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A
dramática valentia épica no País de Mossoró
ALEXANDRO GURGEL Especial
para O MOSSOROENSE
“Mossoró viveu a batalha
e ganhou. Terra de gente valente, sim senhor”, dizia
uns versos antigos, retratando a valentia épica do povo
mossoroense contra o cangaceiro Virgulino Lampião e
seu bando. Esses versos se transformaram na peça teatral
“Chuva de Bala no País de Mossoró”, encenada no adro
da Igreja de São Vicente, cenário real do combate entre
cangaceiros e resistentes, acorrido em 13 de junho de
1927. Até hoje, às vésperas de completar os 80 anos
do conflito histórico entre Lampião e os resistentes
mossoroenses, as marcas da luta ainda podem ser encontradas
nas torres da capela.
O espetáculo conta
a história que se passou no Dia de Santo Antônio, quando
Mossoró se mobilizou para enfrentar o bando do capitão
Virgulino Ferreira, o Lampião. O prefeito Rodolfo Fernandes
e a população se negaram a pagar os 400 contos de réis
exigidos pelo bando, afugentou os cangaceiros e ainda
matou Colchete e feriu mortalmente Jararaca. Este último,
foi preso na Cadeia Pública, atual Museu Municipal Lauro
da Escóssia, e enterrado vivo no Cemitério Público.
Ainda hoje, o túmulo de Jararaca é venerado por pessoas
que acreditam que o cangaceiro é milagroso.
De acordo com o escritor
Tarcísio Gurgel, responsável pelo texto, o espetáculo
é fruto de um episódio que desde criança dominou as
salas de jantar e as conversas de calçadas noite adentro.
“Há quem considere que se coloca exagerada ênfase na
questão. Os que pensam assim não percebem que celebrar
dramaticamente o episódio é apenas uma faceta a mais
da nossa luta para manter a integridade mossoroense.
Que a cidade tivesse cedido ou simplesmente esquecido
desse acontecimento, não poderia olhar o espelho da
história sem sentir vergonha”, enfatizou.
Pela quarta vez consecutiva,
a direção da peça é do consagrado diretor teatral norte-rio-grandense,
João Marcelino, cujo trabalho já está consolidado em
Mossoró, dirigindo “O Oratório de Santa Luzia” e injetando
boas doses de irreverência à representação do episódio
histórico. A dublagem dificultou o realismo, distraindo
a emoção dos atores, mas sem prejudicar a beleza do
espetáculo. A atriz Tony Silva faz o papel de Antônia,
a contadora da história, e é também um dos destaques
da montagem que reúne um elenco de 250 pessoas, incluindo
a participação de 100 crianças do Peti (Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil) e integrantes do Tiro
de Guerra 07-010 como coadjuvantes.
Começa então o desafio:
de um lado o prefeito Rodolfo Fernandes (Marcos Leonardo),
que comandou pessoalmente a resistência e o padre Motta
(Carlos José) liderando um coro de moradores de Mossoró
e do outro Lampião (Dionísio do Apodi) e seu bando.
A irreverência do padre Motta também foi garantia de
risos na platéia. Em certo momento, o sacerdote fala
palavrões e defende com fervor a morte dos cangaceiros.
O pastoril fica evidenciado através do vermelho usado
pelo grupo de Lampião - o cordão encarnado - e o grupo
dos resistentes de azul.
O ponto culminante
do espetáculo é a batalha entre o bando de Lampião e
os bravos resistentes mossoroenses. Na luta, João Marcelino
utiliza efeitos de raio laser, que riscam o ar lembrando
uma chuva de balas, deixando rastros de luz, além de
muita fumaça. O seqüestro do coronel Antônio Gurgel,
interpretado por Cícero Lima, recria um pedaço da história,
uma inovação no novo formato do show. Todas as cenas
são acompanhadas de impressionantes efeitos sonoros.
A direção musical é assinada pelo maestro Danilo Guanais
que compôs uma trilha sonora especialmente para o espetáculo,
respeitando o texto original e dando coesão as várias
linguagens em cena.
Queima de fogos de
artifício dão um colorido lúdico ao céu, anunciando
o fim de mais uma noite de dramaturgia. Ao lado da capela
de São Vicente foi montada a “Cidadela”, cidade cenográfica
que lembra aspectos urbanísticos e arquitetônicos da
época da batalha histórica. No local, funcionam restaurantes,
bares, “xilindró”, bodegas, pescarias, barracas de comidas
típicas e espaços culturais que recebe, durante todo
o período junino, cantores da terra, cujas apresentações
acontecem depois da encenação.
Entrevista com João
Marcelino, diretor do espetáculo "Chuva de Bala
no País de Mossoró"
Por Alexandro Gurgel Especial
para O Mossoroense
O MOSSOROENSE -
Qual a diferença da montagem dos anos anteriores para
este ano?
JOÃO MARCELINO - A
cena da batalha tem mais contundência. No ano passado
eu achava que poderia brincar mais e ser mais poético,
mas acho que o público não entendeu o que eu queria
dizer. Senti que o povo não ficou satisfeito com a cena
em que fazia uma alusão ao desarmamento. De modo que
este ano, vamos dar balas para o povo. A principal modificação
é o elenco: Quem fazia Jararaca, quem interpretava Lampião,
quem contava a história... Todos os atores são novos
nesses papéis. Também utilizamos uma cenografia diferente
com elementos de multimídia incorporados a um sistema
de som moderno, sobretudo na hora da batalha que o som
circula fazendo com que o público esteja mais presente.
É um som como se fosse um "home teather".
O figurino e a iluminação estão mais bem elaboradas
do que em anos anteriores. Acho que é o melhor trabalho
já realizado com este espetáculo.
O MOSSOROENSE -
Qual a emoção de poder dirigir "Chuva de Bala no
País de Mossoró"?
JOÃO MARCELINO - A
primeira palavra que me ocorre é medo. Quando o espetáculo
termina e as pessoas vêm me abraçar e dizem: "Cara,
como ficou lindo!" e começam a destacar algumas
cenas, isso me contenta. Na verdade, eu acho que tudo
isso é muito misterioso e me dá medo. Gosto de ver o
resultado e o aplauso do público.
O MOSSOROENSE -
Você foi convidado para dirigir o "Oratório de
Santa Luzia" e agora, "Chuva de Bala no País
de Mossoró". Qual a relação entre os dois espetáculos?
JOÃO MARCELINO - No
Oratório eu estou trabalhando com o sagrado, onde o
elemento barroco está muito presente, falando de estética.
Há um elemento que une os dois espetáculos que é minha
herança da cultura popular. No Chuva de Bala, eu conto
a história de luta de uma cidade. Mas os dois espetáculos
bebem na mesma fonte pelo viés de Câmara Cascudo, de
Manoel Marinheiro, com traços do Pastoril, da Araruna.
Esses elementos estão próximos e são visíveis na peça.
O MOSSOROENSE -
Essa idéia de fazer um espetáculo que resgate essa identidade
cultural, trazendo à tona às raízes da história de Mossoró,
é um espetáculo mais fácil de fazer? E você sente que
se consolida essa idéia do "País de Mossoró",
essa reinvenção do lugar?
JOÃO MARCELINO - Na
verdade, é mais fácil fazer do que explicar. Eu acho
que o apelo popular está intrínseco no texto do autor.
Eu escuto os atores e procuro observar o público para
ver onde devo acertar, dentro da proposta de dramatizar
esse resgate histórico. O espetáculo é pensado inteiramente
para agradar ao público. Eu sou apenas o veículo.
O MOSSOROENSE -
A dramatização reflete exatamente o texto do professor
Tarcísio Gurgel ou há algo diferente que você acoplou
ao espetáculo?
JOÃO MARCELINO - Eu
acho que a única coisa que a gente introduziu foi a
cena do baile. Eu o consultei e ele disse para que eu
ficasse à vontade. O autor põe o olhar num fato específico
e o diretor com os atores terminam ampliando essa visão
do autor. O texto é tão bom que parece roteiro cinematográfico,
cheio de flashback e cortes brutos. Para que a platéia
pudesse sentir o texto, eu tive que fazer algumas intervenções
de dramaturgias que Tarcísio permitiu.
O MOSSOROENSE -
O presidente da Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço
(SBEC), Kydelmir Dantas, disse que da última vez que
assistiu ao espetáculo as pessoas aplaudiram muito mais
os cangaceiros do que os resistentes. Notou também que
os mesmos resistentes estão ficando em segundo plano
na dramartugia, dando lugar de protagonista a Lampião
e o bando. Como você analisa essa visão?
JOÃO MARCELINO - O
que seria de Mossoró se o bando de Lampião não tivesse
passado por aqui? Ele trouxe história que mexe com o
imaginário popular até hoje. Lampião não pertence a
Mossoró, ele pertence ao mundo. É uma figura muito emblemática
e dentro de uma narrativa dramática, ele representa
o conflito. Agora, o espetáculo não valoriza Lampião
dessa maneira. É uma interpretação pessoal. Eu apresento
Lampião da forma que os historiadores escreveram nos
livros. Meu trabalho é contar essa história. A minha
herança dos estudos da cultura popular e do folclore
estão presentes no espetáculo quando o bando de Lampião
está de vermelho e o prefeito Rodolfo Fernandes com
os resistentes estão de azul. Isso é uma referência
ao pastoril e os cordões encarnado e azul.
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