Mossoró-RN, domingo 2 de julho de 2006

Isaura Amélia de Souza Rosado Maia

A socióloga Isaura Amélia de Souza Rosado Maia é presidente da Fundação José Augusto, cientista social, doutora em sociologia da educação e aposentada como professora da Esam. Isaura Rosado, como é conhecida, tem um extenso currículo na área da cultura. Já foi presidente da Capitania das Artes (órgão fomentador de cultura da prefeitura municipal de Natal), presidente do Conselho Estadual da Mulher e secretária adjunta da Secretaria Estadual de Educação, no atual governo. É, também, escritora, pesquisadora e animadora cultural. Ela esteve em Mossoró com o evento “Bom-Dia Sertões” que objetivou discutir as significativas obras de autores potiguares sobre o sertão, no último dia 28 de junho, reunindo mais de quatrocentos participantes no Teatro Lauro Monte.

Por Leonardo Sodré
Editor Geral

O MOSSOROENSE - Professora Isaura Amélia, como é ser uma fazedora de cultura?

ISAURA ROSADO - É uma pergunta difícil. A gente vai fazendo, sem muito em explicar, nem teorizar.

OM - Ao longo de sua vida a senhora sempre se dedicou às artes, ao estudo e a pesquisa. Durante todo esse tempo contou sempre com a ajuda dos artistas, dos intelectuais?

IR - Sim, a minha vida profissional eu comecei através da Escola de Agronomia. Formei-me na Universidade Estadual, depois fui trabalhar na Escola de Agronomia levada pelo professor Vingt-un para a parte administrativa. A partir daí evolui pelo caminho da academia e fiz vários cursos de especialização. Fiz o mestrado na Universidade Federal do Ceará e depois tive a oportunidade de fazer o doutorado na Universidade de Salamanca, na Espanha, que foi uma experiência muito rica. Ver a Espanha vestida de cultura, para fomentar a atividade econômica, me induziu a algumas ações que são posteriores a esse período. A primeira ação que fiz na área de cultura, quando voltei de Salamanca, foi inspirada numa procissão medieval que assisti por ocasião dos quinhentos anos do descobrimento da América. Então, quando cheguei a Natal e tive a oportunidade de presidir a Capitania das Artes, reuni a equipe, mostrei o filme da procissão, discutimos e dali se iniciou a idéia de fazer o “Auto de Natal”, que era uma coisa que Natal precisava. Chamamos Amir Haddad para fazer o primeiro ‘Auto’ e, inspirado no sucesso dessa experiência, procurei a prefeita de Mossoró, na época Rosalba, e conversei também com Carlos Augusto para criar condições de tratar do “Auto da Liberdade”. Convidei Crispiniano Neto para fazer o texto, que até hoje é utilizado e Amir Haddad para trabalhar como diretor e através da experiência de Natal demarcamos as pedras fundamentais desse movimento cultural, que só tem se expandido na cidade de Mossoró.

OM - Mossoró recentemente disputou com outras cidades brasileiras o título de “Capital da Cultura”, ficando em segundo lugar. O que isso representa para a senhora?

IR - Isso representa, acima de qualquer coisa, a ousadia do mossoroense. A cultura que Mossoró está fazendo, que é muito importante, irá trazer um resultado imenso para a cidade. É uma cultura dirigida pelo poder público. Falta ainda fazer uma linha de fortalecimento às ações que estão acontecendo na cidade. Deverá ser, com certeza, o próximo passo que a prefeita Fafá Rosado deverá dar para que a cultura popular, advinda de todas as classes, de todas as tipologias, encontre caminho de fortalecimento e de expansão. Gustavo Rosado (chefe de gabinete da prefeita Fafá Rosado) fará isso, tenho certeza. O que o poder público faz atualmente é uma festa popular (Cidade Junina), que agrega manifestações culturais e se coloca como um lastro para o turismo. Aplausos e muitos aplausos. Mas, para ser uma ‘Capital Cultural’, falta ainda alguns elementos que podem ser geridos pela própria municipalidade. Há equipamentos necessários que não existem ou não estão funcionando. Como filha de Dix-sept Rosado e sobrinha de Vingt-un, como prima de Fafá e de Gustavo Rosado, que eu acho ser o espírito cultural da prefeitura, eu faço referência à questão do museu da cidade, que não está funcionando, não está sendo reorganizado. É preciso que isto aconteça a partir de uma discussão com a sociedade. A Biblioteca Pública Municipal, que também é da lavra de Dix-sept Rosado e Vingt-un, nesse período de quando ele foi prefeito (Dix-sept) e por ação minha, quando eu estava aqui na condição de secretária da Cidadania, reporto-me a concessão do prédio da biblioteca. Eu sonho com uma biblioteca modelo. O governo ofereceu a prefeitura um projeto que executado em parte ou em sua totalidade alça Mossoró a ter a melhor biblioteca pública do Rio Grande do Norte. Então, o pleito a ser uma capital da cultura é a ousadia da cidade que ainda tem flancos culturais necessitando de trabalho.

OM - O evento “Bom Dia Sertões” irá para outras cidades do Rio Grande do Norte?

IR - Esse evento nasceu de duas mossoroenses que tinham a intenção de colaborar com a prefeitura de Mossoró nesse período de festas juninas. A governadora me chamou e disse: “Isaura, nós como duas mulheres mossoroenses precisamos chegar a Mossoró nesse instante, nessa festa”. Então, determinou que eu entrasse em contato com a prefeitura para definir uma programação que não viesse fazer sombra e tampouco disputar espaço ou entrar em choque com a programação que a cidade já tinha. Decidimos por uma programação que agregasse. A primeira decisão foi pela música erudita. Trouxemos a Orquestra Sinfônica dia 21, que se apresentou com o Quinteto Violado. E, segundo a avaliação de muita gente, foi o melhor concerto da Orquestra Sinfônica em céu aberto. Considerei o evento um sucesso. Depois de uma chuva, no adro da Igreja de São Vicente, tivemos mais de mil expectadores. Juntamos o popular e o erudito e o povo gostou.

OM - Desde a sua passagem pela Secretaria Estadual de Educação, até a Capitania das Artes e agora na Fundação José Augusto a senhora é reconhecida como uma incentivadora de arte. Por isso, refaço a primeira pergunta: como é ser reconhecida pelos artistas e intelectuais como uma fazedora de arte?

IR - É um elogio que você está me fazendo. Mas eu quero lhe dizer que o democrático não se refere a relação só com os autores. O democrático é a postura da minha vida. Eu gosto de sentar e discutir. Eu gosto de ouvir. E muitos dos que discutem e me ouvem ficam mangando de mim dizendo que eu só faço o que eu quero (risos). Pode até ser, mas eu quero que todos participem da discussão e que a gente decida o caminho pela exclusão dos não possíveis. E que todos sejam aproveitados. É um princípio meu. Aqui, por exemplo, no “Bom Dia Sertões”, não existe a exposição fotográfica de um só artista. Eu convido todos para participarem. É um princípio de participação, de moderação, que imprime o meu modo de ser.

OM - O que significa exatamente o “Bom Dia Sertões”?

IR - É uma fuga da discussão técnica, que deve ficar a cargo das universidades da região. A proposta da Fundação José Augusto é a discussão do sertão pelo ponto de vista das artes. Então, trazemos os intelectuais, os professores, os acadêmicos e historiadores para discutir esse sertão onde se desenvolve a devoção do santo, ou dos santos do ciclo junino. Junho, no meio do sertão, é festivo. É o sertão sem seca. O sertão das espigas. Vamos discutir o sertão com suas tintas, suas cores, suas telas, com o colorido da beleza de suas tradições, inclusive com as tradições que se renovam, com as quadrilhas estilizadas, que na verdade são grupos de dança da mais alta categoria e merece o reconhecimento de todos nós, que choramos a perda da matuta e aplaudimos o novo que chega. Que mantenhamos a matuta, mas que recebamos o novo que chega que é uma força propulsora da população, vindo com arte, com beleza, com pesquisa, com história e com discussão. Sobre as quadrilhas estilizadas, eu acho que devemos fazer um reparo. Elas são mais do que quadrilhas, elas são grupos de danças estilizados. Por isso, enquanto alguns criticam, eu as defendo.

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