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Lúcia Rocha
Maria Eulina é uma maranhense que foi a São Paulo tentar uma vida melhor. Depois de um bom tempo, ajudada por algumas pessoas, deu a volta por cima e, agora, ajuda imigrantes como ela a ter uma vida mais digna.
A história dessa nordestina é contada pela jornalista e cientista social mossoroense Lúcia Rocha no livro "Catadora de Sonhos - a história secreta de Maria Eulina", que teve sua 2ª edição lançada na última sexta-feira, na Livraria Café & Cultura.
Sua autora, uma figura simpática e discreta que não se dá muito bem com câmeras e não gosta de ser chamada de senhora, falou à nossa reportagem sobre a trajetória vitoriosa de Eulina e as experiências de escrever o livro, contando como foi confundida com uma moradora de rua, e como alguns leitores acreditavam ter lido uma história de ficção.
Por que você escolheu a história de Maria Eulina para contar aos seus leitores?
Adoro o gênero biografias, e leio desde os dez anos de idade. Quando a vi pela primeira vez na TV falando, contando sua história, foi em 1997 e disse a mim mesma que colocaria aquela história num livro. A conheci em 2001, nos bastidores de um programa de TV, e propus a ela escrever sua biografia.
De que forma você se identificou com a história?
Como Maria Eulina, também migrei para São Paulo em busca de mais oportunidades de trabalho, pois eu achava que não tinha o que aprender mais aqui no RN. Só que fiz uma mudança planejada. Conclui a faculdade, fui acolhida numa família que me incentivou os quatro anos de faculdade para me mudar. Enfim, não estava à toa como Maria Eulina, que migrou baseada num convite de uma pessoa que se dizia amiga, mas que só deu abrigo a ela durante quinze dias. Como não estava preparada para o mercado de trabalho numa metrópole como São Paulo, terminou morando nas ruas, que foi a única opção. Então a gente tem em comum o fato de ter migrado. Comigo deu certo, com ela, infelizmente, não.
Mas deu certo pra ela depois de um bom tempo...
Isso, sofreu durante dezenove meses nas ruas, comendo o pão que o diabo amassou. Passou por muitas humilhações. À época, ela achava que era coisa de carma, que tinha que passar por isso, que devia ser de 'outra' vida essas coisas. Mas tudo isso contribuiu para que ela desenvolvesse o trabalho que vem fazendo, resgatando moradores de rua, dando não somente um prato de refeição, mas dignidade, através de uma profissão e encaminhando para o mercado de trabalho sem nenhuma contribuição financeira do poder público. Tudo a base do voluntariado.
Mas quando você foi para São Paulo, tinha uma condição de vida como a dela?
Não, muito pelo contrário. Sou de família de classe média, quando fui para São Paulo, vendi meu carro e acreditei que logo o recuperaria através do meu talento, do meu trabalho, e foi o que aconteceu. Nunca tive um dia desempregada naquela cidade, tive todos os carros que sonhei, inclusive importados, jamais me aventuraria como Maria Eulina. Nem aconselho ninguém a isso. Tive uma vizinha, já de idade avançada, que me orientava muito a respeito de uma possível mudança para São Paulo. Chamava-se Ildérica Cantídio, e ela dizia que eu só fosse para São Paulo quando tivesse feito uma faculdade. Viajei com duas faculdades, a de Ciências Sociais, na Uern, e Comunicação, na UFRN. Minha mãe foi secretária de Educação em Mossoró e exerceu outros cargos públicos dentro dessa área e foi uma pessoa que me incentivou bastante.
E o que você acha que leva pessoas como Maria Eulina a se aventurarem numa viagem tão incerta?
Em primeiro lugar, a falta de perspectiva de emprego. Em segundo, quando alguém se acha com talento suficiente para enfrentar um mercado de trabalho numa metrópole. Tem uma hora na vida da gente, que pode ser na fase criança ou adolescência, que algo lhe diz que você vai chegar lá. Que você vai fazer a diferença. Isso não é sorte. Sorte é outra coisa. Sorte só serve de desculpas para quem não se mexe, para quem não sonha, para quem acha que tudo pode cair do céu, que todo mundo que é bem sucedido o é por causa dela, a sorte. Em São Paulo aprendi que os nordestinos bons estão aqui no Nordeste e que lá estão os ótimos. Isso porque você ja vai competir com os muito bons. Então, você tem que ser ótimo. Não aconselharia a ninguém partir para uma aventura em São Paulo se não acredita nele mesmo.
Você vivenciou muito a realidade desse povo pra coletar informações para o livro, estando bem próxima da Maria Eulina e de pessoas como ela. Como foi viver essa experiência?
Passei três meses convivendo com os assistidos por ela na ONG que ela fundou, a Oficina Profissionalizante Clube de Mães do Brasil que, apesar do nome, assiste pessoas de ambos os sexos. Como cientista social achei que deveria fazer laboratório ali, para poder explicar ao leitor como é o dia-a-dia dessas pessoas sem nenhuma auto-estima. Cheguei a ser confundida com uma moradora de rua por uma repórter da TV Record.
A que você atribui e como você encarou este fato?
Foi apenas fruto do preconceito que pode haver por parte de pessoas que já ignoram os excluídos, independente de onde eles estejam. Eu não estava com aspecto de moradora de rua, estava bem vestida, com uma prima médica, encostada em um carro importado e mesmo assim ela me perguntou há quanto tempo eu morava ali. Em vez de ficar constrangida, continuei infiltrada lá e conheci, e entrevistei, a irmã de um repórter da TV Globo, que estava vivendo em situação de rua. No livro conto essa história, sem citar o irmão famoso, porque ele não conhece essa meia-irmã, por parte de pai, e não sabe de sua situação. Ela é a cara do irmão e nem precisava falar do parentesco.
Você deve ter convivido muito com a própria Maria Eulina também...
Sim, e, convivendo no dia-a-dia com a biografada, conheci a família dela, que apesar de serem ricos, pois são filhos de um alemão muito rico que os deixou em boa situação financeira, eles estão sempre pelo Castelinho, como é mais chamado o Clube de Mães. A gente percebe que Maria Eulina tem traços de quem teve berço, uma educação esmerada. É uma mulher preparada. Nunca teve aula de oratória, mas dá palestras sobre responsabilidade social muito bem. Se apresenta em programas de televisão com uma desenvoltura impressionante. Uma pessoa de hábitos simples, que convive com essa gente sem nenhuma auto-estima, é uma pessoa que só sai do Castelinho para dar entrevistas ou palestra. O seu dia a dia é lá, enfiada, convivendo com eles, essa mulher faz isso há 29 anos, não tem carteira assinada, não vai ter aposentadoria, vive com a renda que o marido deixou para os herdeiros. Tem carro com motorista, herança do marido, mas detesta glamour. Não saberia conviver em meio a dondocas, muito embora no início do casamento conviveu com isso, o marido era amigo e freqüentava a casa de Ricardo Mansur.
Mas como foi que ela conseguiu sair das ruas?
Bem, a Vânia Queiroz é uma pernambucana, que à época tinha a idade de Maria Eulina, 23 anos. Ela era secretária executiva da Companhia de Laticínios Vigor. A Vânia era secretária de Alex, então superintendente geral da empresa, um executivo... Enfim, o carro de Vânia quebrou numa praça bem em frente ao banco onde Maria Eulina dormia. Ela viu ali uma chance de sair das ruas. Como Vânia ficou nervosa e desceu do carro xingando Deus e o mundo, Maria Eulina a acalmou com uma frase muito forte: "Moça, se por tão pouco você está xingando Deus, imagine se estivesse na minha situação..." Vânia se aproximou e perguntou quem era Maria Eulina, que se identificou e pediu uma oportunidade para sair das ruas, no que Vânia atendeu. Levou-a para seu apartamento, onde Maria Eulina, em agradecimento, ficou fazendo as tarefas domésticas. Três meses depois, Vânia, percebendo que Maria Eulina era uma pessoa honesta, com certa competência além de uma doméstica, conseguiu uma vaga de telefonista na Vigor. Foi onde Alex a conheceu e se apaixonou. Ele era um solteirão e Vânia nutria esperança de um dia casar-se com ele. Quando soube que os dois estavam saindo, convidou Maria Eulina para se retirar do apartamento. Foi quando Alex a pediu em casamento.
Então foi com o casamento que ela conseguiu subir na vida?
O casamento a fez recuperar o que ela tinha antes porque ela era filha de um fazendeiro rico, no interior do Maranhão. O casamento com o alemão Alexander Maximilian Hilsenbeck deu uma independência financeira para iniciar sua obra social e tocá-la pra frente, pois sempre foi bancada pelo marido, muito embora ele achava que isso seria obrigação do poder público. Ela foi indicada ao Prêmio Cláudia, que todo ano é promovido pela Editora Abril, quando escolhem dez mulheres que se destacaram em alguma área, ela concorreu ao lado de gente da estirpe da doutora Zilda Arns e da atriz Fernanda Montenegro.
Como você define Maria Eulina?
Alguém muito especial, um anjo enviado por Deus para fazer um trabalho social junto à população de rua, formada por gente excluída, formada em sua maioria por nordestinos, que não têm a quem acorrer quando não têm perspectiva nenhuma numa metrópole como São Paulo, e não encontram meios para retornarem às suas terras, às suas famílias. Maria Eulina viveu na vida real uma história que se assemelha a um conto de fadas, sendo ela a Cinderela, a Vânia Queiroz, a moça que a tirou das ruas, a Fada Madrinha, o marido, o Príncipe Encantado, e o castelo no caso, é o Castelinho, uma construção em forma de palacete, onde funciona a sua obra social. Maria Eulina é alguém que esteve do lado de lá, mas quando saiu não esqueceu e passou a apadrinhar essa causa. Muito justa por sinal. Há de se lamentar que ela, apesar de ser uma figura muito respeitada pela classe política paulista, esta ignora sua obra social, e até agora não lhe deu um título de Cidadã Paulistana. Mas ela não tem essas vaidades. Sua única vaidade é trabalhar com esses excluídos.
De que forma seu trabalho é ignorado pelos políticos?
A prefeitura de São Paulo não isenta sua ONG de IPTU, por exemplo, e não destina nenhuma verba para lá. Toda vez que a prefeitura paulistana cria algum programa para o morador de rua, exclui alguém com autoridade sobre o assunto que é Maria Eulina. O governo do Estado, através de Geraldo Alckmin, reconhece, inclusive colocou nos livros didáticos da rede pública estadual a biografia dela, com foto. Mas verba que é bom, não manda, poderia isentar, por exemplo, da conta da Eletropaulo. Mas nem isso. Então os presidentes da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), sempre renovam uma parceria que têm com o Clube de Mães, para preparação de mão-de-obra. Doutor Antônio Ermírio de Moraes deu uma excelente contribuição depois que ela foi no Jô Soares, porque mandou material de construção suficiente para ela construir um prédio de quatro pisos, anexo ao Castelinho, onde funciona o restaurante, escritório, biblioteca, salas de aula e de computação.
E como é a recepção do público a respeito do livro?
Algumas pessoas que leram o livro e não conhecem a vida de Maria Eulina pela mídia, me elogiam pela história que criei, pensando tratar-se de ficção, o que não é verdade. Dorian (Jorge Freire), por exemplo, já a conhecia da TV. Dr. Vingt-un (Rosado) leu e achou que era obra de ficção. Me elogiou, digamos assim, por algo que não inventei. É uma história com H, real.
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Mossoró-RN, de 2005