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Entrevista

Marcos Antônio Barbosa

Confissões de um soropositivo

Marcos Antônio BarbosaHá três anos, ele descobriu que tem a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids). Como acontece com todos aqueles que descobrem ser soropositivo, Marcos Antônio Barbosa de Oliveira viu seu mundo ruir. Problemas familiares, abandono dos amigos, discriminação no trabalho. Mesmo assim, Marcos não desistiu e iniciou sua batalha pela vida. As dificuldades foram maiores do que ele imaginava. Depois que ficou desempregado, tentou arrumar emprego e não conseguiu. Os órgãos oficiais lhe negaram apoio. Passou então a oferecer, via telefone, CD’s a pessoas que tenham

interesse em ajudá-lo. Inicialmente, contava com a parceria do Hospital Rafael Fernandes,

cuja diretoria, um tempo depois, lhe disse que ele não poderia mais usar o nome da

instituição. Depois, como ele conta, passou a sofrer com denúncias de que ainda

estaria usando o nome do hospital para vender os CD’s. “Não sei quem está

fazendo isso”, declara, sem querer se estender sobre o assunto. Conheça

um pouco da luta de Marcos Antônio. Para aqueles

que querem ajudá-lo, o telefone para a compra do CD é 314-5464.

Por MÁRCIO ALEXANDRE

O MOSSOROENSE – Como e quando você descobriu que tinha Aids?

MARCOS ANTÔNIO – Foi há três anos, em Fortaleza, através de exames.

OM – E por que você decidiu se submeter aos exames? Você apresentava algum sintoma da doença?

MA – Não apresentava nenhum sinal. Decidi me submeter aos exames porque havia transado com uma pessoa e começaram a me dizer que essa pessoa tinha a doença. Então, fiz os exames e deu positivo.

OM – Quando você soube do resultado dos exames, que sensação lhe veio à cabeça?

MA – Eu estava em Fortaleza e fiquei muito perturbado.

OM – Como foi para você informar a seus familiares?

MA – Foi muito difícil. Meu pai estava doente. Foi uma barra. Tive que vir embora para Mossoró para dar continuidade à vida. Quer dizer, trabalhava em Fortaleza e quando souberam me botaram para fora, esse negócio todo. Então, para sobreviver, iniciei esse trabalho com os CD’s.

OM – Como foi a reação dos amigos, houve afastamento por parte deles?

MA – Alguns, até hoje ainda sofro muito preconceito.

OM – A maioria das pessoas que são portadoras do HIV preferem não revelar isso. Por que você prefere dizer que é soropositivo?

MA – Porque eu acho que como passaram para mim, creio que as pessoas têm que saber, porque muita gente pensa que não pega e o pior é que pega... Se transar sem camisinha, pega mesmo.

OM – Por que é que muita gente chega a duvidar que você não é doente?

MA – Honestamente, eu não sei por que isso acontece. Acho, talvez, que seja porque eu não tenha o biotipo do doente magro; meu cabelo não tá caindo nem nada. Porque as pessoas acham que é desse jeito, o cabelo cai, a pessoas ficam magras de vez e não é assim, leva um tempo para a doença se manifestar.

OM – Você acredita que nunca vai arranjar um emprego com carteira assinada e vai ser obrigado sempre a sobreviver de ‘bicos’?

MA – Acho que sim, a discriminação é muito grande e se a gente vai tentar um benefício, eles barram.

OM – A burocracia emperra?

MA – Não, eles barram mesmo. Eu já fui lá (no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS), já tentei, mas nada.

OM – Mas a LOAS (Lei Orgânica de Assistência Social) não garante esse benefício para os soropositivos?

MA – Garante, mas aqui no INSS de Mossoró sempre barra.

OM – Seria mais fácil se o processo fosse encaminhado por meio de uma entidade como o grupo Vidha?

MA – Não, acho que não, até por que Anselmo (presidente do Vidha) não está mais aqui.

OM – Como você analisa o trabalho de entidades como o grupo Vidha, a Rede de Pessoas Convivendo com Aids?

MA – Honestamente, eu não sei por que não tenho intimidade com o pessoal desses grupos.

OM – Mas do ponto de vista social, que benefícios você vê no trabalho que eles fazem?

MA – Não, só faz deixar quem tem a doença se sentir menor que as outras pessoas. Eu acho assim.

OM – A maior discriminação que você sofreu até hoje foi na questão do emprego.

MA – Acho que sim. Se você vai procurar um emprego e se souber que você tem a doença, não lhe dão a vaga. Me mostre a pessoa que tem HIV aqui (em Mossoró) que trabalha. Eu não conheço nenhum. Tem também a questão do preconceito. Muita gente vira as costas para você.

OM – Mesmo você se declarando soropositivo, mostrando suas condições, as empresas não lhe dão chance?

MA – A mim não dão. Depois que cheguei de Fortaleza já fui ao Sine (Sistema Nacional de Emprego) várias vezes e não consegui nada. Sou vigilante, tenho o 2º grau.

OM – Você tem irmãos? Como é a relação com eles depois da doença?

MA – Tenho duas irmãs. Uma mora em Salvador, a outra mora aqui, mas vive com o esposo dela, não temos muito contato.

OM – Qual o grande desafio dos portadores do HIV?

MA – Se cuidar. Não botar na cabeça que você tem a doença, se não você vai acabar pirando.

OM – Você fala que aqui falta muito apoio.

MA – Rapaz, para mim falta. Porque, como eu falei, já tentei o benefício, mas quando chega lá eles dizem: não, você pode trabalhar. Trabalhar em quê? Como?

OM – Como se deu a sua contaminação?

MA – Rapaz, estourou a camisinha.

OM – Aqui em Mossoró, as pessoas são muito preconceituosas em relação a isso?

MA – Muita gente, não.

OM – As pessoas com quem você tem relação sexual sabem que você é soropositivo?

MA – As pessoas com quem eu vou transar eu falo, para evitar problemas futuros.

OM – O Ministério da Saúde estima que para cada pessoa que declaradamente tem a doença, existem outras 4 que têm e não sabem. Esse é o grande risco?

MA – Acho que é por aí.

OM – Na sua opinião, as pessoas têm medo de fazer o teste para saber se têm Aids?

MA – Acho que muita gente tem, pelo menos alguns amigos meus têm.

OM – Todas as pessoas com quem você tem amizade sabem que você é soropositivo?

MA – Sabem. Eu falo.

OM – De quem você recebe o maior incentivo para continuar lutando, para continuar vivendo?

MA – Do meu avô. O velho tem 86 anos e é gente muito boa.

OM – Fale um pouco desse trabalho com CD’s que você vem fazendo.

MA – O CD é o seguinte: a gente entra em contato com as pessoas, oferece e aquelas pessoas que querem ajudar, ajudam... Porque, como eu falei antes, não consegui emprego, então eu faço isso como uma maneira de sobreviver.

OM – Qual o lucro que você tem?

MA – De cada CD que eu entrego, eu compro a R$ 5,00. Aí tem o preço da gasolina, a manutenção da moto, conta de telefone, a gente vai entregar, e no fim não sobra quase nada. Honestamente, é muito difícil. Eu entrego o CD a R$ 10,00.

OM – Você tem passado por situações muito difíceis: a doença, a perda de seu pai (que morreu há dois meses). Você acha que são desafios que Deus está lhe colocando?

MA – Acho que é. Mas a vida continua.

OM – Você tem buscado ajuda em alguma igreja?

MA – De vez em quando, eu vou à igreja.

OM – Que valor você dá à vida hoje?

MA – Sinceramente, há certos momentos em que eu não dou valor nenhum à vida, não. São tantos problemas. Aí eu penso por outro lado, tenho que batalhar, tenho que correr atrás. Até porque ainda não morri, estou vivo. Mas, às vezes, fico meio assim. São problemas, a doença, contas, um monte de coisa, a gente fica perturbado, mas passa, começo a ver por outro lado.

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Mossoró-RN, domingo, 5 de janeiro de 2003