CLÁUDIO MONTEIRO
 
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUINTAS
 


DEPUTADOS SEM-FOME.

BRASILEIROS COM-FOME!

Que me desculpem os (poucos) deputados e deputadas federais sérios, mas o que a Câmara dos Deputados decidiu, na calada da noite, aproveitando a "calada" do carnaval  -  que faz com que o povo se desligue de notícias, sobretudo daquelas oriundas do que deveria ser justamente a "Casa do Povo"  -  é absolutamente indecente, imoral e acintoso.

Não bastassem as inúmeras vantagens e aumentos salariais que sempre se autoconcederam, com ênfase nos últimos meses, os deputados se "superaram" nas vésperas do feriadão e aumentaram a verba de gabinete de cada um deles de 25 mil reais  para 35 mil reais por mês. Uma paulada de 40% , que por si só vai representar um gasto extra de mais 61 milhões de reais por ano. Pagos, evidentemente, com o dinheiro do contribuinte.

Na verdade a farra carnavalesca dos nossos parlamentares federais começou exatamente há dois meses e meio. Em meados de dezembro, a Câmara reajustou os salários dos 513 deputados em 53%, pulando dos já elevados  8 mil e 200 reais  para 12 mil e 700 reais.  Limpinhos. Não satisfeitos, em janeiro os deputados aumentaram de 7 mil para 10 mil reais por mês a ajuda financeira  que cada um deles tem para manter um escritório de representação no respectivo Estado de origem. Como se não bastasse o gabinete totalmente gratuito e com todas as despesas pagas em Brasília. E como se ninguém soubesse que esses "escritórios estaduais" não fossem, na verdade, comitês permanentes de campanha pagos pelos cofres públicos. Em detrimento, inclusive, dos novos candidatos que têm que fazer a campanha bancada do próprio bolso...

 Somados o salário; verbas de gabinete; ajuda financeira para escritório estadual; auxílio para telefone, correio, xerox, e fax; e auxílio-moradia,  na realidade cada deputado custa para o bolso do contribuinte cerca de 67 mil reais por mês. Sim, e mais 4 passagens  de avião, ida e volta,  todo mês para o Estado de origem, que variam, dependendo da distância aérea, entre 4, 8  e 12 mil reais, que elevam o valor total para 71, 75  ou até 79  mil reais por mês. Tomando-se por média 75 mil reais multiplicados pelos 513 parlamentares, eles já custam para o bolso dos contribuintes  -  sem computar todas as outras despesas de manutenção para manter a Câmara funcionando  -  a bagatela de 38, 4 milhões por mês ou 461 milhões de reais por ano. Quase 1/2 bilhão de reais...

Além de tudo isso, os deputados federais têm privilégios trabalhistas diferenciados de todos os trabalhadores brasileiros. Para começar a longa lista, enquanto milhões de pessoas recebem 13 salários, tem um mês de férias por ano e precisam atingir no mínimo 53 anos de idade para se aposentar, mesmo que tenham começado a trabalhar cedo;  já vossas excelências recebem 15 salários, têm 2 meses de férias por ano e muitos já se "aposentaram" apenas depois de exercer dois mandatos, ou 8 anos de trabalho...

  O Parlamento e os deputados são extremamente importantes. São os pilares para qualquer nação democrática, quanto mais para a ainda frágil democracia brasileira. Não podem, entretanto, sangrar dos cofres públicos, impedindo o uso em programas sociais, o absurdo de 1/2 bilhão de reais ao ano, quando  mais de 40  milhões de brasileiros estão abaixo da linha da miséria, ganhando menos de 80 reais por mês e lutando na esperança de serem incluídos num dos programas assistenciais do governo federal como Vale-Gás, Bolsa-Escola, Fome-Zero...

... Num país com tantas disparidades socioeconômicas, com tanta gente passando fome, a atitude dos deputados federais choca e revolta. São os Sem-Fome recebendo 75 mil reais versus os Com-Fome ganhando quase zero.

Desculpem o tom indignado, uma boa semana para todos -  e ainda tem deputado, com fome de dinheiro, que vende habeas corpus para traficante ou contrata agricultores em regime de escravidão.

 

CLÁUDIO MONTEIRO

EMAIL: claudiomonteiro@natalja.com.br

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Mossoró-RN, quinta-feira, 6 de março de 2003