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REGISTRO
Eduardo Alexandre Poeta
e jornalista
Como havia um Beco no meio do caminho,
fiz dele o beco que passou em minha vida. Do beco, por
ser viço, fez-se vício que, como droga, contagia e arregimenta,
multiplica-se. Como na sarjeta do vício havia um corpo,
no beco, o bolero entoado em desafino juntou-se a um
violão que juntou-se a uma caixa de fósforos, que se
fez percussão. Alimento. Do bolero nasceu a banda e
da banda fez-se espetáculo.
E vieram festas e vieram vozes e veio
o coro no meio da noite em serenata.
A menina, linda menina, fez-se encantada
praieira ao som da flauta, que fez-se harmônica, que
fez-se sinfônica, que um dia chegará ao Beco que desnuda-se
em todas as madrugadas. No meio da cidade, da minha
cidade, havia um beco. Um beco tão grande que tinha
nome de rua e era pai de todos os becos. Não os da cidade,
mas pai de todos os becos do mundo, abençoado Beco.
Sua cidade decerto tem um beco como a minha. Um beco
da lama como o meu.
Se não tiver, deve ser triste a sua
cidade.
E deve ser triste porque na sarjeta
do vício feito beco não haverá um bêbado cantando a
volta do boêmio. Volta ao beco, ao álcool, ao vício
maior que é o próprio beco.
Não por ser o Beco pelo Beco, mas
pelo que ele guarda em suas canções tristes ou baladas
alegres, beco que se desfaz em sorrisos e tem pernas
de apaixonada amante, sempre aberta a amar por amar.
Como vício.
Vício de ser e querer ser sempre beco.
Ou beco ser enquanto ente: vivo, pulsante, feito ribombares
de zés-pereiras em sábados de carnaval.
Nesse Beco, rio de minha vida, por
sorte ou ventura, havia um tamborete e havia uma mesa
que pedia uma cerveja que pedia companhia.
Da companhia, o beco fez-se confraria
e a confraria tomou a cidade por não se bastar a si
mesma.
E foram tantos os becos, tantos os
bêbados trôpegos que não se pode mais: de beco da cidade,
a cidade tornou-se beco de seu próprio beco, pois dele
encantou-se para poder ser, com nome, identidade e todas
as digitais guardadas - registro de antigamente em cartórios
de saudade: poesia.
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