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O feiticeiro do cordel

MARCOS FERREIRA
Editor de Cultura
universo@omossoroense.com.br

Apesar de só ter começado a escrever cordéis há pouco mais de três anos, o poeta cordelista Antônio Francisco Teixeira de Melo, 53, vem sendo apontado pela crítica especializada como um dos nomes mais promissores e fecundos no âmbito da poesia popular no Rio Grande do Norte. O livro "Dez Cordéis Num Cordel Só", publicado esta semana pela Coleção Mossoroense e Fundação Vingt-un Rosado, representa o marco de sua estréia em livro.

A obra, com 143 páginas e capa assinada pelo também poeta e publicitário Rogério Dias, traz um comentário diferente para cada um dos dez poemas que formam o livro, onde todas as opiniões impressas são unânimes em reconhecer em Antônio Francisco os predicados e o brilho de um grande expoente do fazer poético regional. O próprio título, harmoniosamente vazado nas sílabas de uma redondilha maior, é exemplo de sua habilidade com as palavras.

"Hoje não tenho dúvida que Antônio Francisco é o novo Patativa do Assaré. Se comigo aprendeu alguma coisa de poesia, está provado que o bom aluno supera fácil o professor, pois o ‘Curso de Iniciação à Poesia’, em que o vi entre os ‘alunos’, foi só uma desculpa para Antônio Francisco tirar do baú o grande poeta que há muito era", diz o também cordelista Crispiniano Neto, uma das autoridades em literatura popular mais acatadas da região.

Formado em História pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Antônio Francisco retrata neste seu "Dez Cordéis Num Cordel Só" inúmeras situações e imagens da vida cotidiana do homem nordestino, sempre costurando ao longo dos seus enredos um fundo de reflexão social e espiritual. No poema "Os Sete Constituintes", por exemplo, ele consegue descrever com singular beleza o diálogo de sete animais sob a copa de um juazeiro: um porco, um cachorro, uma cobra, um burro, um rato, um morcego e uma vaca discutem providências e trocam testemunhos acerca do comportamento dos seres humanos neste mundo.

Perguntado sobre qual a relação entre o poeta e os versos que escreve, Antônio Francisco nos fala com sentimento e simplicidade sobre seu ofício poético: "Minha poesia, apesar de algumas metáforas ou parábolas, procura se expressar na linguagem do homem comum, na fala simples do cotidiano nordestino. Nosso meio social, com seus encantos e desencantos, é fonte de minha inspiração, é de onde recolho a matéria-prima dos cordéis que formam este meu primeiro livro. Acho que nos meus versos está o retrato do meu espírito. São a nota fiscal de minha personalidade, a minha visão sobre as coisas da vida, entende?"

Para o historiador e pesquisador Geraldo Maia, que ficou encarregado de comentar o poema ‘O Guarda-Chuva de Prata’, "a poesia de Antônio Francisco tem o incrível poder de encantar e fascinar a todos que dela tomam conhecimento. Encanta na medida que nos transporta para o mundo imaginário que o autor cria para situar a sua história; fascina pela beleza de suas personagens, pela leveza dos seus versos e por sua imaginação fértil".

Já o poeta Caio César Muniz, presidente da POEMA – Poetas e Prosadores de Mossoró, deu a seguinte opinião sobre um outro cordel de Antônio Francisco: "Sempre que tenho o prazer de ouvi-lo recitar ‘Meu Sonho’, me emociono ao final, pois sei que esse planeta encantado que ele sonhou só existe na sua mente maravilhosa", avalia. Além destas primeiras opiniões, o livro de Antônio Francisco ainda é comentado por nomes como Iremar Leite, Rubens Coelho, Kidelmir Dantas, Cid Augusto, Luís Antônio, Aldacir de França, José Ribamar, Luís Campos, Francisco Nolasco, entre outros.

LANÇAMENTO:

O livro "Dez Cordéis Num Cordel Só" será lançado no próximo dia 15, quinta-feira, a partir das 20 horas, nas dependências do Clube Aceu, quando será apresentado um sarau poético e musical com as presenças de representantes da Casa do Cantador, Clube da Poesia, grupos Poema e Camelagem Cultural, além dos músicos Mazinho Viana, Raimundo Putim, Genildo Costa, Amilton Fonseca, Hebert Mota, entre outros. O cerimonial ficará a cargo do poeta Crispiniano Neto.

TRECHOS DE ALGUNS POEMAS:

O GUARDA-CHUVA DE PRATA

Quem deu força à correnteza,
Botou o verde na mata,
Dê força à minha garganta
Como deu voz à cascata
Pra eu contar a história
Do guarda-chuva de prata.
(...)

AS SEIS MOEDAS DE OURO

Seu Zequinha era um galego
Do rosto da cor de brasa,
Morava longe da gente,
No Sítio Cacimba Rasa,
Mas, foi não foi, Seu Zequinha
Passava o dia lá em casa.
(...)
A OITAVA MARAVILHA

Como na antiga Grécia,
O Nordeste também tinha
Os seus deuses mitológicos –
Deus da chuva, deus da vinha,
Do verão, da primavera,
Mas, o mais famoso era
Cafuné – deus da morrinha.
(...)

A ARCA DE NOÉ

Todo mundo ouviu falar
No dilúvio universal
Da arca que Noé fez
E colocou um casal
De todo bicho que tinha
Dentro do reino animal.
(...)