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Isaura
Amélia de Souza Rosado Maia
A socióloga Isaura
Amélia de Souza Rosado Maia é presidente da Fundação
José Augusto, cientista social, doutora em sociologia
da educação e aposentada como professora da Esam. Isaura
Rosado, como é conhecida, tem um extenso currículo na
área da cultura. Já foi presidente da Capitania das
Artes (órgão fomentador de cultura da prefeitura municipal
de Natal), presidente do Conselho Estadual da Mulher
e secretária adjunta da Secretaria Estadual de Educação,
no atual governo. É, também, escritora, pesquisadora
e animadora cultural. Ela esteve em Mossoró com o evento
“Bom-Dia Sertões” que objetivou discutir as significativas
obras de autores potiguares sobre o sertão, no último
dia 28 de junho, reunindo mais de quatrocentos participantes
no Teatro Lauro Monte.
Por Leonardo Sodré Editor
Geral
O MOSSOROENSE -
Professora Isaura Amélia, como é ser uma fazedora de
cultura?
ISAURA ROSADO - É uma
pergunta difícil. A gente vai fazendo, sem muito em
explicar, nem teorizar.
OM - Ao longo de
sua vida a senhora sempre se dedicou às artes, ao estudo
e a pesquisa. Durante todo esse tempo contou sempre
com a ajuda dos artistas, dos intelectuais?
IR - Sim, a minha vida
profissional eu comecei através da Escola de Agronomia.
Formei-me na Universidade Estadual, depois fui trabalhar
na Escola de Agronomia levada pelo professor Vingt-un
para a parte administrativa. A partir daí evolui pelo
caminho da academia e fiz vários cursos de especialização.
Fiz o mestrado na Universidade Federal do Ceará e depois
tive a oportunidade de fazer o doutorado na Universidade
de Salamanca, na Espanha, que foi uma experiência muito
rica. Ver a Espanha vestida de cultura, para fomentar
a atividade econômica, me induziu a algumas ações que
são posteriores a esse período. A primeira ação que
fiz na área de cultura, quando voltei de Salamanca,
foi inspirada numa procissão medieval que assisti por
ocasião dos quinhentos anos do descobrimento da América.
Então, quando cheguei a Natal e tive a oportunidade
de presidir a Capitania das Artes, reuni a equipe, mostrei
o filme da procissão, discutimos e dali se iniciou a
idéia de fazer o “Auto de Natal”, que era uma coisa
que Natal precisava. Chamamos Amir Haddad para fazer
o primeiro ‘Auto’ e, inspirado no sucesso dessa experiência,
procurei a prefeita de Mossoró, na época Rosalba, e
conversei também com Carlos Augusto para criar condições
de tratar do “Auto da Liberdade”. Convidei Crispiniano
Neto para fazer o texto, que até hoje é utilizado e
Amir Haddad para trabalhar como diretor e através da
experiência de Natal demarcamos as pedras fundamentais
desse movimento cultural, que só tem se expandido na
cidade de Mossoró.
OM - Mossoró recentemente
disputou com outras cidades brasileiras o título de
“Capital da Cultura”, ficando em segundo lugar. O que
isso representa para a senhora?
IR - Isso representa,
acima de qualquer coisa, a ousadia do mossoroense. A
cultura que Mossoró está fazendo, que é muito importante,
irá trazer um resultado imenso para a cidade. É uma
cultura dirigida pelo poder público. Falta ainda fazer
uma linha de fortalecimento às ações que estão acontecendo
na cidade. Deverá ser, com certeza, o próximo passo
que a prefeita Fafá Rosado deverá dar para que a cultura
popular, advinda de todas as classes, de todas as tipologias,
encontre caminho de fortalecimento e de expansão. Gustavo
Rosado (chefe de gabinete da prefeita Fafá Rosado) fará
isso, tenho certeza. O que o poder público faz atualmente
é uma festa popular (Cidade Junina), que agrega manifestações
culturais e se coloca como um lastro para o turismo.
Aplausos e muitos aplausos. Mas, para ser uma ‘Capital
Cultural’, falta ainda alguns elementos que podem ser
geridos pela própria municipalidade. Há equipamentos
necessários que não existem ou não estão funcionando.
Como filha de Dix-sept Rosado e sobrinha de Vingt-un,
como prima de Fafá e de Gustavo Rosado, que eu acho
ser o espírito cultural da prefeitura, eu faço referência
à questão do museu da cidade, que não está funcionando,
não está sendo reorganizado. É preciso que isto aconteça
a partir de uma discussão com a sociedade. A Biblioteca
Pública Municipal, que também é da lavra de Dix-sept
Rosado e Vingt-un, nesse período de quando ele foi prefeito
(Dix-sept) e por ação minha, quando eu estava aqui na
condição de secretária da Cidadania, reporto-me a concessão
do prédio da biblioteca. Eu sonho com uma biblioteca
modelo. O governo ofereceu a prefeitura um projeto que
executado em parte ou em sua totalidade alça Mossoró
a ter a melhor biblioteca pública do Rio Grande do Norte.
Então, o pleito a ser uma capital da cultura é a ousadia
da cidade que ainda tem flancos culturais necessitando
de trabalho.
OM - O evento “Bom
Dia Sertões” irá para outras cidades do Rio Grande do
Norte?
IR - Esse evento nasceu
de duas mossoroenses que tinham a intenção de colaborar
com a prefeitura de Mossoró nesse período de festas
juninas. A governadora me chamou e disse: “Isaura, nós
como duas mulheres mossoroenses precisamos chegar a
Mossoró nesse instante, nessa festa”. Então, determinou
que eu entrasse em contato com a prefeitura para definir
uma programação que não viesse fazer sombra e tampouco
disputar espaço ou entrar em choque com a programação
que a cidade já tinha. Decidimos por uma programação
que agregasse. A primeira decisão foi pela música erudita.
Trouxemos a Orquestra Sinfônica dia 21, que se apresentou
com o Quinteto Violado. E, segundo a avaliação de muita
gente, foi o melhor concerto da Orquestra Sinfônica
em céu aberto. Considerei o evento um sucesso. Depois
de uma chuva, no adro da Igreja de São Vicente, tivemos
mais de mil expectadores. Juntamos o popular e o erudito
e o povo gostou.
OM - Desde a sua
passagem pela Secretaria Estadual de Educação, até a
Capitania das Artes e agora na Fundação José Augusto
a senhora é reconhecida como uma incentivadora de arte.
Por isso, refaço a primeira pergunta: como é ser reconhecida
pelos artistas e intelectuais como uma fazedora de arte?
IR - É um elogio que
você está me fazendo. Mas eu quero lhe dizer que o democrático
não se refere a relação só com os autores. O democrático
é a postura da minha vida. Eu gosto de sentar e discutir.
Eu gosto de ouvir. E muitos dos que discutem e me ouvem
ficam mangando de mim dizendo que eu só faço o que eu
quero (risos). Pode até ser, mas eu quero que todos
participem da discussão e que a gente decida o caminho
pela exclusão dos não possíveis. E que todos sejam aproveitados.
É um princípio meu. Aqui, por exemplo, no “Bom Dia Sertões”,
não existe a exposição fotográfica de um só artista.
Eu convido todos para participarem. É um princípio de
participação, de moderação, que imprime o meu modo de
ser.
OM - O que significa
exatamente o “Bom Dia Sertões”?
IR - É uma fuga da
discussão técnica, que deve ficar a cargo das universidades
da região. A proposta da Fundação José Augusto é a discussão
do sertão pelo ponto de vista das artes. Então, trazemos
os intelectuais, os professores, os acadêmicos e historiadores
para discutir esse sertão onde se desenvolve a devoção
do santo, ou dos santos do ciclo junino. Junho, no meio
do sertão, é festivo. É o sertão sem seca. O sertão
das espigas. Vamos discutir o sertão com suas tintas,
suas cores, suas telas, com o colorido da beleza de
suas tradições, inclusive com as tradições que se renovam,
com as quadrilhas estilizadas, que na verdade são grupos
de dança da mais alta categoria e merece o reconhecimento
de todos nós, que choramos a perda da matuta e aplaudimos
o novo que chega. Que mantenhamos a matuta, mas que
recebamos o novo que chega que é uma força propulsora
da população, vindo com arte, com beleza, com pesquisa,
com história e com discussão. Sobre as quadrilhas estilizadas,
eu acho que devemos fazer um reparo. Elas são mais do
que quadrilhas, elas são grupos de danças estilizados.
Por isso, enquanto alguns criticam, eu as defendo.
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