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Entrevista

Aglair Abreu

A entrevista de hoje vai mostrar um pouco de uma das mais completas profissionais da área de comunicação do Rio Grande do Norte, Maria Aglair de Abreu. Formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Aglair está há 20 anos no batente. Durante esse tempo, vem acumulando experiência em todos os veículos de comunicação. A jornalista já deixou sua marca nos jornais impressos Gazeta do Oeste, O Mossoroense, Diário de Natal e Tribuna do Norte. Trabalhou ainda como repórter das tevês Cabugi e Tropical, além de atuar no rádio. Aglair passou pelas rádios Difusora, Libertadora, tendo atuado também como produtora e apresentadora do programa Canal Aberto, veiculado pela FM Santa Clara. Além do trabalho direcionado aos veículos de comunicação, Aglair também atuou como assessora de comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, de onde atualmente está afastada. Nos dias de hoje, como reconhecimento por seu talento e competência, Aglair exerce a função de secretária de Comunicação Social do Município. Nesta entrevista, ela nos fala de sua vocação, do que vivenciou na profissão e dá seu parecer sobre o verdadeiro profissional.

Por: SAYONARA AMORIM

O Mossoroense – Você é considerada não só em Mossoró, mas também no Estado, como uma das mais completas profissionais da área de comunicação social. Você se sente assim?

Aglair Abreu – As pessoas costumam dizer que eu sou multimídia. Felizmente, eu tive a oportunidade de passar por todos os veículos de comunicação, até chegando mesmo a trabalhar em jornal, rádio e televisão simultaneamente. Eu atribuo tudo isso à minha vocação para o jornalismo.

OM – Na sua visão, um jornalista só é completo se passar por todos os veículos de comunicação?

AA – Para mim, jornalista é aquele profissional que vive a profissão 24 horas. Eu nunca me senti cansada para o jornalismo, não importam a hora nem o local, mas sim divulgar os fatos. Quando nos decidimos por uma profissão, temos que entrar pra valer. Uma vez, uma colega de profissão comentou que ficou surpresa ao me ver divulgando uma notícia no rádio, na TV e, posteriormente, assinando a matéria no jornal com o mesmo tema. Foi no lançamento do vôo da BRA em Mossoró, quando eu atuava nos três veículos ao mesmo tempo.

OM – Cada veículo de comunicação tem a sua linguagem própria. Como foi para você lidar com essas diferenças e dar conta do recado?

AA – Na verdade, é um desafio. Porque não se escreve para rádio o que se escreve pro jornal e pra televisão, mas, aos poucos, você vai conseguindo se adaptar e separar cada tipo de linguagem e é possível dar conta do recado.

OM – Dos diferentes veículos de comunicação nos quais você já trabalhou, qual deles você considera mais difícil ou que exige mais do profissional?

AA – Cada veículo tem sua particularidade. No rádio, por exemplo, é preciso fazer com que o ouvinte imagine a cena da notícia e o jornalista tem que passar a própria imagem através da fala. Na televisão não se pode dar uma informação que não tenha imagem e é aí que eu abro um parêntese para dizer que fazer texto para televisão é complicado porque, mesmo com a notícia, sem a imagem a notícia não pode ser divulgada. Já no jornal, é preciso também fazer com que o leitor sinta a cena, mas aí tem a foto para reforçar. Portanto, considero que o mais difícil é divulgar a notícia através do rádio, embora a televisão tenha essa incompatibilidade de ter que casar a notícia com a imagem.

OM – Durante essa trajetória de 20 anos atuando no jornalismo, cite um fato que ficou marcado na sua memória, um episódio que você considere inesquecível?

AA – Foram muitos fatos marcantes, mas dois eu tenho certeza que jamais vou esquecer pela forma como eles mexeram com a minha sensibilidade como ser humano. Uma foi durante uma matéria que fiz para a TV Cabugi, que gerou a campanha contra a fome. Acho que foi em 1995, quando uma senhora da zona rural tinha saído de casa em busca de comida e havia se perdido e aquilo chocou os telespectadores a ponto deles exigirem uma campanha de combate à fome. O outro episódio que me deixou muito chocada foi durante uma matéria também na zona rural de Mossoró, onde eu cheguei a presenciar uma senhora que fazia uma sopa de osso já utilizado e o reaproveitava. Até hoje, eu me arrepio ao lembrar daquela cena. Só conhece a fome quem presencia o que eu presenciei... E não precisa ser jornalista para perceber o drama dessas famílias, basta ser gente.

OM – Você consegue ser imparcial e dar a notícia sem se envolver?

AA – Eu confesso que já me emocionei muito e chorei muitas vezes fazendo matérias como essas que citei e cenas como crianças que sobrevivem nos lixões e pessoas que não têm vida digna mexem comigo. Querendo ou não, o jornalista se envolve na notícia. Eu, particularmente, não acredito no jornalista que vá pro computador ou para a máquina de escrever e não se insira naquele contexto. Se a matéria não tiver alma, ela jamais tocará o leitor, jamais tocará o ouvinte. No momento em que o jornalista é um porta-voz da sociedade, ele não pode ficar distante do fato. Já pensou se o ser humano perder a capacidade de se emocionar ou de sonhar?, nada teria sentido. Se o jornalista não sente o drama, como vai falar do drama.

OM – Em qual área jornalística você mais se identifica e se sente mais à vontade para trabalhar?

AA – A área humana, cidadania. Gosto muito de fazer matérias que mostrem o respeito do ser humana. Gosto muito de fazer matérias com o homem do campo. Apesar de ter nascido no litoral, eu me identifico muito com o campo. As famílias que vivem nos assentamentos rurais enfrentam muitas dificuldades e o programa de Reforma Agrária do governo federal é deficiente e eu espero que agora no governo Lula isso possa mudar.

OM – E quanto aos jornalistas que se destinam a fazer matérias sensacionalistas, qual a sua opinião sobre esse tipo de trabalho?

AA – Eu acho que não é por aí. Por mais que o veículo de comunicação seja uma empresa, o papel do jornalista é educar o leitor, o ouvinte e o telespectador. Eu abomino sensacionalismo no jornalismo. Eu aproveito a oportunidade para criticar alguns setores da imprensa pela falta de ética. Precisamos recorrer a ética profissional.

OM – Como você avalia a chegada do curso de Comunicação Social em Mossoró e o potencial dos profissionais que atuam na área sem nunca ter passado por uma faculdade?

AA – Eu sou uma jornalista que saí dos bancos da universidade e me orgulho de ter passado pela faculdade, mas não deixo de reconhecer o talento dos profissionais de Mossoró. Acho que Mossoró tem o melhor jornalismo do Rio Grande do Norte, isso sem querer desmerecer os colegas da capital, mas os próprios jornalistas da capital dizem que aqui temos bons jornalistas. Com relação à chegada do curso de Comunicação Social, é importante pelo fato da ética que falta em alguns profissionais e a própria técnica. Mas a faculdade não ensina ninguém a escrever, ela dá a técnica. E se a pessoa tem aptidão, vai longe. Mossoró pode dizer que tem bons jornalistas, mesmo sem a graduação.

OM – Você se considera uma pessoa realizada no campo profissional e pessoal?

AA – Sim. Eu sou muito feliz e me sinto completamente realizada com o meu trabalho, com os colegas, com o meu companheiro Givanildo Silva e, em especial, com minha filha, que já está também atuando na área e me tirou um pouco a culpa que eu carregava por ter que me ausentar para trabalhar. Me sinto muito recompensada e tenho que agradecer a Deus todos os dias por ter conseguido chegar aonde muitas pessoas tentam chegar.

OM – Qual o seu conselho para as pessoas que estão iniciando na profissão de jornalista?

AA – Jornalismo é uma área encantadora. Tenho a dizer que lidar com pessoas e saber que tudo que se faz é importante. Eu sempre tive a consciência de que todo mundo tem o seu espaço e que ninguém toma o espaço de ninguém. O que diria aos colegas que estão na área e que estão começando é que todo mundo tem o seu valor e não adianta achar que passando por cima de alguém se vai conseguir chegar lá.

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Mossoró-RN, domingo, 9 de fevereiro de 2003