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 Acusados de matar Elizete Moura vão a julgamento

 Eduardo Thomé
Da editoria de Polícia

Os acusados chegam ao TJP e sentam no banco dos réus perante o juiz Roberto Guedes e o Conselho de Sentença  ASSU – Teve início na manhã de ontem nesta cidade, a sessão do Tribunal do Júri Popular (TJP) mais esperada dos últimos cinco anos. Sentaram no banco dos réus quatro das sete pessoas acusadas de envolvimento na morte da menor Elizete de Moura Lemos, ocorrida no dia 26 de dezembro de 1996, na comunidade de Arapuá, município de Ipanguaçu. Trata-se de Francisco Veridiano Fernandes da Costa, “Fifi”; Luzialba Pinto Fernandes, Wallace Cristiano Fernandes e Carlúcia Maria de Oliveira. O juiz Roberto Guedes presidiu os trabalhos que provavelmente só serão concluídos na noite de hoje. Ontem, até o fechamento desta edição, ainda estavam sendo ouvidas as testemunhas de acusação e defesa.

Os advogados Paulo Lopo Saraiva, Abraão Dutra e José Galdino atuam como defensores dos quatro acusados que estão presos na Penitenciária Agrícola Mário Negócio (PAMN). A sessão de ontem começou com uma hora e meia de atraso, devido ao transporte dos presos.

Temendo a realização de manifestações populares, a exemplo do que aconteceu nas vezes em que os acusados de terem matado Elizete Moura tiveram de se apresentar à Justiça desta comarca, o tenente-coronel Luciano Queiroz de Araújo, comandante do Décimo Batalhão de Polícia Militar (10º BPM), montou um rígido esquema de segurança em torno do local onde a sessão está sendo realizada, o auditório da Câmara Municipal. Por sua vez, durante todo o dia de ontem não foi registrada nenhuma mobilização de protesto.

Das sete pessoas envolvidas, até o momento apenas uma foi julgada. Trata-se de Francisco Heleno Felipe, o “Heleno de Gelon”. Ele foi condenado a 18 anos de prisão, que vem cumprindo no regime fechado da PAMN. Jofre Pinto Fernandes e Kátia Fernandes da Costa também foram sentenciados, há cerca de três anos, mas seus advogados recorreram da decisão e eles vão submeter-se a um novo julgamento, o que deverá ocorrer no dia 7 de maio próximo. O juiz Roberto Guedes quando abria a sessão ontem, resolveu desmembrar o processo dos outros quatro.

Luzialba depõe e desabafa apontando outros rumos nas investigações

ASSU – Transcorrido num clima de tranqüilidade, o primeiro dia de julgamento dos acusados no envolvimento na morte de Elizete de Moura Lemos foi marcado pela tomada de depoimento dos quatro presos de justiça: Francisco Veridiano, Wallace Cristiano, Carlúcia Maria e Luzialba Pinto, esta última ao depor resolveu abrir o jogo e declarar quem possivelmente possa estar por trás do que ela chama de uma armação para destruir a sua família.

Perante o juiz Roberto Guedes, que presidiu a sessão em substituição a Guilherme Cortêz, ausente devido a problemas de saúde de um dos seus filhos e ainda de um auditório lotado, Luzialba Pinto acusou a sua conterrânea “Lurdinha de Dôncio”, irmã do ex-vice-prefeito do município de Ipanguaçu, como a pessoa que tramou tudo o que aconteceu com a menor Elizete de Moura Lemos, que foi morta com requintes de perversidade e submetida a um ritual de magia negra.

Segundo Luzialba Pinto, o plano elaborado por “Lurdinha de Dôncio” tinha o seguinte objetivo: o seu irmão havia sido eleito na chapa encabeçada por José Wilson. A morte seria executada e a acusação iria para o prefeito que, constatado a sua participação no caso, como chegou a ser cogitado, ele seria afastado do cargo e em decorrência disso assumiria o seu irmão, conhecido como “Mário de Dôncio”.

A acusada arremessou sérias acusações também contra o bacharel Geraldo Luiz Albuquerque que, segundo ela, fez uma armação contra sua família. O delegado, conforme a depoente, quando vinha de Natal a Ipanguaçu, investigar o caso, dava expediente na casa de “Lurdinha de Dôncio”. “Eu estou há quase seis anos presa e na cadeia passei a estudar minuciosamente o caso. Sou inocente. Não praticamos essa maldade com aquela criança e a verdade vai aparecer”, desabafou.

Mulher diz que foi torturada para ter que assumir crime

ASSU – Dos quatro depoimentos tomados pelo juiz Roberto Guedes junto aos acusados de terem matado a menor Elizete de Moura Lemos, o de Carlúcia Maria de Oliveira foi o mais estarrecedor. Durante duas horas ela contou pormenores do que veio a passar para ter que assumir participação no crime praticado contra a criança e acusou o delegado Geraldo Luiz de Albuquerque e mais três agentes da Polícia Civil, sob sua coordenação, de a terem torturado e ameaçado também eliminar os filhos.

Bastante nervosa, chorando quase o tempo todo em que esteve perante o Conselho de Sentença depondo, Carlúcia Maria negou qualquer envolvimento seu como também dos outros acusados no caso e detalhou momentos de amargura que passou na cidade de Natal, quando para lá foi levada presa.

Conta Carlúcia que na noite do dia 27 de dezembro de 1997, portanto um ano depois que Elizete Moura foi morta, ela foi espancada por duas detentas em uma das celas da Delegacia de Polícia de Candelária. No dia seguinte, foi levada pelos três agentes de Geraldo Luiz – Euler, Jorge e Ricardo -, até uma fazenda nos arredores da capital onde novamente foi exposta a mais tortura.

Segundo a detenta, os homens a algemaram, colocaram-na em um pequeno banheiro, jogaram água em seu corpo e depois passaram a lhe aplicar descargas elétricas, chegando a fazer com que desmaiasse por várias vezes. “Quando acordei em uma das vezes, estava sem forças e toda urinada. Eles tiraram a minha roupa me deixando nua e tive que ficar enrolada em uma toalha. Esse sofrimento durou desde as 10 horas da manhã até as 2h30 do outro dia. Quando me levaram de volta para a Delegacia de Homicídios (DEHOM) em Candelária, chegando lá, em plena madrugada a primeira pessoa que encontrei foi o delegado Geraldo Luiz de Albuquerque”, relatou.

 

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Mossoró-RN, terça-feira, 8 de abril de 2003