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Força da terra

Vera Fischer

Vera Fischer imaginou que depois do final de “O Clone”, em junho de 2002, não voltaria tão cedo à tevê. A atriz pretendia se dedicar ao teatro e passar pelo menos dois anos longe das novelas. Mas foi justamente o perfil “cabecinha-de-vento” de Yvete, sua personagem na trama de Glória Perez, que a levou a aceitar o papel da protagonista de “Agora é que São Elas”. A forte, determinada e batalhadora Antônia não lembra em nada a fútil Yvete, que usava seu poder de sedução para conseguir os mais diversos “favores financeiros” de seu amado Leônidas, vivido por Reginaldo Faria. “Depois de uma tolinha, uma bobinha completamente louca, é um bom exercício pegar uma personagem desta natureza”, justifica a atriz.

Vera faz questão de dizer que a líder da fictícia São Francisco das Formigas tem muito de sua própria personalidade. Mas é a primeira vez ela aparece nas telas sem o “glamour” que sempre cercou suas personagens. O ambiente rural da trama é novidade na carreira da atriz, mais habituada a interpretar mulheres sofisticadas, urbanas e rodeadas de admiradores. Mesmo assim, ela garante que tem se sentido absolutamente à vontade, principalmente porque, na vida pessoal, dedica boa parte de suas atenções ao sítio que montou em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. “Gosto de lidar com as plantas, cuidar da horta, tratar dos cachorros. A Antônia tem me remetido muito à minha vida pessoal”, comenta.

Nada que se compare, no entanto, à sensação de realizar o parto de uma porca, tarefa na qual a atriz garante ter se saído muito bem. “Ela grita muito e a gente não sabe como lidar com isso. Mas dei conta do recado”, acredita. A cena foi uma das primeiras que a atriz gravou e serviu para integrá-la ao cenário da personagem - que vai aparecer realizando as mais diversas tarefas na fazenda e no curtume que administra. Apesar do perfil rural da trama e do trabalho de Antônia, a atriz não se preocupou com a composição da personagem e fez questão de não mexer em seu visual. “Acho que buscar um personagem pelo visual é meio ‘fake’. A gente tem de mudar é por dentro”, justifica Vera, que, na época de “O Clone”, não aceitou usar os recursos de envelhecimento aplicados ao elenco na segunda fase da trama.

Compor personagens, aliás, é algo que a atriz admite fazer sempre apenas com os recursos que tem à mão, ou seja, sua própria experiência de vida. Ela assume com naturalidade que não fez nenhum tipo de preparação para viver a heroína de Ricardo Linhares, processo que se repete em todos os seus trabalhos. “Faço sempre com base na minha própria pessoa. Em tudo que tenho de errado, ingênuo, sensual, arrogante, de mulher ou de menina”, enumera. Para Antônia, ela diz ter emprestado seu sentido humanitário e sua retidão de caráter, duas das características que vão fazê-la enfrentar os desmandos do prefeito Juca Tigre, vivido por Miguel Falabella.

O fato de estar levando ao público uma crítica sobre o descaso dos governantes e uma declaração da força da mulher é comemorado pela atriz como quem levanta uma bandeira. Vera não se cansa de repetir que está num folhetim, mas falando sobre problemas relevantes do dia-a-dia. “As mulheres se defendem da falta de luz, do esgoto que vaza pela cidade, dos buracos que não são fechados. Tudo isso a gente vive de verdade”, discursa.

É no mesmo tom que a atriz defende a possibilidade de mostrar cenas mais “sensuais” no horário das 18 h. A única diferença é que, aí, ela esquece o discurso politicamente correto e reassume a personalidade habitualmente polêmica. “As crianças hoje em dia vêem televisão até bem mais tarde”, minimiza. Com ares de estrela que influencia os rumos das novelas em que atua, Vera garante que a trama vai ter cenas de amor “para valer”, com direito a muita sensualidade e até cenas de nu. “Temos de acabar com este pudor. As mulheres que estão em casa a esta hora querem ver estas cenas e nós temos de mostrar para elas”, reivindica, como se lutasse pelos direitos das mulheres de São Francisco das Formigas. E sem medo das controvérsias. “Isso é tudo o que a gente quer”, entrega, num sorriso escancarado.

Fase família

Um dos aspectos que mais têm atraído a atenção de Vera Fischer em sua nova personagem é a relação de Antônia com a filha mais velha, Léo, interpretada por Débora Falabella. A jovem atriz, com quem já tinha contracenado em “O Clone”, é alvo de grandes elogios de Vera, mas o motivo não é só esse. A atriz se julga num momento extremamente maternal. Por isso, muito lhe agrada viver na telinha os conflitos típicos da relação entre pais e filhos. “É uma relação às vezes difícil, mas absolutamente maravilhosa. E as pessoas se identificam com isso”, explica.

Antônia é mãe de três filhos, mas é com Léo que a atriz acredita explorar mais a fundo as possibilidades de diálogo entre mãe e filha. “Ela são iguaizinhas, brigam pelas mesmas coisas, falam a mesma língua”, define. Por outro lado, os outros dois filhos dão à atriz a oportunidade de expor dois outros lados maternos. “Com o Bruno, o filho rebelde, ela é a educadora, e com a Maria Clara é a amiga, que brinca de boneca”, compara a atriz, lembrando os personagens de Daniel Ávila e Camile Heiss.

 Na vida pessoal, a atriz também está inteiramente dedicada aos filhos - Rafaela, do casamento com Perry Salles, e Gabriel, da união com Felipe Camargo. Os dois são o grande motivo apontado por Vera para não mais tentar conciliar teatro e tevê, como já fez em outras fases da carreira. “A Rafaela já é uma moça, tenho de olhar bem para ela, e o Gabriel ainda precisa muito dos meus cuidados”, justifica.

Instantâneas

# A única experiência de Vera Fischer no horário das 18 h foi uma participação no “remake” de “Pecado Capital”, em 1998. Ela foi chamada às pressas para alavancar a audiência da trama, mas os índices se mantiveram em torno dos 28 pontos.

# Em 1995, Vera Fischer não concluiu as gravações da novela “Pátria Minha”, de Gilberto Braga. Ela foi afastada por indisciplina.

# Para voltar à telinha em “Agora é que São Elas”, Vera Fischer fez dieta e emagreceu oito quilos. “Na televisão, tudo fica maior. A gente tem de diminuir para caber na tela”, brinca a atriz.

# Há cerca de seis anos, Vera Fischer iniciou a produção de um espetáculo teatral e convidou Miguel Falabella para a direção. O texto era “O Leque de Lady Windermere”, de Oscar Wilde, mas o projeto acabou engavetado. “Nós queríamos fazer um verdadeiro happening no Rio de Janeiro e a prefeitura negou o apoio”, lembra a atriz.

# Vera Fischer ganhou projeção nacional ao vencer o concurso Miss Brasil em 1969. Em “Agora é que São Elas”, Marisa Orth é quem interpreta uma ex-miss. “Ela tem um quê de miss que eu não tinha, encarna a futilidade, aquela coisa de quem gira em torno da própria beleza”, comenta.

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Mossoró-RN, domingo, 30 de março de 2003