Mossoró-RN, domingo 1º junho de 2008

A PALAVRA DE DORIAN

A família de meu pai

São Paulo, maio de 1971.

O que me liga, hoje, à família de meu Pai? Pouca coisa. Pouquíssima coisa. Se sempre estivemos longe, hoje estamos ainda mais distantes. Moramos em cidades longínquas, temos tarefas - e preocupações - diferentes. Além do mais, na mor parte, os Freire de Andrade são secos, extremamente discretos, fechados nos seus mistérios, avaros no bem-querer. Embora constituam gente boa, temente a Deus, simples.

Não os julgo, Deus me livre. Respeito-os como são.

A avó Olympia, que nasceu em 4 de março de 1870 e morreu em 4 de dezembro de 1967, às portas dos 98 anos, batizou-se na Igreja do Bomfim, tendo como padrinho o Vigário Antônio Joaquim, e foi crismada por Dom Luiz - aquele primeiro bispo do Ceará, que também crismara o meu avô João Freire. Dela e de João, a partir de 1892, foram nascendo os filhos. João, José, Julinha, Julieta, Julita, Judith, Josina, Josefina, meu Pai Jorge, Josabeth, Alice, Júlio, Jaime, outro Jaime, Juraci e Jaire.

Não a conheci bem. Mas desejaria tê-la conhecido. Embora a tenha visto muitas vezes, em Mossoró e no Aracati, nunca fomos por demais próximos. Talvez porque morasse em cidade diferente da minha. Talvez porque não fosse de muita afetividade, embora tenha sido minha madrinha de batismo. Correspondia-se com meu Pai, a letra firme, bem desenhada, o permanente apelo para que o filho voltasse à religião, que entendia como queda aos pés do confessor. No fim de suas cartas, vagas referências à nora e aos netos.

Morto meu Pai, duas vezes fui vê-la em Aracati. Homenagem a ele, mais do que a ela. Da última vez, estava calada, parada, pesada, cega. Parecia incorporada à velha mobília da casa antiga, ao musgo dos muros, às cadeiras velhas, às velhas imagens de santos que as tias, atropelando a evidência, negaram ao sobrinho que existissem. Na boca, apenas um dente, enorme, saliente, desfigurador. Alguém lhe gritou aos ouvidos o meu nome ("é o filho de Jorge!) e uma lágrima rolou na sua face antiga, descendo de seus olhos mortos.

Fecho os olhos e a vejo de preto, gorda e séria, fazendo labirinto, rezando, ouvindo mais do que falando, isenta. Acima das contingências. E, para o meu gosto, muito acima das pessoas. Uma Caminha, muito mais do que uma Freire de Andrade...

Lembro outros, tantos.

O velho tio Zezinho, de descendência tão numerosa, que assumiu a chefia da família por morte de João Freire, que foi vereador, dono do jornal e da tipografia, dono de padaria. Meu Pai o respeitava e estimava, embora discordasse da orientação que deu ao velho O Jaguaribe. Minha Mãe o queria muito: "Saiu ao velho João Freire".

Também conheci, menos do que desejaria, os tios Jaime, Júlio, Jaire (que chamamos de Jareco).

Tio Júlio tinha os olhos azuis, era alegre como todos os boêmios, de uma simpatia esfuziante, gostava de futebol, morreu muito cedo, mal de coração. Foi pai de muitos filhos, dentre os quais Evandro (afilhado de meus Pais, que casou com uma filha de tio Jareco) e Magdalena (a quem me ligam as saudades da adolescência).

Tio Jaime era moreno, sério, rigoroso, sincero. Nas divergências que distanciaram o meu Pai do jornal e até do Aracati, ficou com o meu Velho.

Tio Jareco, casado com a simpaticíssima tia Elze, conheci no Rio, em 1955. Mais fechado do que o meu Pai.

Das tias, tia Josina é minha madrinha não sei de que. Talvez de apresentação. Tia Julinha, tia Julita, tia Alice não casaram. A última, coitadinha, morreu de câncer, no começo de 1969. Tia Julinha é uma senhora também muito rígida, de poucos gestos e palavras, "muito sincera" na opinião de minha Mãe. Tia Julita, muito religiosa, é toda simpatia.

As outras tias, conheci melhor.

Tia Julieta morava em Mecejana, Fortaleza, casada com Miguel Santiago Gurgel, catolicão, antigo prócer da UDN, provedor da Santa Casa, antigo dirigente do Instituto de Previdência do Ceará. Recordo de ambos. Ela, muito amiga. Ele, muito aberto, muito bonachão, sentado ou deitado na rede, soltando peidos.

Tia Josefina, que chamávamos de Finfina, morava em Mossoró e, naturalmente, esteve mais ligada a todos nós, nos encontros e desencontros. Suas filhas foram algumas de minhas amigas de infância, especialmente Sônia e Marlene. O casamento de uma delas - Maria Ivone - com Jeremias, irmão de minha Mãe, e, logo em seguida, o desquite, separou, infelizmente, as nossas famílias. Seu filho Hugo é casado com uma prima legítima de minha mulher.

Da gente materna, a figura primeira que surge nas minhas lembranças é a de Belisária Alves do Couto, terceira e derradeira mulher de Jeremias Soares do Couto. Casou menina e escondia, do marido e das enteadas, as suas bonecas. Quando todos saíam, conversava com elas. Balançava-as nos braços, antes de neles proteger os filhos de seu amor. Sua legenda de severidade, vento forte correndo pelas lembranças antigas, veio depois. Não a vejo matriarca poderosa, severa. Mas bisavó muito querida. Esguia, longos cabelos de prata, fumando cigarros fortes (o mata-ratos Itaú, da fabricação local de Raimundo Jovino), lendo aventuras medievais. O livro "A Toutinegra do Moinho" não lhe saía das mãos finas. Nem as obras de Júlio Diniz. Ao cair da noite, na espera do marido, desfiando a cabeleira longa, cantava poemas de Castro Alves - "Não chores criança/Estou louco de amores/Perdi meus afetos/Formosa Pepita..." Morava vizinho a nós, parede e meia. E exercia sobre todos, vim a saber depois, autoridade incontestável e incontestada. Pertencia a todas as associações pias da cidade. Era, a um só tempo, mãe cristã, filha de Maria, adoradora do Santíssimo, dama de caridade. Com fitas, medalhas, diplomas, santinhos...

Eu era o seu Dó e amava liberar seus cabelos da servidão da marrafa, vê-los cair à sua cintura, lisos e finos, lindos. Quando chegava em nossa casa, uma vez por dia, corria a abraçá-la. A cadeira de balanço, de palhinha entrançada, era dela. E ela tinha que assistir às representações de meus dramas. Os mesmos, sempre. Ouvia, batia palmas, comentava, ria. Outras vezes, indisposta, mal eu me esgueirava para preparar a pantomina, fugia. Retornando à sua cadeira de vime, aos cigarros fortes, à Toutinegra, às lamentações de Pepita.

Lembro de quando morreu. Dia e enterro. A procissão seguindo o caixão, mulheres com fitas nos pescoços, estandartes das associações, homens graves, padre Mota puxando o terço, grunhindo Ave-Maria. Até muito tempo depois, senti remorso por não haver chorado. Minto: por não haver sentido a sua morte. Talvez porque não a tenha visto defunta, ataviada, consumada na mortalha roxa, as mãos de cera sustentando o terço, os olhos fundos. Não alcançando a significação do nunca mais. Não entendendo que a morte da velha Belisária, da minha Mamãe Dona, era o fim de um pedaço quente da minha primeira inocência.

Do marido Jeremias, as notícias são mais escassas. Casou a primeira vez com Maria da Penha, havendo Antonio (Totô), Luiz, Enéas, Biia e Josefa, esta última mulher de Antonio Soares de Góes, mãe de José Soares e do doutor Antonio Soares Júnior, prefeito de Mossoró e meu padrinho de crisma. A segunda vez, casou com Maria Gamelo de Oliveira, havendo Delmira e Alexandre (este pai de Doca Couto, da rodinha do Café Tavares, companheiro do padre Mota, de Jorge Freire, de Escossinha e Lauro Escóssia, de Antonio Cirilino, de Hemeterinho Fernandes). A terceira, com Belisária - havendo Enéas (advogado, dono de cartório no Rio, falecido na década de 60), Virgília, Elvira, Adélia, Guiomar, Odília e meu avô João Capistrano.

Conheci Elvira (tia Má), Delmira (tia Mira), Biia. Estas, solteironas e analfabetas. Tia Mira ia conosco para a fazenda e a praia, fazia mel de rapadura, queria sempre que lhe fizéssemos as cartas. Morreu tísica, mas falando que apenas sofria de "puxado nos peitos". Biia morreu de velha, no Abrigo Amantino Câmara, brigando, descompondo, comungando até cinco vezes em cada missa. Tia Má morreu de câncer, deixando família numerosa.

Da gente materna, as notícias são menores. Não houve os cuidados das anotações de meu Pai. O pouco que sei, sei pela leitura de O Mossoroense, pelas anotações escritas por Francisco Fausto, o historiador de Mossoró. Com dificuldade alcanço pista. Tenho como provado, no entanto, que, como todas as velhas famílias de Mossoró, a minha provém da cepa portuguesa. De portugueses de lenço na cabeça, tamanco nos pés. São Guilherme de Melo, Cambôa, Azevedo, Souza, Nogueira, Soares, Couto, Alves, Reis.

O tronco começou com Guilherme de Melo, casado com Ana Maria, do agreste potiguar, aparecido na metade do século XVIII em Taboleiro Grande, às margens do rio Upanema. Era procurador da fazenda do aparentado coronel José do Rego Barros, que morava em Natal.  Dele vem a descendência numerosa como as estrelinhas do céu. Do filho único, Manuel, que casou com Ana Rita, nasceram Simão, Manuel, João Joaquim, José Maria, Estevão, Geraldo e Ana Rita. Simão, nascido no século XVIII, morreu no século seguinte, casado com Inácia Maria da Paixão, teve muitos filhos. Um deles, o famoso padre Francisco Longino, nascido em 1802, foi suspenso das ordens em 1841, por causa das brigas com a família Ferreira Butrago, viajou para o Ceará, o Maranhão e o Piauí e só voltou a Mossoró em 1872, cego, para morrer em 1879. Foi figura discutida. Homem de valentia invulgar. Dizem que mais cangaceiro do que ministro do Senhor. A Igreja, até hoje, se escusa de falar dele.

Outros filhos ilustres de Simão: Manuel Soriano, professor, coronel, comandante da Guarda Nacional; Simão Balbino, amigo do Vigário Antônio Joaquim, em Mossoró foi delegado, juiz, vereador, e de seu casamento com a sobrinha Cosma Damiana vieram os Bezerra de Medeiros; Josefa, que era casada com Manuel Gamelo, foi mãe de Felismina Cândida, a mulher de Francisco de Borja, o famoso Joca Soares que foi patriarca de Areia Branca.

O tronco Guilherme de Melo se enrijece, se espalha. De Manuel Guilherme de Melo e Geralda Joaquina Fraga, nasceu Miguel Arcanjo, tenente-coronel, conhecido como Coronel Miguelinho, vereador conservador, dono do terreno onde hoje é o cemitério. Morreu em 1888 ou 1889, pobre de Job. Dele vem os Leite e Rebouças. Depois, um Laureano, que foi pai de um José Mentor, "o que primeiro explorou o babaçu", casado com uma Couto, pai do advogado Aldi. E temos Geraldo, nascido em 1815, morto em 1889, delegado e juiz. E Francisca Rosa, casada com o açoriano Antonio Soares do Couto. E Manuel, que, casado com Maria Gamelo de Oliveira, foi pai de Ana, mulher de André Cursino de Medeiros, avós paternos de minha mulher.

O sangue se entrelaça, então. E corre até hoje...

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