MARCOS ARAÚJO
 

"EMPRESÁRIOS" MODERNOS, argh!

Tenho observado que ultimamente todo mundo quer ser identificado como empresário. A todo momento os jornais e a televisão retratam as pessoas apondo logo abaixo uma legenda enorme: "empresário". Não sei se estou na contramão da história, ou se sou um saudosista, mas para mim empresário é a pessoa que verdadeiramente empreende. Eu sou do tempo que o empresário era aquele agente econômico que, percebendo oportunidades de lucro, reunia fatores de produção numa empresa. Dava duro, cumpria extensa jornada de trabalho, mourejava do nascer ao pôr-do-sol. Desse meu tempo escasseiam os exemplos, podendo eu citar de pronto Vilmar Pereira, um obstinado umarizalense que aqui se instalou e fez história. Por méritos próprios, Vilmar Pereira construiu patrimônio e deu crescimento a Mossoró, empregando pessoas e recursos na geração de renda para muitas famílias. Dá gosto e orgulho ao mossoroense ver as placas da Vipetro pelas ruas de Natal, em obras para a Potigás. Lá do Gavião - como chamavam Umarizal, veio também Zé Dias da Ótica. Por aqui ele firmou-se no ramo ótico, criando várias empresas. Com mais de 70 anos de idade, diariamente Zé Dias ainda dá expediente. Tem Tibério Rosado, que com todos esses problemas da Transal e o caos urbano que se transformou Mossoró na era pós-mototáxi, ainda está lutando para sobreviver. Tem Soutinho e Fernando Rosado no sal, tem Souzinha (Parque Elétrico) e Rutênio na construção civil... São muitos os exemplos. E nenhum desses anda se ufanando por aí que é empresário.

Mas, aqui, em Natal e no sul do país, surgiu o "empresário" virtual, um novo modelo de empreendedor que é um deboche para com os empresários tradicionais. O seu negócio é desconhecido, ou pouquíssimo conhecido. Esses capitalistas modernos vivem do ócio, sempre bronzeados, promovendo festas caríssimas, envolvidos com belas modelos ou meninas de programa. Esse tal de Alexandre Accioly é um dessa espécie. Para eles, acordar só às dez horas, e ainda assim para tomar um gole de café, lê alguns e-mails, colocar um CD, fazer exercício numa miniacademia montada no quarto, pôr os pés para cima e as mãos atrás da cabeça e só ao meio-dia é que pode começar a organizar como será seu dia de "trabalho".

É esta a descrição perfeita  de um "empresário" moderno segundo a teoria do ócio criativo do sociólogo italiano Domenico de Masi. Para ele, na sociedade pós-industrial atual, o homem é apenas mais um elemento produtivo, não há distribuição igualitária do poder, do saber e do trabalho e uma verdadeira obsessão consumista faz do homem um autômato sem tempo para desenvolver-se como um todo. O sociólogo diz que o trabalho mata a criatividade e convida a todos a não fazer nada. No meu tempo, o lazer era uma compensação pelas horas trabalhadas, hoje é uma obrigação para quem quer ter "qualidade de vida". Conheço uns amigos que falam tanto em qualidade de vida que até esquecem de que o trabalho também faz parte da vida. Um deles promove churrascos diariamente (ops! quase dedurava o amigo), e me disse que está com ergofobia, que em grego significaria pavor ao trabalho.  

Ah, já ia esquecendo. O empresário moderno também é espalhafatoso. Tem Rolex ou Patek Philippe no braço, carro importado e apartamento espetacular. O problema é a instabilidade com que conduz seus negócios. Ou se endivida e quebra logo, ou dá um trambique grande e quebra alguém. Honra e ética são incompatíveis com os seus tratos comerciais. Bom, esses requisitos não são levados mais em consideração, afinal nesses tempos modernos e de guerra contra o Iraque quem tem honra, moral e ética são alguns loucos saudosistas, mumíticos, cheirando naftalina. Ó tempos, Ó sinais!

 

  

 

MARCOS ARAÚJO
EMAIL: marcos@juxtalegem.com.br

35, é advogado, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
 

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Mossoró-RN, terça-feira, 4 de dezembro de 2002