Mossoró-RN, domingo 2 de julho de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Meu mundo

Aos poucos, o mundo cresce às portas de nossa casa na Praça da Redenção. Os meus olhos já não alcançam o seu fim, já não abrangem os seus confins e limites. O mundo se estende, se estira, se faz adulto, se faz coisa separada de nós, à parte, quando não desafiadora, contrária a nós.

O mundo já não é a nossa casa. Ou já não é somente a nossa casa. Até então, não era mais do que isso. E já era muito. E já era, principalmente, o que importava, o que me bastava a mim.  A minha Mãe, o meu Pai, as duas irmãs, Negrinha, os passarinhos, o cachorro Pery, o gato, as galinhas, o porco, as vacas que mugiam no curral da casa, o papagaio que não falava nunca.

Antes, o mundo era aquela casa grande, aquela casa velha, a casa de meus amores. Ela começava na saleta e abria o braço em cruz. À direita, o gabinete de meu Pai: duas janelas para a praça, uma janela interna para o nosso jardim; a grande estante embutida na parede, cheia de livros; a sua mesa grande, bem arrumada, aqui os dicionários, ali Laudelino Freire, na ponta os jornais (Diário Carioca, Jornal do Comércio do Recife, O Povo de Fortaleza), as revistas (O Malho, Diretrizes, Vamos Ler, Carioca, Eu Sei Tudo, Vida Doméstica), no centro, o maço de cigarros (Selma e depois Elmo com ponta), o relógio de algibeira, o cortador de papéis, o livro que está sendo lido. Próximo à janela interna, o divã e o velho rádio Philco. Na outra parede, separada pela porta de entrada, domínios de minha Mãe: sua biblioteca de um lado e, do outro, sua escrivaninha de porta de correr. À esquerda, a sala de visitas, o piano Essenfelder, cadeiras de palhinha e, nas paredes pintadas a óleo, três quadros. No centro, Jesus Cristo com a bola na mão, o cetro na outra, o olhar direto para nós. Ladeio-o os retratos de meus avós Irinéia dos Reis Couto e João Capistrano do Couto. Vizinho à sala de visita, o meu quarto amplo, a minha primeira estante com livros, a cama e a rede, o guarda-roupas de Myriam, o santuário. No santuário, a Cruz com Cristo, Nossa Senhora Aparecida, São José, São João Batista, Santa Terezinha do Menino Jesus, São Francisco de Assis, Santo Antônio e uma lâmpada votiva, em cruz, permanentemente acesa. O santuário ficava sobre uma mesa e na gaveta desta estavam os velhos manuais ou livros de oração. Se a sala de visita tinha dois janelões para a praça e duas outras janelas menores, o meu quarto era servido por duas portas que conduziam à primeira sala, uma janela aberta para o corredor e o jardim interno, duas portas que se comunicavam com o quarto da escada. O quarto da escada. Pequenino, o suficiente para a escada que levava ao sótão. Num canto, o cofre de meu Pai. Exatamente sob a escada, o cabide com as suas roupas. Era lá que ele as trocava. E que colocava o seu chapéu preto. Passado este quartinho, o quarto de meus pais, tão grande quanto o meu, amosaicado, ligado ao anterior por duas portas, ligado ao jardim por uma janela, ligado à sala de jantar por mais duas portas. No quarto, um grande guarda-roupa e armadores para redes, além de camiseira pesada. A sala de jantar, onde só almoçávamos ou jantávamos em dias de festas, dias de ver a Deus, aniversário, primeira comunhão. O relógio na parede, a Ceia Larga, a geladeira, a cristaleira, a mesa do centro, um móvel onde minha Mãe guardava seu caixãozinho de jóias e o caixãozinho de dinheiro, cadeiras de palhinha, duas cadeiras de balanço, uma das quais cativa de minha Mãe. Para o jardim, uma porta, duas janelas. Mais para dentro, uma porta grande, pesada, dividida em duas, não sei se me faço entender. Fechava-se a parte de baixo e a de cima poderia ficar aberta. Saindo por ela, dávamos com um espaço enorme. Lá estava a mesa grande das refeições da família. Na cabeceira, meu Pai. Ao seu lado, minha Mãe. A gente se derramava pelos outros lugares. Cada qual senhor do seu. Vizinho à minha Mãe, aquele que estivesse, na época, carecendo de seus cuidados. Ou seja, aquele que precisasse mais seguidamente receber suas reprimendas, aprender a pegar no garfo, a servir-se da comida sem derramar, a beber água sem molhar a toalha. Junto a este grande espaço, à esquerda, a despensa; vizinho, o banheiro; mais adiante, a grande cozinha, reino de Negrinha. Diante da cozinha, o galinheiro. Antes do galinheiro, por porta que dava diretamente com a cabeceira da mesa, um quarto grande (onde nasci) e, ligado a este, um quartinho menor. Ambos guardavam, na minha infância, estantes com coisas velhas, máquinas de costura, servindo, às maravilhas, para local de nossas brincadeiras. Seguindo o rumo da cozinha, um quartinho onde ficava o pilão. Depois, a grande cisterna e, em seguida, o quartinho do caroço e da macambira e o sanitário dos empregados. No rumo do galinheiro, o curral, a cajazeira, o chiqueiro dos porcos. Dois portões levavam à rua de trás. Tomando todo o espaço compreendido pelo meu quarto, o quarto da escada, o quarto de meus pais, a chamada sala de jantar, o nosso jardim. Obra e graça de minha Mãe. O tanque fundo para águas, a torneira, cinco canteiros, roseiras, bogaris, crótons, velhas árvores que subiam parede acima, pequenas plantas que os beija-flores diariamente vinham tocar. E o viveiro. O grande viveiro, a que eu era o nome de O Malho. Subindo a escada, o sótão. Dois quartos grandes. Um depósito de coisas velhas. Duas janelas para o telhado.

De repente, não mais que de repente, o mundo não é mais somente aquilo, aquele, aquelas salas, aqueles quartos, o jardim, as plantas, o pé de cajá, o quartinho do caroço, meus pais e irmãs, Negrinha, o velho Vicente, os passarinhos, a vaca Sofia, a porca Inácia. É mais. É o que se estende além de nossos portões e porta. É tudo aquilo que eu vejo do portão e que me entra de olhos adentro quando me debruço, em gesto tão característico de meu Pai, às janelas do gabinete ou da sala de visita.

O mundo, meus senhores, é a Praça da Redenção e adjacências. A Praça da Redenção está no centro de minhas lembranças mais quentes. A Estátua da Liberdade, tosca obra do mestre Paulino, realização do começo do século. Alcancei, muito pequeno, a praça ainda cercada. Depois houve a reforma, que me parece ter sido feita no governo de meu padrinho doutor Soares ou iniciada no governo dele e completada no governo de padre Mota. Bancos de pedra bonita, um coreto com bancos onde os meninos brincavam e saltavam e onde, detrás, os alunos da União Caixeiral mijavam, plantas, um verde não muito confiante. Um quadrado era a praça. Na nossa casa-grande, de número 175, nasci eu e nasceram todas as minhas irmãs, nasceu minha Mãe e morreram meus avós. E foi lá que eu vivi os melhores anos da minha vida.

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