Mossoró-RN, domingo 6 de agosto de 2006

AGRICULTOR SOFRIDO
João Neto
Poeta popular (Melancias - Apodi/RN)

Sou um agricultor sofrido
cheio de calos nas mãos
sofrendo vivo detido
junto a outros irmãos
que sofrem do mesmo jeito
e é até um desrespeito
para quem cultiva esse chão
sem ter quebra de tabus
tudo que a gente produz
vai de volta pra o patrão

Eu que fiz a minha roça
com tanta dedicação
tinha um boi e uma carroça
e uma enxada na mão
todo dia bem cedinho
pegava aquele caminho
em direção do trabalho
isso me serviu de lenda
numa sacola a merenda
que muitos chama quebra galho

No aceiro da caatinga
eu escolhi pra plantar
às vezes o patrão xinga
se a gente não zelar
ele disse meu meeiro
vou lhe emprestar dinheiro
pra limpar a sua roça
se vire como pudere se a safra não der
recebo o boi ou a carroça

Ali eu fiz uma feira
e contratei um peão
e segunda sem brincadeira
meti a enxada no chão
cuidei do milho e do feijão
e do pouco de algodão
toda roça eu limpei
depois de muito cansado
tomei dinheiro emprestado
mas o peão eu paguei
Minha pele ficou preta
com o calor que afronta
quando terminou a colheita
mandei somar minha conta
o patrão somou na hora
e teve um tal de noves fora
que nem sei como foi
ele disse, tu entenda
hoje eu vou levar a renda
e depois eu levo o boi

Aí eu fiquei pensando
o que aconteceu comigo
não é me lamentando
mas será que é um castigo?
por isso falo dos problemas sociais
duas classes desiguais
é difícil de entender
por que o rico quer pegar depois de pronto
o pobre entra em confronto
sem saber se defender

Derramei o meu suor
trabalhei fiquei cativo
eu sofri de fazer dó
ainda bem que tô vivo
fico pensativo nessa grande diferença
só deu dá a recompensa
e o direito de viver
enquanto o rico vive em mordomia
o pobre a cada dia
aumenta mais seu sofrer

Olha tem uma coisa
eu não sei como vai ser
já falei pra minha esposa
como é que vou viver
plantar mais eu não planto
digo isso e garanto
toda essa idéia nossa
pode até ser uma loucura
mas andei fazendo juras
de nunca mais ir à roça.

DAS UTOPIAS
Mário Quintana

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

ÂNCORA
Sílvio Atanes
Escriba digital e repórter de papel (Santos/SP)

novos cabelos
liberam libélulas
libelos, cabalas
balística paixão
aponta o céu
da boca
planetário néctar
consome o sumo
essência centenária
abre brechas
chacras ressecados
tártaro da saudade
vigora na víbora
ebúrnea
da esbórnia

(um pio, um fio
o fantasma volta
escolta de véus
e correntes
dormentes)

CANTATA PARA NATAL
João da Mata
Poeta (Natal/RN)

Ao poeta Marcos Ferreira

" Não cante tua cidade, deixa- a em paz"
                                        Drummond

São quatrocentos retratos
Quatrocentos três- por-quatro
Cidade quatrocentão
Trago-te no coração
O mar te bronzeia
E o sol te faz fagueira
Teus verdes seios acaricio
E te banhas por inteira
E o galo cantando
Lá na torre de Toinho
Nos convida a um carinho
Na pedra do rosário
Cidade outrora presépio
Foi assaltada de prédios
Pirulitada de falos
A vida sobe e eu calo
Cidade macondenada
À vida só de fachada
Já te quiseram aboio
E te fizeram de apoio
Trampolim de outras vitórias
Somos parte desta história
Que te contam em três por quatro
E cansamos de maltratos
Tu és ponta do Brasil
Entre outras mil
És tu Natal
Meu Carnaval
Natal for all
NATAL PARA TODOS
 

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