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Tesouro
fossilizado
IZAÍRA THALITA
Da Redação
Um
mundo composto de animais e vegetais hoje inexistentes, verdadeiros
tesouros fossilizados, podem estar escondidos abaixo de nossos pés.
Assim está comprovado
diante dos achados paleontológicos que somente agora poderão ser
organizados pela Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM).
A partir da organização
e reestruturação do seu Museu Paleontológico, uma verdadeira e
surpreendente quantidade de animais fossilizados com até 90 milhões de
anos poderão estar em breve acessíveis a toda a comunidade, seja ela
estudante, professor, cientista ou pesquisador.
Atualmente, cerca de duas
a três toneladas de fósseis se encontram despejadas em uma sala, sem
maiores cuidados na Escola Superior. Porém, até o início da segunda
quinzena deste mês, todos estes fósseis começarão a ser separados para
depois serem distribuídos nas escolas da rede estadual de ensino.
Uma equipe de
paleontólogos do Rio de Janeiro já esteve na Esam separando e
identificando vários tipos de fósseis, coletados pelo professor Vingt-un
Rosado nas últimas décadas em Mossoró e em outras cidades do oeste
potiguar. Os fósseis foram doados à Esam pelo professor, para que se
fizesse um estudo e uma utilização apropriada de todo esse material.
A equipe acabou
constatando, conforme relatórios da Esam, que o acervo da escola é de
grande importância.
Da paleontologia do
período cretáceo, de 90 a 120 milhões de anos atrás, talvez seja um
dos mais completos, senão o mais completo da América Latina.
Todas as espécies do
período, e inclusive novas espécies, foram identificadas no acervo. As
novas espécies que não haviam sido catalogadas cientificamente, acabaram
recebendo denominações que foram registradas pelos paleontólogos como
‘rosadoe’, em homenagem a Vingt-un; ‘mossoroenses’ e ‘upanemenses’
em homenagem aos locais de origem destes fósseis.
CARTAS –
Há ainda um acervo de cartas raras, datadas do início do século XIX de
importantes pesquisadores que também serão beneficiadas pelo convênio
com a Secretaria Estadual de Educação. As cartas serão recuperadas e
suas cópias ficarão expostas aos visitantes no projeto de construção
do novo museu.
Mais do que uma parceria pela educação,
os trabalhos que serão possibilitados a partir dos recursos fornecidos
pelo Estado são uma grande e importante contribuição para a
manutenção da História.

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Mossoró
foi coberta pelo oceano
A existência dos
fósseis coletados em abundância em solo mossoroense confirma a idéia de
pesquisadores da Esam de que toda a região oeste do Estado foi coberto
pelo mar, há 90 milhões de anos.
A afirmação é também
do professor e responsável pelo Departamento de Solos da Esam, Maurício
de Oliveira, atualmente também responsável pelos fósseis e pelo Museu
Paleontológico da Escola Superior.
Segundo Maurício de
Oliveira, de acordo com os estudos da Esam, diante da quantidade de
fósseis encontrada na região oeste, Mossoró teria sido, há alguns
milhões de anos, coberta pelo oceano, assim como as regiões de Upanema e
Grossos.
Conforme explica o
professor, nesta região a diferença de níveis entre Mossoró e Assu era
de 800 metros, como se a parte onde hoje está Mossoró fosse um grande
buraco e significando ainda que o mar tinha 800 metros de profundidade,
que é o arenito que se tem em Mossoró em grande quantidade, onde se tira
a água e está em torno de 800 a 1.200 metros.
"Isto significa
dizer que ele já foi posto, cavado, depois o mar avançou, preencheu isso
aqui e essa lama que ficou no fundo do mar formou esse calcário que é
esse material que se faz pedra para calçamento. Então, é nesse
calcário onde os fósseis se encontram em maior quantidade, e também no
arenito. Mossoró seria mesmo o fundo do mar.", explica o professor.
Maurício reforça que os fósseis do
arenito são praiais, ou seja, viveram em ambientes de águas rasas e que
este é o caso dos fósseis de arenito encontrados nas áreas de Upanema,
Caraúbas e Apodi. Essas cidades teriam sido praias, há 90 milhões de
anos.

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Convênio
possibilitará distribuição
dos fósseis nas escolas
Com a legalização da
Fundação Guimarães Duque, da Escola Superior de Agricultura de
Mossoró, no último mês, foi possível se firmar um convênio entre o
governo do Estado, Secretaria Estadual de Educação e a entidade, para
realizar um dos mais importantes projetos para a área de educação.
Segundo Maurício de
Oliveira, a Fundação Vingt-un Rosado procurou a Secretaria de Educação
do Estado, por intermédio do professor Pedro Almeida, e foi firmado um
convênio com a Fundação Guimarães Duque, conseguindo os recursos para
o Museu de Paleontologia.
A Secretaria Estadual
irá promover investimentos da ordem de R$ 30 mil para a criação de um
verdadeiro Museu de Paleontologia e organizar os fósseis catalogados.
Em troca, a Esam irá
distribuir às escolas de 1° e 2° graus da rede estadual de ensino quase
três toneladas de fósseis, formando kits com várias espécies que
estão catalogadas com seus nomes científicos para que os estudantes
tenham contato com essa amostra e os professores façam visitas ao museu
auxiliando na educação sobre esta era paleontológica.
Faz parte ainda do
projeto, que está também dependendo de financiamentos, a criação de um
CD-rom, onde o estudante, além do kit contendo as peças, possa levar
também um CD-rom onde tenha todas as informações do museu, as espécies
todas catalogadas, filmes sobre o período geológico, animações e de
como se fossilizam os animais e vegetais ao longo do tempo.
"A nossa idéia é de fazer com que,
se a escola que não puder vir ao museu, que o museu vá a esta escola.
Temos a idéia de que inclusive a gente coloque no site da Esam uma visita
virtual ao museu", afirma Maurício de Oliveira, ressaltando que esse
projeto está dependendo única e exclusivamente da liberação dos
recursos.
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Recursos
chegarão este mês
Segundo o secretário
estadual de Educação, Pedro Almeida, que já conhecia o acervo do Museu,
a legalização da Fundação Guimarães Duque foi o pontapé inicial para
que o projeto pudesse ser viabilizado.
Os recursos, conforme o
secretário, chegarão a partir da segunda quinzena de novembro, para que
no próximo ano os kits possam ser distribuídos para as escolas.
"Esses recursos já
foram destinados e a partir deste mês estarão na Esam. Com o convênio,
vamos dotar a Esam de recursos para que se recupere todo o museu e que se
faça a organização das espécies de fósseis e também de cartas
centenárias importantíssimas. Em contrapartida, as Escolas do ensino
médio vão receber kits que serão elaborados pela Esam, contendo os
fósseis", afirma Pedro Almeida.
Os trabalhos, se forem iniciados este
mês, durante seis meses aproximadamente, a Esam acredita estar com pelo
menos a primeira parte do trabalho, que é a dos kits, que serão
acompanhados por pesquisadores da UFRN, do Instituto Nacional Histórico,
que darão a sua contribuição com essa parte de identificação e o
Museu Nacional do Rio de Janeiro.

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Vingt-un,
'o catador de pedras'
Uma das mais importantes
ações para que os fósseis que hoje estão na Esam pudessem se tornar o
acervo mais completo da era paleontológica em nível nacional deve-se ao
professor Vingt-un Rosado.
Além de inquieto
conhecedor das palavras, Vingt-un Rosado sempre foi um curioso da área de
paleontologia. Descobriu em várias regiões de calcário em Mossoró
fósseis que lhe motivaram a realizar as escavações. No entanto, o
professor se intitula modestamente um simples ‘catador de pedras’.
A contribuição de
Vingt-un vai além do fato de ter ‘catado essas pedras’, como ele
modestamente diz. Ele juntou esse material e, em seguida, mantinha
contatos com pesquisadores e cientistas que trabalhavam na área de
Paleontologia do Museu Nacional do Rio de Janeiro, onde estes fósseis
foram identificados. O material era enviado para estes pesquisadores,
sobretudo seus amigos, que iam identificando e classificando todos esses
fósseis.
"Os paleontólogos
fizeram a identificação dos fósseis a partir de Vingt-un. Assim como
nós normalmente chamamos feijão pelo nome científico, os animais e
vegetais fossilizados também recebem nomes científicos, estão
classificados por família, ordem, espécie zootécnica, botânica e
zoológica. Porém, havia algumas espécies que ainda não estavam
catalogadas e receberam o nome de ‘rosadoe’, em homenagem à ele, que
foi quem primeiro remeteu esses fósseis à pesquisa", afirma o
professor Maurício.
Na Esam, várias
espécies receberam nomes novos e foram catalogadas. Quando os
paleontólogos identificavam e viam o gênero e espécie que não estavam
inscritos ou registrados, em homenagem a Vingt-un, foram feitas
denominações como ‘rosadoe’ em sua homenagem. Outras são ‘mossoroenses’
e ainda "upanemenses", de acordo com o local de origem.
"Normalmente, o cientista que faz a
avaliação da espécie batiza com o nome da região ou de alguém.
Vingt-un também foi homenageado pela paleontologia", afirma
Maurício.
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Cartas
antigas também serão recuperadas pelo Museu Histórico do Rio de
Janeiro
Outra ação que é
importante e faz parte também do projeto e do convênio com o Estado
é a recuperação de algumas cartas centenárias. E foi novamente o
professor Vingt-un Rosado que, além de modestamente se intitular ‘catador
de pedras’, também coletou essas cartas e as doou à Esam.
Algumas das cartas
possuem mais de cem anos, escritas em 1890, 1892. São documentos
raríssimos, de Hard, Carl Burlen, de grandes cientistas,
palentólogos, que estiveram aqui na região na época e que
normalmente escreviam cartas descrevendo vários ambientes. Algumas
contêm informações que só anos depois foram publicadas no
"Livro de Geologia do Brasil".
As cartas foram
colhidas por Vingt-un por meio de familiares desses cientistas e até
mesmo através deles. Algumas cartas são endereçadas ao próprio
Vingt-un, de quando ele encaminhava determinadas amostras.
"Estas
informações nessas cartas significaram uma contribuição muito
grande para o que depois foi publicado no "Livro de Geologia do
Brasil". Uma série de informações publicadas estava nestas
cartas. Às vezes, o indivíduo respondia descrevendo a morfologia
daqueles fósseis e contando exatamente há quantas estavam lá
aquelas pesquisas naquele momento", completa o professor
Maurício.
A preocupação da
Esam é que, devido à antigüidade do papel, a tinta de antigamente,
em contato com a luz e com a atmosfera, perca a cor com o tempo.
Muitas das cartas estão completamente esmaecidas, porém os técnicos
que estiveram recentemente na Esam reforçaram que as cartas nesse
estado não estão completamente perdidas.
Cerca de 90% do
acervo ainda pode ser recuperado. Outros 10% foram destruídos pelas
traças.
RECUPERAÇÃO –
As cartas vão para o Rio de Janeiro para se fazer esse trabalho de
recuperação. As equipes de estudo de Natal, através da Biblioteca
da UFRN e do Instituto Histórico e Geográfico, já comunicaram a
parceria que farão com a equipe do Museu Nacional do Rio de Janeiro.
Ao ser recuperadas,
as cartas voltarão acondicionadas em material específico (antifogo,
antiluminosidade) e os originais vão ficar guardados em pequenas
caixas de aço. Após esse trabalho, vão ser feitas cópias e serão
as cópias que vão ser expostas ao público, não as originais.
"Estas cartas
têm valores incontestáveis. Os próprios especialistas que estiveram
aqui nos disseram que se fôssemos leiloar as cartas, estas teriam
valores surpreendentes. Por isso, expor os originais pode ser
perigoso. Elas ficarão aqui na Esam, num espaço maior e mais
seguro", completa Maurício de Oliveira.
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