Mossoró-RN, domingo 2 de julho de 2006

Antônio de Souza Machado

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Nas velhas crônicas da cidade aparece o nome do portu-guês Antônio de Souza Machado como fundador de Mossoró. Era dele a Fazenda Santa Luzia, o chão da cidade, e foi com seus cobres que a pequena capela ali foi erguida, em pagamento de promessa feita por dona Rosa Fernan-des, sua esposa. E ao redor da capela surgiu o pequeno povoado que se tornaria Mossoró.

Não se conhece muito sobre a figura de Souza Machado. Fragmentos de informações nos permitem traçar o perfil do português, num arremedo de biografia.

Antônio de Souza Machado nasceu no Arcebispo de Braga, Portugal. Filho legítimo de João Vieira de Souza Menezes e de dona Violante Maria Machado, ambos naturais daquele Arcebispado. Moço ainda, mudou-se para o Brasil, localizando-se na Ribeira do Jaguaribe do Ceará-Grande.

Casou-se com dona Rosa Fernandes, na freguesia de Russas, filha do português Domingos Fernandes, também de Braga, e de dona Jerônima da Silva, norte-riograndense. Foi agraciado com o título de Sargento-Mor, pelo Capi-tão-Mor do Ceará, em 21 de janeiro de 1783.

Souza Machado alongou os seus domínios pelo Rio Grande do Norte, até à Ribeira do Apodi. Situou fazendas de criar gado em Santa Luzia, Grossos, Panela do Amaro e em outros lugares. Da Santa Luzia tirava gado para as xarqueadas das "Oficinas", região que corresponde hoje a Grossos.

A Fazenda Santa Luzia irradiou todo o desenvolvimento da Ribeira onde o português vinha, a princípio, passar o inverno e depois se estabeleceu definitivamente.

Renato Braga, em trabalho transcrito na Revista do Instituto Histórico do Ceará, tomo LXI, de 1947, sob o título "Um capítulo esquecido da economia pastoril do Nordeste", escreveu:

"O período áureo da pecuária nordestina situa-se no século XVIII, quando flui generosamente a fonte das concessões territoriais e ultima-se o povoamento graças ao boi, cujo passo tardo mas persistente conquista as caatingas e o tapuio bravio, acolchetando economicamente, aqui como alhures, o sertão aos núcleos consumidores de periferia açucareira e do centro minerador. Na foz do Mossoró ficavam as fábricas fundadas, cerca de 1750, pelo abastado fazendeiro Sargento-Mor Antônio de Souza Machado, associado ao seu cunhado Capitão José Alves de Oliveira. O Sargento-Mor Souza Machado residia em Russas onde se consorciou".

O Cônego Francisco de Sales Cavalcante em estudos feitos sobre o Sargento-Mor Souza Machado, diz que "por essa época o mesmo deveria ter aproximadamente 47 anos de idade, do que se conclui que nascera por volta de 1703, tendo falecido em 1797 com cerca de 94 anos".

Não se sabe quando Souza Machado se transferiu definitivamente para sua fazenda Santa Luzia, mais em 1770 ele requer mais terras com a finalidade de alargar os seus domínios aumentando, por conseqüência, a fazenda que lhe pertencia neste ano.

 Em 1772, em cumprimento de promessa feita por intercessão de Santa Luzia, Antônio de Souza Machado e sua mulher Rosa Fernandes solicitam a Provisão das Dignidades do Cabido de Olinda/PE autorização para construção de uma capela na Fazenda Santa Luzia, permissão essa concedida a 5 de agosto de 1772. E a capela foi construída com os cruzados do Sargento-Mor e o auxílio dos devotos circunvizinhos, sendo o primeiro ato litúrgico celebrado em 25 de janeiro de 1773, quando foi batizada uma criança do sexo feminino, cerimônia essa oficiada pelo padre José dos Santos da Costa.

Com a construção da capela de Santa Luzia, dar-se a fixação do arraial, pois naquele ponto, além das casas residenciais da família do proprietário, erguiam-se dezenas de outras casas, todas de taipa e palha, sendo algumas cobertas com telhas de barro e outras com palha de carnaúba, na dispersão dos pequenos sítios perto das cacimbas cavadas periodicamente.

 E foi desse pequeno núcleo habitacional, sob as ordens do Sargento-Mor Antônio de Souza Machado, que nasceu Mossoró.

 

Aruá metido a besta

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Era o grande negócio da vida de muita gente. Um caramujo que se reproduzia facil-mente; punha de duzentos a quatrocentos ovos a cada dois meses, chegava a pesar duzentos gramas e poderia substituir o escargot no fino cardápio dos finos restaurantes franceses.

Só não sei por que ninguém nunca desconfiou; se era tão lucrativo assim, por que os próprios africanos lá do norte/nordeste do Continente Negro, que convivem a vida toda com os bichos, como a gente convive com os nossos caramujos aruás, não vendiam diretamente para os europeus? Logo eles que estão entre os poucos povos dessa terra de meu Deus mais necessitados que nós brasileiros?!

Não foi um nem dois produtores que apostaram ter descoberto o caminho para a fortuna. Antes de o camarão virar moda a imprensa do Rio Grande do Norte - acho que todos os veículos de comunicação -, abriu espaços generosos para uma nova e lucrativa alternativa econômica. E nem adiantava se animar a degustar a iguaria; as matérias deixavam bem claro que a produção do Achatina fulica seria destinada ao mercado externo.

Mas aí descobriram que a espécie era um falso escargot e que, além de não ser comestível, ainda transmitia doenças graves ao ser humano. O espaço na imprensa, antes destinado à atividade comercial, foi multiplicado, para atender às queixas da população, aterrorizada com os bichos subindo nas paredes de suas casas.

Folclorerongilíase meningoencefálica humana e angiostrongilíase abdominal. O que danado é isso? Quais os sintomas? Calma, não se tem notícia de nenhum brasileiro que tenha sido contaminada a partir do contato com o caramujo africano.

Os nomes das doenças eu pesquei na Internet. Pesquei também que, diferente do que pensava até o momento, a praga não é exclusiva dos terrenos baldios e quintais das cidades potiguares da faixa litorânea. As autoridades de saúde de praticamente todos os estados brasileiros também estão enfrentando o mesmo problema. Em todos os lugares as orientações para os moradores das áreas infestadas são quase catastróficas:

"Para coletar os caramujos, as mãos devem estar protegidas com luvas ou sacos plásticos para evitar o contato da sua secreção com a pele humana. Os caramujos deverão ser colocados em sacos plásticos, amassados e jogados em latões ou, depois de amassados, enterrados com cal virgem, para evitar a contaminação do solo e do lençol freático". Ainda tem quem aconselhe queimar os coitados antes de enterrá-los. Sinceramente, nunca vi um bicho merecer uma morte tão cruel.

E o produtor potiguar que, descontente com os rumos do negócio, teria, literalmente, jogado todo o plantel no mato? Parece "história de trancoso". De qualquer maneira, Brasil afora, a responsabilidade pelo desastre ambiental pode ser creditada à irresponsabilidade de alguns empresários. O caramujo africano teria sido introduzido no início dos anos 80 em fazendas do interior do Paraná e depois escapado para o meio ambiente. O detalhe é que os bichos eram importados ilegalmente.

Alguém já parou para pensar no tamanho do prejuízo que estes empreendedores deram à saúde pública? E ao meio ambiente? Depois do desmatamento as espécies invasoras são consideradas a segunda maior causa de perda de biodiversidade na terra. Sem contar que o nosso molusco, aruá que é, não vai ser páreo para o gigante africano.

Pois é, aruá é sinônimo de gente besta, lesada. Ô povo aruá! Fomos lesados... E nem provamos o escargot.

Menos mal que temos a solução para o problema. Bem distante das preconizadas pelas autoridades de saúde:

Vem de Governador Dix-sept Rosado, de uma história engraçada tantas vezes contada pelo repórter cinematográfico Zenóbio Oliveira, assíduo freqüentador da página de poesia deste caderno.

- A ôisa mais bonita que eu vi na minha vida, foi uma bacorota na levada omendo aruá. Oré oré oré...

Pra quem não entende a riqueza da linguagem do sertão bacorota é uma bacurinha, ou leitoa. O autor da frase é o agricultor Antonio Newton de Andrade, conhecido na pequena cidade oestana como Shacon.

Não consigo evitar a lembrança deste "causo" cada vez que me deparo com alguma queixa de moradores ou alguma notícia sobre a praga dos caramujos.

Então vamos arranjar umas bacorotas para soltar nos terrenos baldios. Elas vão trabalhar de graça para a Vigilância Sanitária.

Os moradores e agricultores afetados pela sanha reprodutiva do caramujo africano, que como todas as outras espécies apenas responde ao instinto de sobrevivência, no lugar da indigesta missão de massacrar os bichinhos com técnicas dignas de um campo de concentração, poderão descobrir beleza na simplicidade de um porco comendo moluscos. Oré, oré, oré...

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