Mossoró-RN, domingo 2 de julho de 2006

LIÇÕES
Zenóbio Oliveira
Cinegrafista (Mossoró/RN)
zeaguilhadas@mikrocenter.com.br

Já deixei de sonhar há muitos anos,
Não tenho mais as ilusões da mocidade,
Aprendi com as lições da realidade,
Que a utopia é a mãe dos desenganos.

Hoje me apego aos fatos cotidianos,
Aceitando como única verdade,
Que nessa vida a tal felicidade,
Não é bastante aos corações humanos.

Compreendo que as sonhadas alegrias,
Raramente presentes nos meus dias,
São momentos de conforto em meu desterro,  

Um pequeno estado de alento,
Que ajuda a suportar o sofrimento,
Que ensina a lidar com o próprio erro.

TUDO QUERO
Fátima Feitosa
Pedagoga (Mossoró/RN)
bellavid_1@hotmail.com

Com você tudo quero, quase nada posso.
Quero te espiar demoradamente,
Sentir tua presença, teu cheiro, seu toque,
Ouvir tua voz suave, envolvente.

Falar e rir com você,
Pegar sua mão e sair por aí livremente.
Caminhar na relva ou na areia
Ou sentar e conversar simplesmente.

Me despir interiormente,
Falar dos segredos meus,
Desvendar os meus mistérios,
Descobrir os segredos seus.

Você é meu lado poético,
É a minha doce fantasia
Que me faz viajar por outros mundos
Colorido, alegre, cheio de poesia.

Também é o meu desejo
Declarado ou enrustido
De consumo ou de sonhos
Que vai além do permitido.

Mas o meu lado humano
Pede sempre pra você
Fazer uma loucura por mim
Corre rápido, vem me ver.

CALE-SE
Ângela Rodrigues de Oliveira
Estudante de Filosofia da Uern (Mossoró/RN)

Cale-se
Fique calado
Apenas sinta
Meu cheiro...
Meu respirar...
Meu querer...

Fique calado...
Não... não fale ainda...
Apenas responda
Ao meu toque
Segure minha mão
Coloque-me no colo

Afague-me,beije-me
Só quero ouvir o som
De seu respirar
O toque do seu beijo
O gosto de sua paixão

Quero neste silêncio
Te amar, ser sua
Entender o que não for dito
E em silêncio dizer
Tudo que sinto.

OS SAPOS
1918

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi!” - “Foi!” - “Não foi!”.

O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos!

O meu verso é bom
Frumento sem joio
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinqüenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas...”

Urra o sapo-boi:
- “Meu pai foi rei” - “Foi!”
- “Não foi!” - “Foi!” - “Não foi!”

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo”.

Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
- “Sei!” - “Não sabe!” - “Sabe!”.

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugindo ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio

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