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Um
vidente diferente
BRUNO VIANA Da
Redação
Nos confins de Porto
do Mangue, mais precisamente no distrito Logradouro,
depois de um caminho difícil, com dunas, muito mato
e áreas totalmente desabitadas, mora, há 66 anos, uma
figura simples e popular: o vidente Chico Cocada.
Com 78 anos completados
no último dia 28 de abril, Francisco da Rocha recebeu
a reportagem do O Mossoroense numa pequena e modesta
sala ornamentada com quadros de imagens cristãs, separado
da equipe por uma espécie de grade feita com madeira
de carnaúba.
Na mesma sala, Chico
Cocada atende seus "clientes" (as aspas se
justificam porque Chico não cobra pelas consultas).
Apesar de se declarar cristão e ser amigo de muitos
padres da região, ele utiliza conceitos de astrologia
para falar sobre a vida de quem o procura. As fases
da lua são mencionadas como fatores determinantes da
riqueza material que a pessoa terá.
"Quando a pessoa
é gerada no quarto crescente da lua, tem direito a 200%",
contou. A porcentagem é uma espécie de índice máximo
de fortuna, que varia entre 51% (para os mais pobres)
e 200% (para os mais ricos). "São quatro tipos
de classe: o rico, o pobre, o médio e o favelado. A
lua diz isso", disse.
O ritual da consulta
é simples: o cliente senta-se em frente ao vidente,
podendo vê-lo somente atrás da grade de madeira, coloca
a mão fechada em cima de um grande livro de capa preta
- semelhante a uma Bíblia - com uma imagem de
Nossa Senhora de Medjugorje (pronuncia-se "mediugóri").
Chico faz algumas orações e pede à pessoa para pensar
somente em Deus enquanto abre uma pasta posicionada
de forma que só ele consiga ver o conteúdo.
Ele revelou ao O Mossoroense
o que há dentro da pasta. Um grande espelho retangular
forra a parte interna da pasta e outros três pequenos
espelhos redondos ficam posicionados em cima do maior.
"Eu vejo tudo através destes espelhos", disse.
Depois de alguns segundos,
ele pede para o cliente retirar a mão e começa a falar
algumas coisas sobre a vida do interessado. Depois de
um certo tempo, o vidente pede ao cliente para colocar
a mão aberta no mesmo livro e passar mais alguns segundos
pensando em Deus.
Durante a conversa
que Chico Cocada tem com as pessoas que o procuram,
ele conta fatos do passado delas sem que elas precisem
dizer nada e fala sobre a sorte a que elas estão submetidas
no amor, nos negócios, no jogo, etc. "Tem muita
coisa certa que eu vejo que eu mesmo me admiro de saber",
disse.
O vidente é visitado
quase diariamente (ele atende de terça a sábado, das
6h às 17h, sem interrupção para almoço) por diversas
pessoas de todos os lugares do Rio Grande do Norte,
e algumas vezes, de outros estados.
Um dos principais motivos
pelos quais ele é procurado são as recomendações que
faz sobre a saúde dos clientes. Chico Cocada contou
que, pelos seus espelhos, ele pode ver o estado de saúde
de uma pessoa e ainda recomenda o uso de remédios -
geralmente naturais - para curar as doenças. "Eu
passo remédio caseiro. Eu conheço quando a doença tem
cura ou não tem", declarou.
"Não confio nos
médicos. Não adianta. Tudo indica que eu vou saber quando
tiver próximo. Não tem remédio que dê jeito", opinou.
Apesar de tudo isso,
Chico Cocada não se considera adivinho. "Sou um
curador, não profeta. Não sou cientista, não sou doutor.
Adivinha, só Jesus", diz um recado escrito em cartolina
na entrada da casa do vidente.
Chico também faz algumas
recomendações no cartaz. Ele avisa que não trabalha
com macumba e que não consulta pessoas através de fotos.
"Retrato mente muito porque não dá pra saber se
a pessoa tá viva ou morta", condena.
ERROS - Mesmo com toda
a popularidade, o curador admite que erra algumas vezes
e atribui as falhas à falta de Deus. "Tudo depende
da fé, e tem dia que a gente não tá preparado. Tem momento
que a gente tá sem Deus porque somos pecadores. Na realidade,
'cumpade', a influência de Deus é muito grande",
disse.
Dom de Chico foi descoberto aos
15 anos
O curador Chico Cocada nasceu em 28
de abril de 1928, na comunidade Lagoa do Piató, em Assú.
Casou-se duas vezes. Com a primeira mulher, ficou 20
anos. Com a segunda, está há 27 anos. Ele descobriu
o dom da vidência com 15 anos, quando já morava em Logradouro.
Ele disse que nessa época sonhava muito com coisas que
depois aconteciam.
“Meu pai dizia que precisava me levar
a um padre porque eu era um santo”, relatou. Segundo
ele, o padre que ele visitou disse que esse dom era
coisa da natureza, que Chico nascera com ele e não havia
o que fazer.
Quando começou a atender pessoas em
sua casa, ele chegou a se confessar com o Frei Damião.
“Ele me proibiu de dar preço. Disse: faça seu serviço,
continue lá, mas não dê preço. Bote uma urnazinha no
seu lugar. Quem quiser dar, que dê. Quem não der, deixe
pra lá”. Nesse período, Chico Cocada trabalhava com
espiritismo e Frei Damião recomendou que ele deixasse,
o que fez prontamente.
Pelas ornamentações da saleta onde
recebe seus clientes, pode-se perceber que o vidente
é católico. “Uma vez chegou um rapaz da Bahia aqui dizendo
que era xangozeiro de lá, que trabalhava com todas as
linhas. Eu disse que só tem duas: o certo e o errado.
Ele disse que tinha uns espíritos que sabiam de coisas
e que passavam pra ele, mas não existe isso. Deus disse:
maldito o homem que adivinha diante de mim”, contou
Chico.
Ainda nesta conversa, ele desafiou
o “xangozeiro” a receber um espírito e dizer o que havia
dentro de sua pasta preta, mas o baiano não conseguiu
descobrir que eram os espelhos.
Chico Cocada, apesar de analfabeto,
é considerado muito sábio pela comunidade, mas também
aprende algumas coisas com seus clientes, como no caso
contado sobre um japonês que foi visitá-lo. “Eu disse
que não sabia falar japonês, mas ele falava em ‘brasileiro’.
Eu perguntei se o Japão era embaixo do chão e ele foi
me mostrar pegando como exemplo essa lata”, lembrou,
pegando uma lata de leite em pó e tentando reproduzir
a explicação dada pelo oriental.
NOME - O Chico Cocada, batizado como
Francisco da Rocha, não sabe explicar com precisão a
origem do apelido. “Eu não sei dizer porquê, eu peguei
de papai (o pai dele também tinha esse apelido). Eu
acho que o pai dele comprou uma fazenda só para fazer
cocada. Por conta disso, começou esse negócio de ‘Cocada’”,
contou.
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