho da casa.
As conversas estiradas com as mulheres das vizinhanças,
todas suas comadres. O tacho grande de doce de leite,
o milho para a canjica e a pamonha, o banho no riacho
próximo, a visita dos vizinhos.
As crianças se entregavam às brincadeiras,
da manhã à noite. Tudo começava com o leite matutino
tomado no curral. Íamos para lá ainda de camisolas e
pijamas. O vaqueiro já tinha a vaca peada, de cócoras
ou sentado nos calcanhares começava a ordenha. Estendíamos
os nossos copos e bebíamos um, dois copões de leite
com espuma. Espuma grande, fervente, que deixava brancos
bigodes em todos nós. O almoço era servido no quintal.
Assim também, o jantar. Quando chegava a noite, estávamos
mortos de cansaço. As redes se estendiam por todo o
alpendre. A rede de meu Pai, a rede de minha Mãe, as
redes de cada um de nós. No caibro, o farol, ou seja,
a luz mantida a gás, bruxoleante, fraca demais para
a iluminação total, suficientemente para nos guiar os
passos. Os moradores se aproximavam. Sentavam no chão,
se espremiam nos bancos, se agachavam por toda parte.
As conversas eram intermináveis. Falavam do tempo, das
esperanças de chuva, do medo da seca, da vaca parida,
da rês que não voltou à tarde, da festa em preparo,
da perspectiva da colheita, das cercas furadas, da onça
que estava comendo os carneiros. Alguns contavam histórias
de lobisomem, de assombrações nas estradas. A gente
se apertava nos lençóis e tapava os ouvidos. Minha Mãe
fazia perguntas, provocava respostas, especulava. Queria
saber de tudo, saber de todos. Da filha do morador,
dos seus namoros, da doença da comadre, do parto próximo.
Tudo era festa na em Cigano, na Fazenda
Santa Fé, no tempo da minha meninice...
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