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Aruá metido a besta
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
Era o grande negócio da vida de muita
gente. Um caramujo que se reproduzia facil-mente; punha
de duzentos a quatrocentos ovos a cada dois meses, chegava
a pesar duzentos gramas e poderia substituir o escargot
no fino cardápio dos finos restaurantes franceses.
Só não sei por que ninguém nunca desconfiou;
se era tão lucrativo assim, por que os próprios africanos
lá do norte/nordeste do Continente Negro, que convivem
a vida toda com os bichos, como a gente convive com
os nossos caramujos aruás, não vendiam diretamente para
os europeus? Logo eles que estão entre os poucos povos
dessa terra de meu Deus mais necessitados que nós brasileiros?!
Não foi um nem dois produtores que
apostaram ter descoberto o caminho para a fortuna. Antes
de o camarão virar moda a imprensa do Rio Grande do
Norte - acho que todos os veículos de comunicação -,
abriu espaços generosos para uma nova e lucrativa alternativa
econômica. E nem adiantava se animar a degustar a iguaria;
as matérias deixavam bem claro que a produção do Achatina
fulica seria destinada ao mercado externo.
Mas aí descobriram que a espécie era
um falso escargot e que, além de não ser comestível,
ainda transmitia doenças graves ao ser humano. O espaço
na imprensa, antes destinado à atividade comercial,
foi multiplicado, para atender às queixas da população,
aterrorizada com os bichos subindo nas paredes de suas
casas.
Folclorerongilíase meningoencefálica
humana e angiostrongilíase abdominal. O que danado é
isso? Quais os sintomas? Calma, não se tem notícia de
nenhum brasileiro que tenha sido contaminada a partir
do contato com o caramujo africano.
Os nomes das doenças eu pesquei na
Internet. Pesquei também que, diferente do que pensava
até o momento, a praga não é exclusiva dos terrenos
baldios e quintais das cidades potiguares da faixa litorânea.
As autoridades de saúde de praticamente todos os estados
brasileiros também estão enfrentando o mesmo problema.
Em todos os lugares as orientações para os moradores
das áreas infestadas são quase catastróficas:
"Para coletar os caramujos, as
mãos devem estar protegidas com luvas ou sacos plásticos
para evitar o contato da sua secreção com a pele humana.
Os caramujos deverão ser colocados em sacos plásticos,
amassados e jogados em latões ou, depois de amassados,
enterrados com cal virgem, para evitar a contaminação
do solo e do lençol freático". Ainda tem quem aconselhe
queimar os coitados antes de enterrá-los. Sinceramente,
nunca vi um bicho merecer uma morte tão cruel.
E o produtor potiguar que, descontente
com os rumos do negócio, teria, literalmente, jogado
todo o plantel no mato? Parece "história de trancoso".
De qualquer maneira, Brasil afora, a responsabilidade
pelo desastre ambiental pode ser creditada à irresponsabilidade
de alguns empresários. O caramujo africano teria sido
introduzido no início dos anos 80 em fazendas do interior
do Paraná e depois escapado para o meio ambiente. O
detalhe é que os bichos eram importados ilegalmente.
Alguém já parou para pensar no tamanho
do prejuízo que estes empreendedores deram à saúde pública?
E ao meio ambiente? Depois do desmatamento as espécies
invasoras são consideradas a segunda maior causa de
perda de biodiversidade na terra. Sem contar que o nosso
molusco, aruá que é, não vai ser páreo para o gigante
africano.
Pois é, aruá é sinônimo de gente besta,
lesada. Ô povo aruá! Fomos lesados... E nem provamos
o escargot.
Menos mal que temos a solução para
o problema. Bem distante das preconizadas pelas autoridades
de saúde:
Vem de Governador Dix-sept Rosado,
de uma história engraçada tantas vezes contada pelo
repórter cinematográfico Zenóbio Oliveira, assíduo freqüentador
da página de poesia deste caderno.
- A ôisa mais bonita que eu vi na
minha vida, foi uma bacorota na levada omendo aruá.
Oré oré oré...
Pra quem não entende a riqueza da
linguagem do sertão bacorota é uma bacurinha, ou leitoa.
O autor da frase é o agricultor Antonio Newton de Andrade,
conhecido na pequena cidade oestana como Shacon.
Não consigo evitar a lembrança deste
"causo" cada vez que me deparo com alguma
queixa de moradores ou alguma notícia sobre a praga
dos caramujos.
Então vamos arranjar umas bacorotas
para soltar nos terrenos baldios. Elas vão trabalhar
de graça para a Vigilância Sanitária.
Os moradores e agricultores afetados
pela sanha reprodutiva do caramujo africano, que como
todas as outras espécies apenas responde ao instinto
de sobrevivência, no lugar da indigesta missão de massacrar
os bichinhos com técnicas dignas de um campo de concentração,
poderão descobrir beleza na simplicidade de um porco
comendo moluscos. Oré, oré, oré...
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