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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Meu mundo
Aos poucos, o mundo cresce às portas
de nossa casa na Praça da Redenção. Os meus olhos já
não alcançam o seu fim, já não abrangem os seus confins
e limites. O mundo se estende, se estira, se faz adulto,
se faz coisa separada de nós, à parte, quando não desafiadora,
contrária a nós.
O mundo já não é a nossa casa. Ou
já não é somente a nossa casa. Até então, não era mais
do que isso. E já era muito. E já era, principalmente,
o que importava, o que me bastava a mim. A minha
Mãe, o meu Pai, as duas irmãs, Negrinha, os passarinhos,
o cachorro Pery, o gato, as galinhas, o porco, as vacas
que mugiam no curral da casa, o papagaio que não falava
nunca.
Antes, o mundo era aquela casa grande,
aquela casa velha, a casa de meus amores. Ela começava
na saleta e abria o braço em cruz. À direita, o gabinete
de meu Pai: duas janelas para a praça, uma janela interna
para o nosso jardim; a grande estante embutida na parede,
cheia de livros; a sua mesa grande, bem arrumada, aqui
os dicionários, ali Laudelino Freire, na ponta os jornais
(Diário Carioca, Jornal do Comércio do Recife, O Povo
de Fortaleza), as revistas (O Malho, Diretrizes, Vamos
Ler, Carioca, Eu Sei Tudo, Vida Doméstica), no centro,
o maço de cigarros (Selma e depois Elmo com ponta),
o relógio de algibeira, o cortador de papéis, o livro
que está sendo lido. Próximo à janela interna, o divã
e o velho rádio Philco. Na outra parede, separada pela
porta de entrada, domínios de minha Mãe: sua biblioteca
de um lado e, do outro, sua escrivaninha de porta de
correr. À esquerda, a sala de visitas, o piano Essenfelder,
cadeiras de palhinha e, nas paredes pintadas a óleo,
três quadros. No centro, Jesus Cristo com a bola na
mão, o cetro na outra, o olhar direto para nós. Ladeio-o
os retratos de meus avós Irinéia dos Reis Couto e João
Capistrano do Couto. Vizinho à sala de visita, o meu
quarto amplo, a minha primeira estante com livros, a
cama e a rede, o guarda-roupas de Myriam, o santuário.
No santuário, a Cruz com Cristo, Nossa Senhora Aparecida,
São José, São João Batista, Santa Terezinha do Menino
Jesus, São Francisco de Assis, Santo Antônio e uma lâmpada
votiva, em cruz, permanentemente acesa. O santuário
ficava sobre uma mesa e na gaveta desta estavam os velhos
manuais ou livros de oração. Se a sala de visita tinha
dois janelões para a praça e duas outras janelas menores,
o meu quarto era servido por duas portas que conduziam
à primeira sala, uma janela aberta para o corredor e
o jardim interno, duas portas que se comunicavam com
o quarto da escada. O quarto da escada. Pequenino, o
suficiente para a escada que levava ao sótão. Num canto,
o cofre de meu Pai. Exatamente sob a escada, o cabide
com as suas roupas. Era lá que ele as trocava. E que
colocava o seu chapéu preto. Passado este quartinho,
o quarto de meus pais, tão grande quanto o meu, amosaicado,
ligado ao anterior por duas portas, ligado ao jardim
por uma janela, ligado à sala de jantar por mais duas
portas. No quarto, um grande guarda-roupa e armadores
para redes, além de camiseira pesada. A sala de jantar,
onde só almoçávamos ou jantávamos em dias de festas,
dias de ver a Deus, aniversário, primeira comunhão.
O relógio na parede, a Ceia Larga, a geladeira, a cristaleira,
a mesa do centro, um móvel onde minha Mãe guardava seu
caixãozinho de jóias e o caixãozinho de dinheiro, cadeiras
de palhinha, duas cadeiras de balanço, uma das quais
cativa de minha Mãe. Para o jardim, uma porta, duas
janelas. Mais para dentro, uma porta grande, pesada,
dividida em duas, não sei se me faço entender. Fechava-se
a parte de baixo e a de cima poderia ficar aberta. Saindo
por ela, dávamos com um espaço enorme. Lá estava a mesa
grande das refeições da família. Na cabeceira, meu Pai.
Ao seu lado, minha Mãe. A gente se derramava pelos outros
lugares. Cada qual senhor do seu. Vizinho à minha Mãe,
aquele que estivesse, na época, carecendo de seus cuidados.
Ou seja, aquele que precisasse mais seguidamente receber
suas reprimendas, aprender a pegar no garfo, a servir-se
da comida sem derramar, a beber água sem molhar a toalha.
Junto a este grande espaço, à esquerda, a despensa;
vizinho, o banheiro; mais adiante, a grande cozinha,
reino de Negrinha. Diante da cozinha, o galinheiro.
Antes do galinheiro, por porta que dava diretamente
com a cabeceira da mesa, um quarto grande (onde nasci)
e, ligado a este, um quartinho menor. Ambos guardavam,
na minha infância, estantes com coisas velhas, máquinas
de costura, servindo, às maravilhas, para local de nossas
brincadeiras. Seguindo o rumo da cozinha, um quartinho
onde ficava o pilão. Depois, a grande cisterna e, em
seguida, o quartinho do caroço e da macambira e o sanitário
dos empregados. No rumo do galinheiro, o curral, a cajazeira,
o chiqueiro dos porcos. Dois portões levavam à rua de
trás. Tomando todo o espaço compreendido pelo meu quarto,
o quarto da escada, o quarto de meus pais, a chamada
sala de jantar, o nosso jardim. Obra e graça de minha
Mãe. O tanque fundo para águas, a torneira, cinco canteiros,
roseiras, bogaris, crótons, velhas árvores que subiam
parede acima, pequenas plantas que os beija-flores diariamente
vinham tocar. E o viveiro. O grande viveiro, a que eu
era o nome de O Malho. Subindo a escada, o sótão. Dois
quartos grandes. Um depósito de coisas velhas. Duas
janelas para o telhado.
De repente, não mais que de repente,
o mundo não é mais somente aquilo, aquele, aquelas salas,
aqueles quartos, o jardim, as plantas, o pé de cajá,
o quartinho do caroço, meus pais e irmãs, Negrinha,
o velho Vicente, os passarinhos, a vaca Sofia, a porca
Inácia. É mais. É o que se estende além de nossos portões
e porta. É tudo aquilo que eu vejo do portão e que me
entra de olhos adentro quando me debruço, em gesto tão
característico de meu Pai, às janelas do gabinete ou
da sala de visita.
O mundo, meus senhores, é a Praça
da Redenção e adjacências. A Praça da Redenção está
no centro de minhas lembranças mais quentes. A Estátua
da Liberdade, tosca obra do mestre Paulino, realização
do começo do século. Alcancei, muito pequeno, a praça
ainda cercada. Depois houve a reforma, que me parece
ter sido feita no governo de meu padrinho doutor Soares
ou iniciada no governo dele e completada no governo
de padre Mota. Bancos de pedra bonita, um coreto com
bancos onde os meninos brincavam e saltavam e onde,
detrás, os alunos da União Caixeiral mijavam, plantas,
um verde não muito confiante. Um quadrado era a praça.
Na nossa casa-grande, de número 175, nasci eu e nasceram
todas as minhas irmãs, nasceu minha Mãe e morreram meus
avós. E foi lá que eu vivi os melhores anos da minha
vida.
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