Mossoró-RN, domingo 2 de julho de 2006

A dramática valentia épica no País de Mossoró

ALEXANDRO GURGEL
Especial para O MOSSOROENSE

“Mossoró viveu a batalha e ganhou. Terra de gente valente, sim senhor”, dizia uns versos antigos, retratando a valentia épica do povo mossoroense contra o cangaceiro Virgulino Lampião e seu bando. Esses versos se transformaram na peça teatral “Chuva de Bala no País de Mossoró”, encenada no adro da Igreja de São Vicente, cenário real do combate entre cangaceiros e resistentes, acorrido em 13 de junho de 1927. Até hoje, às vésperas de completar os 80 anos do conflito histórico entre Lampião e os resistentes mossoroenses, as marcas da luta ainda podem ser encontradas nas torres da capela.

O espetáculo conta a história que se passou no Dia de Santo Antônio, quando Mossoró se mobilizou para enfrentar o bando do capitão Virgulino Ferreira, o Lampião. O prefeito Rodolfo Fernandes e a população se negaram a pagar os 400 contos de réis exigidos pelo bando, afugentou os cangaceiros e ainda matou Colchete e feriu mortalmente Jararaca. Este último, foi preso na Cadeia Pública, atual Museu Municipal Lauro da Escóssia, e enterrado vivo no Cemitério Público. Ainda hoje, o túmulo de Jararaca é venerado por pessoas que acreditam que o cangaceiro é milagroso.

De acordo com o escritor Tarcísio Gurgel, responsável pelo texto, o espetáculo é fruto de um episódio que desde criança dominou as salas de jantar e as conversas de calçadas noite adentro. “Há quem considere que se coloca exagerada ênfase na questão. Os que pensam assim não percebem que celebrar dramaticamente o episódio é apenas uma faceta a mais da nossa luta para manter a integridade mossoroense. Que a cidade tivesse cedido ou simplesmente esquecido desse acontecimento, não poderia olhar o espelho da história sem sentir vergonha”, enfatizou.

Pela quarta vez consecutiva, a direção da peça é do consagrado diretor teatral norte-rio-grandense, João Marcelino, cujo trabalho já está consolidado em Mossoró, dirigindo “O Oratório de Santa Luzia” e injetando boas doses de irreverência à representação do episódio histórico. A dublagem dificultou o realismo, distraindo a emoção dos atores, mas sem prejudicar a beleza do espetáculo. A atriz Tony Silva faz o papel de Antônia, a contadora da história, e é também um dos destaques da montagem que reúne um elenco de 250 pessoas, incluindo a participação de 100 crianças do Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) e integrantes do Tiro de Guerra 07-010 como coadjuvantes.

Começa então o desafio: de um lado o prefeito Rodolfo Fernandes (Marcos Leonardo), que comandou pessoalmente a resistência e o padre Motta (Carlos José) liderando um coro de moradores de Mossoró e do outro Lampião (Dionísio do Apodi) e seu bando. A irreverência do padre Motta também foi garantia de risos na platéia. Em certo momento, o sacerdote fala palavrões e defende com fervor a morte dos cangaceiros. O pastoril fica evidenciado através do vermelho usado pelo grupo de Lampião - o cordão encarnado - e o grupo dos resistentes de azul.

O ponto culminante do espetáculo é a batalha entre o bando de Lampião e os bravos resistentes mossoroenses. Na luta, João Marcelino utiliza efeitos de raio laser, que riscam o ar lembrando uma chuva de balas, deixando rastros de luz, além de muita fumaça. O seqüestro do coronel Antônio Gurgel, interpretado por Cícero Lima, recria um pedaço da história, uma inovação no novo formato do show. Todas as cenas são acompanhadas de impressionantes efeitos sonoros. A direção musical é assinada pelo maestro Danilo Guanais que compôs uma trilha sonora especialmente para o espetáculo, respeitando o texto original e dando coesão as várias linguagens em cena.

Queima de fogos de artifício dão um colorido lúdico ao céu, anunciando o fim de mais uma noite de dramaturgia. Ao lado da capela de São Vicente foi montada a “Cidadela”, cidade cenográfica que lembra aspectos urbanísticos e arquitetônicos da época da batalha histórica. No local, funcionam restaurantes, bares, “xilindró”, bodegas, pescarias, barracas de comidas típicas e espaços culturais que recebe, durante todo o período junino, cantores da terra, cujas apresentações acontecem depois da encenação.

Entrevista com João Marcelino, diretor do espetáculo "Chuva de Bala no País de Mossoró"

Por Alexandro Gurgel
Especial para O Mossoroense

O MOSSOROENSE - Qual a diferença da montagem dos anos anteriores para este ano?

JOÃO MARCELINO - A cena da batalha tem mais contundência. No ano passado eu achava que poderia brincar mais e ser mais poético, mas acho que o público não entendeu o que eu queria dizer. Senti que o povo não ficou satisfeito com a cena em que fazia uma alusão ao desarmamento. De modo que este ano, vamos dar balas para o povo. A principal modificação é o elenco: Quem fazia Jararaca, quem interpretava Lampião, quem contava a história... Todos os atores são novos nesses papéis. Também utilizamos uma cenografia diferente com elementos de multimídia incorporados a um sistema de som moderno, sobretudo na hora da batalha que o som circula fazendo com que o público esteja mais presente. É um som como se fosse um "home teather". O figurino e a iluminação estão mais bem elaboradas do que em anos anteriores. Acho que é o melhor trabalho já realizado com este espetáculo.

O MOSSOROENSE - Qual a emoção de poder dirigir "Chuva de Bala no País de Mossoró"?

JOÃO MARCELINO - A primeira palavra que me ocorre é medo. Quando o espetáculo termina e as pessoas vêm me abraçar e dizem: "Cara, como ficou lindo!" e começam a destacar algumas cenas, isso me contenta. Na verdade, eu acho que tudo isso é muito misterioso e me dá medo. Gosto de ver o resultado e o aplauso do público.

O MOSSOROENSE - Você foi convidado para dirigir o "Oratório de Santa Luzia" e agora, "Chuva de Bala no País de Mossoró". Qual a relação entre os dois espetáculos?

JOÃO MARCELINO - No Oratório eu estou trabalhando com o sagrado, onde o elemento barroco está muito presente, falando de estética. Há um elemento que une os dois espetáculos que é minha herança da cultura popular. No Chuva de Bala, eu conto a história de luta de uma cidade. Mas os dois espetáculos bebem na mesma fonte pelo viés de Câmara Cascudo, de Manoel Marinheiro, com traços do Pastoril, da Araruna. Esses elementos estão próximos e são visíveis na peça.

O MOSSOROENSE - Essa idéia de fazer um espetáculo que resgate essa identidade cultural, trazendo à tona às raízes da história de Mossoró, é um espetáculo mais fácil de fazer? E você sente que se consolida essa idéia do "País de Mossoró", essa reinvenção do lugar?

JOÃO MARCELINO - Na verdade, é mais fácil fazer do que explicar. Eu acho que o apelo popular está intrínseco no texto do autor. Eu escuto os atores e procuro observar o público para ver onde devo acertar, dentro da proposta de dramatizar esse resgate histórico. O espetáculo é pensado inteiramente para agradar ao público. Eu sou apenas o veículo.

O MOSSOROENSE - A dramatização reflete exatamente o texto do professor Tarcísio Gurgel ou há algo diferente que você acoplou ao espetáculo?

JOÃO MARCELINO - Eu acho que a única coisa que a gente introduziu foi a cena do baile. Eu o consultei e ele disse para que eu ficasse à vontade. O autor põe o olhar num fato específico e o diretor com os atores terminam ampliando essa visão do autor. O texto é tão bom que parece roteiro cinematográfico, cheio de flashback e cortes brutos. Para que a platéia pudesse sentir o texto, eu tive que fazer algumas intervenções de dramaturgias que Tarcísio permitiu.

O MOSSOROENSE - O presidente da Sociedade Brasileira de Estudo do Cangaço (SBEC), Kydelmir Dantas, disse que da última vez que assistiu ao espetáculo as pessoas aplaudiram muito mais os cangaceiros do que os resistentes. Notou também que os mesmos resistentes estão ficando em segundo plano na dramartugia, dando lugar de protagonista a Lampião e o bando. Como você analisa essa visão?

JOÃO MARCELINO - O que seria de Mossoró se o bando de Lampião não tivesse passado por aqui? Ele trouxe história que mexe com o imaginário popular até hoje. Lampião não pertence a Mossoró, ele pertence ao mundo. É uma figura muito emblemática e dentro de uma narrativa dramática, ele representa o conflito. Agora, o espetáculo não valoriza Lampião dessa maneira. É uma interpretação pessoal. Eu apresento Lampião da forma que os historiadores escreveram nos livros. Meu trabalho é contar essa história. A minha herança dos estudos da cultura popular e do folclore estão presentes no espetáculo quando o bando de Lampião está de vermelho e o prefeito Rodolfo Fernandes com os resistentes estão de azul. Isso é uma referência ao pastoril e os cordões encarnado e azul.

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